terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Fortaleza Quântica

Tudo meio assim, imagine, uma realidade, meio matrix, meio teoria da conspiração, meio tudo um pouco, meio mundo. O mundo é tudo um pouco disso, um pouco de matrix, um pouco de teoria da conspiração, um pouco de insanidade displicente, gerada pela chatice normativa dos não-loucos, chamados normais, mas por mim, agora que aprendi, chamados também de doidos. Dia especial: Kael, nome celestial, mas se eu fosse encarregado por um sistema diabólico e meio facista que eu fosse obrigado a chamar de chefe, mudaria o significado: O pescador de pessoas, ou talvez o pescador de loucuras. Pessoas, afinal, são loucuras, e Kael é aquele que tem o dom de conhecer pessoas extraordinárias. Encontramos com Kael, Kael está acompanhado. Vamos ao carro, vamos ao bar. Local sagrado chamado Beirute, tempos imemoriáveis de Brasília, maquete de experimentos do país.

Brasília é a cidade perfeita, de diversos pontos de vista, e assim foi planejada, com todo seu apartheid personalizado: Uma imponente, loucamente planejada acrópole. Segura, rica, um oásis no meio do deserto do planalto. Em torno, cidades que vivem para suprir Brasília de serviços básicos, cujos importantes moradores se recusariam a efetuar. Brasília é justamente, portanto, uma matrix dentro da própria, uma maquete em tamanho real do que seria a capital intergalática perfeita, regida pelo império, é claro.

No bar, ao som da chuva e à luz dum incenso, profundo, a bolha mais uma vez cresceu. Com certeza, pode-se dizer que foi só mais um bug do sistema: Tal encontro era proibido pelas leis quânticas, físicas, físico-químicas e bíblicas de acontecer. Provavelmente se trata dum encontro de realidades, como uma grande sala de bate-papo. Imagine-se entrando num lugar e deparando consigo mesmo: Choque de dimensões. Sentado num bar, deparo-me comigo mesmo, sentado à minha frente, porém numa dimensão ainda distante, já que, como pude ter a pretensão de ensinar, nos mantemos presos por nossas pessoais fortalezas quânticas, cérebros físicos inexistentes, imagens criadas por nossos próprios para proteção.

Digo e afirmo, sem medo de parecer (ou me mostrar) maluco – Sou Deus. Com toda certeza, afirmo sem medo da sua repreensão (ou apreensão), ou repressão: Constato, e os informo, sociedade louca do mundo, sociedade que me julga maluco perante os olhos cegos da justiça, tão injusta, como prova toda a história, possuo, como você, seu irmão, sua namorada e seu amante, um cérebro onipotente, onisciente, e onipresente. Por proteção, criamos, juntos, a convenção do mundo físico: Essa é a verdadeira palavra de Deus (a minha). Imagine um universo onde você poderia fazer tudo o que quisesse, mas onde também haveria o revés de todos os outros terem o mesmo poder que o seu. A sobrevivência não passaria, portanto, de uma utopia? Talvez um norte...? Pois bem, imagine um congresso que nunca existiu, fora da sua própria cabeça, onde todos os deuses, que são um só, e que sou eu, mas também pode ser você, depende da realidade que você escolher, se juntam e resolvem abdicar seus oni-poderes afim de viver. Pois bem, agora sabes de um segredo que muito poucos sabem.

É dito pela física quântica, que o cérebro é uma máquina quântica perfeita. Como no universo das possibilidades, cada uma delas gera uma nova realidade, e com isso há a criação e a existência constantes de realidades diferentes, o fato de vivermos uma só é mero medo. Nosso cérebro, como máquina quântica perfeita, é capaz de viver em todas as realidades, duas, ou uma só, escolhendo tais possibilidades com seu poder de previsão. O fato de seguirmos uma normalidade significa apenas que, nessa escolha de possibilidades, cada novo cérebro encarnado, ou cada ser humano, é condicionado pelos próprios pais, viventes do mundo físico, a escolherem sempre possibilidades que seguem algumas regras de existência, as tais Leis da Física, que também não existem necessariamente.

Sentamos no bar, bebemos cerveja, apreciamos a nossa loucura, ou lucidez agraciada. Trocamos pensamentos, palavras, verdades, mentiras, vidas. Com toda a certeza, tal conversa não existiu. O sistema se comprometeu de fazer uma limpeza. Me mataram em 98, entrei com a cara na porta, rasguei o supercílio. A injeção de anti-tetânica foi mal efetuada, bolhas de oxigênio surgiram por todo o meu sangue. Caio ficou mal na época, só que depois esqueceu. Mas então, nunca conheceu o Ribeiro. A Jah te Vi acabou, porque não teve ninguém para falar no ouvido dos moleques. Sem o Ribeiro, Caio nunca se tornou maluco do jeito que é. Caio nunca conheceu Ida, sua amada norueguesa, já que a Ida conheceu apenas o Ribeiro. Nunca se fez a ponte Edgar, Caio, Ribeiro, Kael. Caio nunca ficou tão amigo de Kael, apesar de acabarem se conhecendo. Lá se vai Caio, o profeta. Nunca houve, então, Caio, Kael, Zé e Chico sentados numa mesa. Afinal, Caio, Chico, Tássia e Diego são uma pessoa só. Afinal, Caio, Kael, Zé e Chico são também uma pessoa só. Chico e Zé são irmãos, ou são duas realidades de uma mesma pessoa, que nunca se encontraram. Chico morreu! Morreu novo, aos 8 anos! Nunca conheceu Dani, nem Marina, quanto mais Martha. Nunca conheceu ninguém, porque nunca existiu. Interpretando direito, Caio, Tássia, Diego, Kael e Zé são uma pessoa só: Chico, que é Deus. Chico morreu, ou talvez nunca tenha nem existido. Essa conversa nunca existiu. Esse texto também não.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Realidade fria, porém real

Já não escrevo como antes. Talvez seja porque passei por tudo, talvez seja apenas porque já me dói de forma diferente todas as dores do meu corpo. Por pouca vontade, exponho textos antigos; Antigas feridas, abertas eternamente como em foto, apesar de já não sentir sua dor, apesar de tais dores já me serem tão familiares, que deixaram a muito de me incomodar. Lembranças e saudades, de tempos saudosos e repletos de memórias. Parece, às vezes, que sou tudo isso, mas apenas isso: Lembranças, saudades. Saudades que senti, que sinto, que sentirei, que talvez, no meio dessa dormência, me esqueça do gosto, do cheiro, da sensação específica. Luas, lençóis, sorrisos, piscadelas, jeitos. Jeito próprio de piscar os olhos, expressões faciais marcantes. Tudo lembranças.

Já não escrevo tanto quanto antes, ou tão bem. Tanto, pois aparentemente as minhas marés fizeram trégua, e já não tenho tanta vontade de escrever. Tudo bem, tudo bem, todos dizem, é passageiro, é fase, e sei que é verdade. Mas já não escrevo tanto, e tão bem quanto antes, pois hoje sou outro, e não sei se isso é triste, feliz, ou simplesmente indiferente. É tudo questão de lembranças, De já vus, pouco modificados: Mesmo local, relativamente mesmas personagens, situação completamente diferente. Parte de mim chora; Conservador como sou, nunca desejei tal mudança. Parte de mim sorri; O espírito revolucionário aceita mudanças sem pestanejar, acaricia o passado, mas ama o futuro, e conseqüentemente, o presente: Situação nova, situação boa. Uma terceira parte, simplesmente se sente atordoada, tão triste quanto feliz, nervosa. Pessoas importantes para mim, de diferentes épocas, se encontram todas. Antigas mágoas, antigas fotos felizes, antigas peças, antigas músicas. Antigos amores, antigos ódios, situações, momentos, loucuras!

O isqueiro salva a muitos. Levantado ao ar, ou levantado à boca, uma simples fricção de uma roda áspera de metal numa pedra de pólvora, uma centelha, uma centelha que acende um gás, gás esse que é alucinógeno, gás esse que pode destruir um cérebro, gás esse que queima belo. Erguido acima da cabeça, afasta toda a escuridão que cai sobre a minha alma, sobre o meu coração, sobre o meu casaco. Erguido acima do meu queixo, ou do queixo de outros, afasta a realidade, afasta o nervosismo, afasta a escuridão, ilumina rostos. Por algum motivo não me sinto mal com a escuridão afastada. Os rostos são nítidos. Os rostos se estranham. Os rostos se olham, de relance, algumas poucas vezes. Os rostos enchem-se de ar, esvaziam-se de ar, sufocam-se a si mesmos, ficam felizes. A situação é esquisitíssima, porém os rostos não se comentam. Apesar de todos os rostos, ou quase todos, estarem a par da situação, Um rosto esconde a surpresa, e permanece sem reação. O isqueiro já não é necessário, o ambiente se bruma entre os rostos, inutilmente, ocupando os últimos vazios no meio do nevoeiro. Os rostos estão acostumados com a névoa, mas há muito não se olham de perto, há muito não se falam, e continuam sem falar. Provavelmente, ambos os rostos tem muito o que dizer, muito o que sentir, muito o que temer. Mas palavra alguma é proferida. Se juntam perto do fogo, fogem assim da escura realidade que os compõe. Porém, não deixam orgulho, posição, respeito, realidade. Resolvem, silenciosamente, portanto, prorrogarem uma futura mudança, ou diria, re-mudança. Beijos não são trocados, abraços também não, tampouco comprimentos. O rosto se vai em meio à multidão.

Mais tarde, já sem um isqueiro, já sem rostos, resolvo ir embora. Um beijo na face sela qualquer coisa. Talvez um até nunca mais, talvez um até amanhã. Por mais que eu me importe, não me importo. A realidade é morta, a saudade é ignorada, sentimentos podem não existir, quando necessário. Triste? Diria real. Pergunte às brumas de Avalon, em Brasília, na UnB, ou até na torre, ou no CCBB. Lembranças me compõem, porém já não ligo para identidade.

Condição

E não me importa o presente,

Onde não ganho um só tributo,

Tempo este no qual somente vivo,

Vivo, por não ter rumo melhor a seguir,

Rumo, por não ter coisa melhor a fazer,

E faço, por não ter lugar melhor para viver.

E não me importa tudo isso, do que não reclamo,

Enquanto penso, simplesmente, nas portas,

Portas que me apareceram,

Portas que me escolheram,

Que me trouxeram a escolher a espera,

Por primavera, ou talvez por outono,

Mas a espera por alguém que vai longe,

E para longe de mim se foi.

Quando volta, ou se volta,

Tenho medo.

Pois não me importa o presente,

E a única coisa que lhe pergunto é

Sou passado, ou sou futuro?



14 de Julho de 2007. Tempos de saudades imensas e antigas realidades opressoras. Tive resposta impronunciada.

Uma minha clássica afirmação

Da perfeição das formas imperfeitas do mundo,

Prevejo a imprevisibilidade das pessoas,

Pois nunca se sabe do amanhã.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Amor e Vida

Amor: é o prenúncio de um grande sofrimento. Um sonho tão grande, e tão maravilhoso, misto de ternura e paixão, que é impossível que se vá facilmente, sem deixar marcas, causar mudança perceptível, sem dor, tristeza, sofrimento, ou lamento. Seria como beber até cair. Enquanto bêbado, a sensação é maravilhosa, o mundo pode se tornar perfeito. Passado o efeito, você pode passar uma das piores fases da sua vida. É um brinquedo perigoso, por assim dizer. Machuca, mata. Assassina, suicida. Mas é a melhor coisa que pode acontecer, que pode ser sentida por alguém. Cada segundo de seu auge vale meses da rebarba, meses do pós-guerra, ou pós-amor. Você conhece alguém, e passa a ter momentos ótimos com essa pessoa. Aprendizados e vivências para a vida, que mostram toda a perfeição e beleza do mundo, mesmo nos momentos tristes. Aprende a olhar para aquela pessoa com outros olhos, ouvir seu nome com outros ouvidos, reagir com outros estímulos à existência desse alguém; Essa pessoa se torna diferente, para sempre. Nunca um antigo amor voltará a ser simplesmente um amigo; Pode gerar uma amizade, mas será sempre um antigo amor. Ou pode gerar um outro qualquer sentimento diferente, postura diferente para com ele, mas será sempre aquela pessoa com quem você viveu bons momentos. Um carinho enorme pode ser gerado, ou uma mágoa profunda. Pois é tudo intenso demais para passar batido. O amor gera o quadro sentimental da vida; Todo sentimento humano parte, ou finda no amor. E por isso ele é tão idealizado, ou banalizado, dependendo do momento ou sentido. Ele dá os claros e escuros da vida, onde no claro, a vida é maravilhosa, cheia, intensa. No escuro, parece que nada na vida voltará a ser bom um dia. Não tão bom. Ninguém vai conseguir ser tão grande quanto aquela pessoa, nunca. É só uma dor. Só um sofrimento, só uma tristeza, só uma desilusão; Só um amor, uma paixão uma namorada, uma menina, uma pessoa, uma existência; Só uma fase. Mas dói. E é uma dor difícil de se descrever, digo. Posso tentar descreve-la em palavras racionais, ou em palavras de sentimento. É algo estranho, pois não se trata de uma dor puramente física. Também não se trata de algo parecido com um cansaço, ou um estresse, ou mesmo uma psicose. É meio que uma mistura de tudo isso. Pode até sentir o corpo doer, a peito apertar de um jeito mortífero, um vazio profundo na cabeça, uma ausência, absurda, como se não fizesse o menor sentido. E geralmente não faz, mesmo. Geralmente, não há um motivo, um sentido... A vida simplesmente muda, infelizmente. E a memória dessa mudança, a constatação dessa mudança, a memória dos bons momentos, e até dos maus momentos, tudo isso gera a dor. E dói. Sente-se vazio... Sem alma, sem nexo... Sem sentido, direção, vetor... Sem verdades, sem mentiras – estas que realmente não existem – sem tempo. Tempo pra quê? Sei lá, pra viver? Pra seguir adiante? Não se tem tempo, e não se teria motivo pra gasta-lo, se houvesse. Nem vontade. A cabeça se embaralha de novo, as faces, ideologias, imagens, personalidades, todas voltam para o baralho. As próprias idéias perdem seus sentidos, sua ordem... Você vive o passado, ou melhor, vive o presente composto pelo dueto, você, e... Ouve as músicas que aprendeu a ouvir. Pensa da forma que desenvolveu de pensar. Seu pensar antigo, mesclou-se às novas idéias que, inevitavelmente, absorveu, já que de uma pessoa que foi para você tão importante... Ou melhor, é: Nessas dores, sempre é. Não foi, pois não está morta. Mesmo não estando conjunta, não está morta, pois vive na sua cabeça. E você segue, buscando um sentido, passa a ter tempo, para pensar, para lembrar, para viver. E segue o caminho que visualizou quando estava unido. Porém, as idéias se embaralham, sem nexo, sem sexo, idéias assexuadas entre si, incapazes de se ordenar, distinguir, unir. Você toma decisões impensadas, evita alguns eventos, evita encontrar, ou faz de tudo para encontrar, se perde na própria vontade, tenta achar algum caminho, perdido. E você segue, buscando esse caminho, esse sentido, e vive como aprendeu a viver. Novas idéias estão no seu repertório, vivas. E como quem ama cuida, passa a temer a mudança, própria, e dela. Passa a temer as ações, passa a temer que algo de mal a aconteça, passa a temer. Chega a níveis de desespero, níveis de dor, níveis de incompreensão, níveis de non-sense, níveis de desorientação, níveis... Impensáveis, inexoráveis. Tudo por causa de uma pessoa. Que na verdade é você mesmo, e não ela, mas tudo por um sentimento. O seu, não o dela. E não está errado. Tem momentos de reclusão impossíveis, contra tudo e todos. Tem momentos de irresponsabilidade, e inconseqüência, necessários. Tem momentos de psicose angustiante, onde a sua cabeça parece pulsar, explodir e esmagar, explodir e esmagar, explodir e esmagar... Tem vontade de gritar, e grita, com toda a força; Mas grita dentro da própria cabeça, se ensurdecendo a si próprio, sozinho. Cai num mundo fechado, pequeno, escuro. Há ela, às vezes. Com o tempo, não há nada. Mas é um mundo doloroso, triste, sombrio, meio lúgubre. Tem momentos que não consegue olhar para frente, só para baixo. Mas vez ou outra algum raio de sol consegue bater na sua cara, e às vezes você não gosta, mas em outras você vai se sentir melhor com ele. E a vida vai seguindo, de uma forma irônica, como que rindo da sua cara, e você passa a odiar isso. Até que vê que ela faz isso como que te dizendo que já viu isso mil vezes, e passa a não conseguir mais chorar, mesmo se não tiver chorado nada. O choro, às vezes, é psicológico, sem som, sem lágrimas, sem soluços. E é como se você não tivesse mais lágrimas, ou seus neurônios não conseguissem mais imita-las. Você fica quieto, e se dá conta do término. Ousa levantar o rosto, olhar para frente, vê um mundo gigantesco e vazio. Olha para trás, e vê, por detrás de toda uma tempestade, que aquele mundo lindo, aquele mundo maravilhoso, faz parte do mesmo mundo que esse que está à sua frente. Percebe que a tempestade está em um ponto, não em uma linha. Vê que o mundo maravilhoso daquela pessoa não está por detrás de uma barreira, não está do outro lado de um rio, mas em outra margem de um lago. Percebe que aquela pessoa não ficou para trás, permanentemente, que ela apenas parou para amarrar os cadarços, ou descansar as pernas, beber um pouco de água. E seguiu por algum outro atalho, alguma outra trilha, ou mesmo está seguindo pela mesma que a sua. Como a vida passa ironicamente, você não pode parar e esperar, ou voltar e seguir pelo mesmo caminho que ela. Se for o caso, ela deve correr para te alcançar, ou seus caminhos, diferentes, poderão se cruzar novamente em algum lugar à frente, como amantes, novamente, ou como amigos. Pois como outrora todas as estradas chegavam a Roma, todos os caminhos podem se cruzar, vezes e vezes, podem chegar a um mesmo lugar, ou dar indicações de que “fulano passou por aqui”. É irremediável que grandes pessoas sempre encontrarão grandes pessoas. Eu tenho consciência que essa paulistinha é uma grande pessoa, e vai ser alguém ainda muito maior. Então, se pretendo cruzar o caminho dela algum dia, luto eu para ser grande. Se não, leio seu nome numa revista, num jornal, na televisão, e rio, com carinho, com boas lembranças.


20 de Agosto de 2007. Palavras de outros tempos, duma mesma pessoa.

Palavras Sentidas

Queria muito escrever algo, mas como não sei o que, simplesmente soltarei as palavras, do jeito que me vierem. É algo assim, de algo que tenho vivido, passado, sentido. As pessoas são tão todas iguais! E todas tão diferentes! Tão melhores que as outras, tão piores que as outras! Tão incomparáveis, entre si! Cada uma com suas idéias, seus interesses, suas visões, seus pensamentos, cada uma tão única. Mesmo assim, algumas passam a ser simplesmente comuns, enquanto algumas raras tomam essa posição de únicas. Diferentes de tudo o que já vimos, tão propensas a nos impressionar... É esquisito pensar que algumas nos interessam, e outras não. Também é esquisito pensar que isso possa ser de alguma forma, mútuo. Tão coincidente, isso ser alguma vez mútuo... E também, o alinhamento de idéias, é algo dado tão casualmente, tão sem intenção, sem nada. Tão gostoso que a vida se dê desse jeito... E tão doloroso. Conhecemos uns aos outros de forma inusitada, nos ligamos, criamos lembranças, lugares, idéias, músicas, impressões de coisas e lugares, maluquices, hábitos, costumes que se tornam moda, marcos, juntos. Amigos, rivais, companheiros, amores. Dês do início, a única certeza que nos é dada, sem palavras, sem nem mesmo serem pensadas por qualquer um, é que ou nos separaremos, ou seremos separados. Seja por brigas, por morte, por vontade, por desgosto, por falta de vontade, por obrigação, por desejo, por morte do desejo, simplesmente chegará um momento em que um rumará a Sul, e outro a Norte. Em algum momento veremos com um brilho nos olhos, uma carreira se abrindo à nossa frente, uma oportunidade, uma viagem, uma mudança, ou ela engajada na carreira de medicina ou jornalismo, entrando para um grupo itinerante de teatro, indo morar no Zimbabwe, como diplomata, ou na Espanha, como pintora; Ela se mudando para Arembepe, São Francisco ou Rio de Janeiro. Quando isso acontece, ainda é menos doloroso. Assim, pelo menos, de algum modo podemos ainda voltar a se cruzar, como na vida há muitos caminhos levando a destinos iguais, podemos passar uma temporada de trabalho fora em seu apartamento na Vinícius de Moraes ou na Paulista, ir ao lançamento de um de seus livros, encontra-la guiando o avião que te leva para Londres, trabalhando no mesmo festival que você, ou até batendo na sua porta numa bela manhã de sábado. Mas também há o inevitável de nunca mais vermos a pessoa, que uma hora ou outra, poderá sucumbir a uma doença, ou você mesmo pode ser vítima de um atropelamento, ou de um latrocínio. Pois justamente, a vida é casual, coincidente. Esquisito, impensável.

E quem dera fosse simples assim! Entram tantas e tantas variáveis, que logo a cabeça se perde. Como qualquer outra, relacionamento é uma utopia. Se simplesmente nos separássemos de pessoas que gostamos por acontecimentos e fatos... Muitas vezes, o simples pensamento morre, o sonho acaba, o trem simplesmente segue por um desvio qualquer, nos afastando. De repente, você não se vê mais com alguém, ou algo simplesmente o faz afastar-se de você. A música desafina, o som do silêncio te prevalece, o frio e o cinza tomam conta de uma grande amizade. E assim, casamentos se rompem, bandas acabam, amigos se magoam, amantes se desamam. A vida é assim de verdade, e tão frequentemente verdadeira...! São casos mais comuns do que árvores na floresta. Triste, doloroso, frio, mas verdadeiro. As pessoas, tão propensas a te impressionar, finalmente te dão um grande final, e te deixam pasmo, ao desaparecer, sumir, simplesmente. Evaporam de perto de você, chovendo em outro lugar, longe do seu alcance, às suas vistas ou não. Com isso, enfim entendo as pessoas.

Com isso, enfim entendo todos os do hoje. Entendo perfeitamente que as pessoas têm se tornado cada vez mais individualistas, cada vez mais anti-sociais, e egocêntricas. Num mundo medroso, acomodado e escandaloso, como o nosso de hoje, as pessoas fogem desse sofrimento. Cada vez mais tementes da dor, cada vez mais covardes, e cada vez mais aterrorizadas por atos terríveis, tão comuns hoje como sempre foram, mas noticiados de forma sensacionalista, e utilizados aos seus favores por pessoas mais corajosas e egocêntricas do que as outras, as pessoas, então, fogem umas das outras. O amor e a amizade, palavras tão temerosas ou temidas, nos dias de hoje. A primeira nem mesmo existe, para alguns, tamanho o medo de se envolver. A segunda é cada vez mais rara, em um lugar onde cada vez é mais difícil ter um grande amigo, sem nenhum interesse na relação. As pessoas têm na cabeça o medo dessa dor, e na critica a ela, fazem as outras fugirem do amor, e até da amizade. E a maioria daqueles que se aventuram nesse mundo de se relacionar, evitam mergulhar, para não bater a cabeça, e no menor sinal de aprofundamento, fogem de tudo. Cada vez menos as pessoas tem coragem de serem verdadeiros, para si mesmos e para os outros, em relação ao que sentem. Não se vê um amigo falando para outro que o ama, a qualquer hora. E num relacionamento afetivo, é raro ver alguém falando de forma verdadeira. Aqueles que levam o amor como palavra, falam como se fosse bom dia. Os outros que sabem que amor é coisa séria, nem sequer falam, às vezes por não sentirem, e às vezes por terem medo de dizer.

A gente tem medo de dizer o que sente. Medo mesmo de mostrar afeto, medo da reação das pessoas. E medo do afeto dos outros, medo da própria reação nesse afeto. Medo do que os outros vão pensar, medo do que aquela pessoa vai pensar, medo de julgamento, de reações, de rótulos. Esse negócio de rótulo. Cansei de ver gente falando que não gosta de rótulo. É uma coisa chata mesmo, alguém falar que você é um apaixonado, que você é um hippie, que você é um playboy, que você é isso ou aquilo. Muito chato. Mas, sinceramente, não to nem aí. Não vai mudar nada em mim, alguém achar que eu sou hippie, ou achar que eu sou maluco. Primeiro porque hippie é um movimento que nem existe mais. Segundo porque qualquer coisa que alguém disser de mim não vai decidir se eu sou aquilo ou não. A minha maluquice só é definida pela minha maluquice. Meu amor só vai também ser definido pelo meu sentimento. E sinceramente, caguei se vai doer ou não. Dane-se se eu vou ficar doente se não comer, dane-se que não vou ser compreendido se não falar, ou se falar, dane-se se vou parecer um maluco andando de pijamas no colégio, dane-se! Me disseram já algumas vezes que eu sou muito verdadeiro, que não tenho medo de dizer o que eu sinto. Eu sempre achei super estranho. Porque, apesar de dizer o que eu sinto, eu digo quando tenho certeza do que eu to dizendo, então não vejo que eu falo muito o que eu sinto. Segundo porque eu não vejo isso como ser verdadeiro, pra mim é só normal. Deve ser porque pra mim, isso é normal. Agora eu vejo porque alguém pode se impressionar a ponto de falar isso pra mim. Num mundo que as pessoas têm tanto medo de sentir, imagina dizer o que sente?!



1 de Agosto de 2007, 18 de Agosto de 2007.

domingo, 18 de novembro de 2007

Da poesia que não sei compor.

Pois é, Eu

Sempre quis aprender a escrever

Em versos.

Sempre gostei de

Escrever, e também

Sempre admirei a capacidade

Daquelas pessoas que,

Sempre maravilhosas, Suspiram

Sonetos e sopram poemas livres.

Sempre a inspirar,

Tornando o mundo mais belo.

Sempre a encantar,

Anjos da língua contente.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

um paradoxo

esse jeito de olhar
confunde-me:
por que quanto mais longe é menor,
se quanto mais se afasta é maior o que sinto?

a ilusão de óptica é tão certa
quanto os olhos fechados e o coração sentindo.

meu grito virou eco
sem sequer repetir uma só palavra,
porque à cada som perde o significado
e sobe um tom.

o olhar e o grito que lancei
se eternizaram
no limite de um horizonte
no vácuo de um prelúdio.

não me olhe de perto
e nem fale comigo.
se é que quer me entender.


De uma variação do Eu, o ego cruelmente lindo e imponente; Tássia, Tássinha, Tássião.

*O título dado não é o verdadeiro título do poema.

O rapaz da reprise do amor

Um dia, andando por uma rua qualquer, um homem que não amava a ninguém derrubou uma moeda. Estava chovendo, e a moeda de algum modo se equilibrou em cima de uma gota de chuva, que parou no ar. De algum modo, não achou estranho. Pegou a moeda, e assim, tornou-se Deus. Rapidamente, tornou-se onipotente, onisciente e onipresente. Ganhou conhecimento de tudo e todos que havia no mundo, e no universo. De algum modo que não saberia explicar antes, podia ver tudo e todos, ao mesmo tempo, em todas as direções. Sabia curar a AIDS e o Câncer, sabia qual o número que sairia na próxima mega-sena, e também se existia vida fora da Terra. Mas nada disso o impressionou, ou chamou a sua atenção. Pois sabia de todos, e o que todos faziam, o que fariam, e o que fizeram. Percebeu então um homem, um adolescente, que possuía o estranho poder de escolher o tempo no qual vivia, porém não podia modificar o passado. Viu então que aquele homem sempre escolhia voltar para aquele mesmo mês de maio, chegando sempre ao mesmo ponto, e voltando sempre ao mesmo mês.

O homem que não amava ninguém resolveu então conversar com aquele garoto. Em sua onipresença, fez seu corpo materializar-se no lugar onde o rapaz vivia, e foi até ele. Questionou-o então, sobre o porquê de fazer aquilo sempre, e o garoto respondeu que vivia sempre uma fase de sua vida, sempre junto à sua amada. Disse que as coisas se enrolavam mais para frente, e chegando a um ponto onde tinha dúvidas demais sobre o amor que ela tinha por ele, ele resolvia voltar para o início, e viver tudo outra vez. “E você vive sempre o mesmo tempo, mesmo sem poder concertar os seus erros? Não te dói cometer sempre os mesmos?” perguntou ao rapaz. Este respondeu “Bem, pra falar a verdade, nem sempre volto para aquela mesma noite em que a conheci, daquela maneira tão inesperada. Às vezes volto repetidamente para a mesma noite de amor, nunca deixando-a terminar. Assisto o mesmo filme junto a ela repetidamente, escuto a mesma música. E sobre os erros, não me arrependo de nenhum deles. Portanto, dói sim, repeti-los, mas assim quero que seja, já que não posso concertá-los”. Abismado com a resposta do rapaz, o novo Deus pergunta, então “E você nunca teve curiosidade de saber o que acontece depois? Afinal, você não tem certeza sobre tudo”. “Bem, curiosidade já tive. Mas tenho muito medo do que ela faria, afinal. Prefiro viver essa angústia eternamente, sem saber qual a resposta dela, e amá-la repetidamente, o mesmo tempo, do que ter que encarar a possibilidade dela não me amar, e depois viver eternamente voltando e amando-a com o desgosto de saber que ela uma hora não terá esse mesmo amor por mim”.

Tocado, o homem que nunca amou deixou o rapaz, e seu amor angustiado, em sua eternidade. Percebeu então, que não tinha capacidade de amar alguém, e que nunca amara ninguém, e nem sabia o que era amor. Resolveu então mudar isso. Juntou tudo o que sabia sobre amor, e tudo o que imaginava, e como imaginava ser o amor, e resolveu mostrar para eles. Voltou no tempo, para tempos imemoriáveis, e resolveu criar o amor transcendental. Criou seu próprio amor, e resolveu que amaria todo um povo. Encontrou um patriarca, um tal de Abraão, e começou:




quarta feira, 1 de Agosto de 2007.

Criança

Acordei, mas não me lembrava de nada. Um nada absoluto, um vazio gigantesco, do qual estranhamente tenho conhecimento o suficiente para ter noção de seu tamanho. Era um vazio estranho, meio ameaçador, e quis sentir medo; Não sabia como. Juntei muita coragem, e abri os olhos, sem lembrar como se faz para ver. Não podia dizer quem eu era, quem eram as pessoas que eu amava, o meu timbre de violão favorito, que tipo de delírios eu já vivi, que perdas eu havia sofrido, o nome daqueles que eram eu. Mas estava calmo, enervantemente calmo: Não sabia me desesperar.

Como não lembrava do tempo, não sei dizer se foram anos, segundos, milênios ou punhados de areia que se passaram, e aos poucos comecei a perceber que à minha frente, acontecia algo. Havia coisas. E coisas fazem barulhos. Barulhos melódicos fazem música, som. E o primeiro som que eu ouvi foi água. E de repente, eu vi, vi tudo. A cachoeira à minha frente, as montanhas estranhas, que não sabia dizer se eram como gregas, siberianas ou canadenses, os lagos da Terra, as crateras da lua, o sorriso. Vi alguma espécie de coisa viva. Um ser esquisito, que anda e pensa. Era o dono do sorriso. E era a coisa mais bonita que existia no mundo inteiro. Brilhantes, abertos e perfeitos, eram aqueles dentes, numa boca igualmente linda, grande, saudável. Perdi meus olhos ali.

Imerso, lembrei de tudo. Lembrei das meninas que eu amaria, dos gramados secos que pisaria, do cheiro nauseabundo que encontraria nos subterrâneos, da cara redonda e insana do Patropic, do dia mais doce do ano, da menina mais doce da Terra, da menina, outra, mais insana e poderosa que eu conheceria. Lembrei da minha infância, onde conheceria meus dois irmãos, do parquinho de areia, da infame queimada que abriria minha testa, da família que viria a constituir. Lembrei do cheiro do ar do Rio de Janeiro, lembrei do gosto da boca de São Paulo, do fogo das mulheres de Brasília. Lembrei do cheiro verde nas praças, dos banheiros dos bares. Lembrei do fogo. O fogo borbulhante do Sol, que engoliria toda a Terra. O fogo fátuo dos mortos, que guardaria a eternidade do meu avô. O fogo azul dos gregos, que continuaria queimando até quando mergulhado em água. O fogo risonho, que aqueceria festas e piraria insanos.

Lembrei de tudo isso, tudo aquilo que eu não viveria. Lembrei também onde estava, de onde havia vindo, quem era, qual o sentido de tudo isso. Estava num lugar diferente, onde viviam todos os que nunca nasceriam. Havia vindo da minha própria imaginação, e sabia que se nunca viveria tudo aquilo, era por minha causa, e de mais ninguém. Sorri, por nunca ter de sofrer tanto. Sorri, por nunca conhecer a amizade. Sorri, por nunca ter de viver amores. Sorri, de nunca ter de perdê-los.




terça feira, 30 de Outubro de 2007.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Da arte de conhecer pessoas

Mato meu tédio, ou melhor, o proíbo de existir, através do conhecimento de novas pessoas, pessoas diferentes, complexas, interessantes, problemáticas, ou até mesmo, pessoas simples e comuns. Não sofro do advento do tédio pelo simples motivo de que sou um apaixonado pelas artes, e pelos seres humanos, e enquanto elas expandem os meus horizontes e as minhas idéias, sempre ampliando a minha curiosidade e a minha ânsia em ir mais longe, tornando minha vida e cabeça maiores e mais ricas, eles preenchem todo esse espaço novo, com todas as suas idéias, vivências, curiosidades e excentricidades. Com todas as meninas com quem me relacionei, aprendi e cresci consideravelmente, e tenho plena consciência de que sempre será assim, pela minha escolha natural de apenas me relacionar com meninas que me interessam de uma forma especial.

Não digo que independe da pessoa em questão, que qualquer uma me interessaria da mesma forma que aquelas que cruzaram minha vida me interessaram, cada uma a seu tempo e modo; Tanto pois nunca teria vivido com algumas, no tempo que fosse, o que vivi com outras, em um curto tempo, em se tratando de riqueza de vida, emoções, crescimento, aquisição de conhecimentos, maturação. Não digo que qualquer menina teria o poder de fazer-me apaixonar por ela, ou qualquer menina me proporciona o mesmo prazer e vivência, em se tratando de crescimento e vida. Porém, digo que toda menina que passar por minha vida vai me dar esse prazer de me ensinar todo um livro, todo um método próprio sobre a própria vida, e que cada um desses “livros” me ensinará muitíssimas coisas, me impressionará pelo imprevisto, pelo inesperado, de formas felizes e tristes; Pois também, raras são as vezes que você poderá prever uma derrocada, ou algo do tipo, vindo de uma pessoa que se torne muito especial para você.

É claro que algumas pessoas que cruzam a sua vida, por serem maiores ou mais ricas em algum aspecto, em alguma qualidade, poderá te proporcionar uma experiência, momentos, uma vida, muito mais interessantes do que outras, em diversos momentos. Algumas pessoas são mais cultas que outras, mais divertidas que outras, mais problemáticas que outras, mais complexas, abertas, obtusas, fechadas, e por aí vai. O conjunto de todas essas características, do passado, da psicologia, das memórias e do próprio caráter da pessoa, será o fator determinante para isso, e uma pessoa poderá ser muito interessante para um, e absolutamente sem graça para outro, mas sempre poderá impressionar por alguma coisa; O passado e a história nos constroem, erguendo nossas fundações, que se escondem por debaixo das cidades. E escavando cidades modernas, muitas vezes podemos achar fundações impensáveis, datadas de séculos esquecidos pelo tempo. Todas as pessoas, algumas mais interessantes, outras menos; algumas que se tornam amigos, outras, amantes. Todos já são suficientes para qualquer um, pelo simples fato de serem pessoas. Serem diferentes, únicos. Conheci já grandes pessoas, e futuras grandes pessoas. E são as mais complexas. Pessoas cultas, bonitas, com a cabeça aberta; Como também conheci pessoas que sei que serão para sempre pequenas; Algumas, por opção, e aí está a grandeza delas, na simplicidade. Outras, por uma visão muito fechada do que chamamos de “Mundo”. Essas, passarão pela vida sem ninguém nem notar que existiram.

Porém, conhece-las todas é como viajar. Existem lugares magníficos pelo mundo afora. Lugares com histórias maravilhosas, passados grandiosos, e futuros não tão grandiosos assim. Existem lugares ricos, economicamente, ou ricos culturalmente. Lugares que não eram nada no passado, e tem futuros promissores. Lugares novos, cidades que não tem mais de cinqüenta anos, e cidades antiqüíssimas, datadas de milênios. Existem também cidades gigantescas, e cidades minúsculas. E lugares simples e lindíssimos, vazios, sem qualquer tipo de civilização. E também existem desertos, vastos e vazios. E até nesses desertos há segredos magníficos guardados, horas inesquecíveis e acontecimentos únicos. E mesmo quando nem isso há, já vale a viagem, por simplesmente ser um lugar novo, um lugar desconhecido, a ser explorado. Mesmo uma planície descampada, mesmo os lugares de puro vácuo do espaço, ou então, uma metrópole global, como São Paulo. Cada uma com seus segredos, seus esplendores, suas curiosidades, e histórias. Essas pessoas, mesmo aquelas com quem não me envolvo tanto a ponto de mergulhar em seu “ser” a essa profundidade, preenchem todo o vazio da minha alma. Algumas mais, como ela, e algumas menos, como muitos que cruzaram meu caminho. E pra todo o espaço que sobra, a própria arte e os sentimentos, em seu projeto de expansão da minha percepção, ainda tem o poder de transformar energia em massa, e preencher todo esse vácuo. Mesmo que seja de tristezas, melancolias, angústias, saudades.

Saudades.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Incômodo Cerebral

Ela não me sai da cabeça. Na sala, deitado no sofá, assisto-o atender o telefonema dela, que é sua amiga. Não consigo me conter, e pergunto a ele como ela está, já que eles mantêm contato. Ela está bem, diz ele. Um pouco de felicidade. O plenário é invadido por uma onda de algo, não sei bem descrever, mas é analgésico, entorpecente, algo parecido com um alívio, creio. Porém, não dura muito tempo. Olho o outro na janela, sempre junto ao violão. Brinca com o meu nome, com uma voz aguda peculiar, que me traz lembranças, dói um pouco, mas uma dor meio masoquista, gostosa, por assim dizer. Abro um meio sorriso, e ouço a música. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio que, por sorte, se assim posso dizer dado o meu estado, não sinto há algum tempo. Apesar de denso, e meio pesado, gosto bastante do livro. Os dois, o homem do rio e o de sobrenome francês, felizes e mexidos por suas experiências de quando eu estava viajando, gritam e fazem alarde. No quarto, dorme o meu irmão. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes ecoam alto no auditório. Sou um só, e preciso me concentrar para entender a confusão de cada voz, apesar de conseguir acompanhar várias ao mesmo tempo, com facilidade. O caos é grande, e preciso me concentrar em um de cada vez para entender ao menos uma. Algumas mais altas que as outras, ouço de um lado lembrarem-me de bons momentos, lembrarem-me dela, lembrarem-me de meses passados, lembrarem-me do outono. Outra grita algo mais alto, e tem sua vez de me falar das idéias revolucionárias, das idéias bulugunzianas, das idéias culturais, musicais, do otimismo e da esperança em relação a isso, em relação até a ela. Mas perante a essa esperança inconveniente, veto sua voz temporariamente, e logo me vem menos otimistas. Um bom e velho saudosismo carrega o tom, das mesmas idéias revolucionárias, das mesmas idéias bulugunzianas, são descrentes, e dizem serem fadadas há um fracasso negro e doloroso. Me lembram dela, e pela dor, também os calo. Vozes nervosas e em caos tomam um tom acusador. Sabem de todos meus lados negativos, todas as minhas características reprováveis, que eu mesmo odeio. Dizem da minha pré-potência, da minha arrogância, da minha insistência exagerada na luta pelos meus desejos e crenças, e aí falam da minha dificuldade para aceitar a opinião dos outros. Me lembram, e também os calo. Em meio a tudo isso, em plano principal tento ler. Leio o livro, interessado, mas sempre perturbado pelos inconvenientes. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando. Enquanto descreve, sonhador, a idéia de um outro plano, olha para fora, pela janela. O Lago Sul faz fundo ao quadro formado pela copa das árvores abaixo, o belo prédio de planta original do projeto piloto, à direita, com a placa azul dizendo “A”. Lembro-me de outro prédio, e a imagem de Paixão emoldurado pelas árvores à norte, atrás das grades da janela, é substituída por uma imagem virtual, e me perco em pensamentos. Labirinto complicado, esse dos pensamentos. Quando fui ver, os três já foram embora. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio esse que não sinto há muito tempo, felizmente. Se puder chamar um mau preenchimento de felicidade. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes clamam forte, ecoam na minha cabeça, em um caos polifônico incompreensível. Algumas mais altas que as outras, as vozes no plenário gritam-me alto, incomodando. Desejo apenas parar de pensar, por um dia sequer. No auditório do congresso, Lembranças, alegrias, idéias novas, otimismos, brigam com o saudosismo, idéias pessimistas, constatações tristes, arrependimentos recentes, arrependimentos antigos. Em posição de centro, encontram-se melancolia e nostalgia. E em destaque, o livro tenta ser lido. O prazer faltou, a raiva e o ódio estão de férias, mas a felicidade e a plenitude também estão. A paixão e o amor, apesar de presentes, estão impedidos de falar muito. O presidente dessa câmara, eu, deseja apenas fugir dali, antes que a casa caia nas mãos dele. E então, em uníssono, todos perguntam “Cadê o rumo?” Espantados, percebem que ele está sumido do plenário, dês do começo de Agosto. Em murmúrios, na velha ladainha política, cochicham, aqui e ali, se deveriam votar em perguntar a ela. Resolvo encerrar o dia, e declaro o adiamento das discussões da câmara cerebral bulhonesca. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando.



De 26 de Agosto. Quem importa sabe do que se trata.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Amor e Arte

Vivemos hoje uma espécie de admirável mundo novo, descentralizado e desorganizado, à brasileira. O quanto uma peça de teatro pode te chocar, não sei dizer. Sei dizer o quanto uma peça de teatro me chocou, mas esse dito não se expressa em palavras. Uma peça baseada num livro, baseada em pensamentos, baseados em idéias. Isso resume a peça. Idéias proféticas, diria. Profecias realizadas, ou em realização, diria ainda. Uma sociedade onde vão pouco a pouco fazendo-nos desaprender a pensar, retirando um a um nossos valores, dando novos, artificiais e supérfluos. Isso é tudo o que ela diz. Vivemos uma espécie de “mundo perfeito”, onde a felicidade é a meta principal, a qualquer custo, e felicidade significa adequação a um sistema distorcido. Nesse nosso mundo perfeito, olhamos horrorizados os horrores da realidade, como algo completamente anormal, enquanto voltando para trás, simplesmente achamos um mesmo padrão de atrocidades; Logo, estamos apenas nos desacostumando à própria realidade, enquanto nos é imposta uma nova concepção de mundo, onde não há dor e tristeza.

A única diferença que consegui perceber entre a ficção e a realidade é o fator de, por sorte, em vez de uma grande “máfia”, ou “estado”, palavras sinônimas, há uma infinidade de pequenas “gangues”, cleros do mundo contemporâneo, distintas entre mídias, marcas, culturas “globalizadas”. Em vez de um grande estado controlador, há espaço para uma globo, ao lado de uma Coca-Cola, ao lado de uma Abril, e por aí vai. E no lugar de uma droga universal que nos engana do sofrimento, temos a televisão, o refrigerante, as roupas de marca, a industria do tabaco... A cultura vai morrendo, sendo assassinada, em um mundo cada vez mais alfabetizado, em que cada vez se lê menos, e cada vez mais merda é posta na prateleira para substituir livros úteis. Em seu lugar, como no livro, filmes sem significado, culturas do prazer sem limites, culturas contra bons valores, entre tantos ruins que já havia. O quanto uma peça pode te chocar? Digo o quanto uma peça me chocou. Muito. Um desespero por motivo inconcebível me acometeu com uma força impensada, ao pensar que nós já vivemos a realidade profetizada. Ao pensar que talvez, seja meio tarde para começar a lutar contra isso. Nossa cultura vem sendo empobrecida a mais de trinta anos, nos quais uns e outros vão tentando lutar contra a maré, e vão sendo simplesmente engolidos, e forçados a surfar a onda que nos arrasta pro brejo. Vemos uma a uma as artes sendo derrubadas de seus patamares, ou tendo seus pedestais pichados por vândalos, que as vêem como um empecilho em sua meta de riqueza e poder. Por mais lucrativo, os krakens e leviatans do mar da sociedade globalizada vão simplesmente incorporando essas artes da forma mais simples possível, pois o simples é mais fácil de controlar, e com o controle, é mais fácil de se ganhar dinheiro. Simplesmente me recuso a essa realidade. Tenho repulsa por tudo isso. Nojo. Nojo desses sistemas. Nojo dessas “regras”, destinadas a me ensinar a me enquadrar à sociedade, quando é a sociedade que tem de ser “arredondada” às pessoas. Desgosto por ver o tanto de peixe que essa rede pega, e medo por saber o quão difícil é fazer um furo nessa rede, para soltar o máximo de peixes possíveis. E decepção por estar ciente de que muitos desses peixes estão bem onde desejam estar, no meio da rede de abatedouro. Simplesmente, me recuso.

Arte é vida. Amor é vida. Amor à arte é oxigênio, enquanto meu coração faz o papel de pulmão. Faço arte, ou busco fazer. Amo, apesar de não poder ter. Porém, não tenho medo desse sofrimento. Esse medo é simplesmente mais um “enquadramento” à essa sociedade distorcida. Sofro, mas sofro ciente do que quero, ciente de quem quero. E não guardo qualquer rancor por ela. Nada além de boas impressões, lembranças, muito carinho, e todo o amor do mundo. Mesmo que não seja isso que ela deseje, temporária ou permanentemente. Conheço grandes pessoas. E tenho fé de que grandes pessoas são capazes de ver isso tudo, e tenho fé de que grandes pessoas vão também desejar essa mudança. Conheci também, pessoas que serão grandes. Ela é a maior delas. Você é a maior delas, e você sabe que é você, quando lê. Crio, amo, e além de tudo, amo criar. Amo ver, amo conhecer, amo ler, amo pensar. Tudo essencial, e parte das minhas entranhas. E isso, ninguém vai mudar em mim. Nem marista, nem tristeza, nem felicidade, nem família, nem nada. Assim como o que sinto. Assim como o que penso.

Arte e amor.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Uma nota

Vivo ainda vivo, infelizmente. Escrevo, escravo da minha escrita, mais que nunca um escravo. Agradeço com um obrigado obrigado, à etiqueta dos ingratos portugueses. Não te afobes; Por mais que desejar, e por menos que escrevo, ou possa aparentar, gozo de saúde; Quando extremo, de prazer impudico, sem vontade ou lugar. Podes voltar a se aborrecer: Continuo a escrever, e muito. Mas um alívio posso te dar: Por algum tempo não escrevo aqui novidades, escrevo uma peça teatral. Se não gostas, não me assista! Mijo em cima e desprezo seu pudor e opinião. Merda para mim. Beijos para poucos. O inferno pra você.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Numa certa estação

Entro numa estação de trem. Um banco de madeira, uma bela estação. Mas bem que ao invés do usual, além de trens passavam aviões, passavam navios. Tudo meio nevoado. Era algo assim, numa cor sem sal, bege ou algo assim, ou talvez fosse preto e branco. Sentei no banco, deixei meu casaco ao lado. Junto comigo, não tinha nenhuma mala, só uma sacola, que botei em cima do casaco. Era um lugar alto e longo, e em cada uma das pontas, nas aberturas por onde saíam os trilhos, havia nuvens, e uma forte claridade. Curioso, percebi que também passavam pessoas, vindo e indo a pé, naquela estação. Muita gente descia dos veículos, sentavam-se em algum banco, ficavam um tempo, e iam embora. Já tinha gente que chegava, e ficava na estação um bom tempo. Olhavam em volta, testavam os bancos, bafejavam as vidraças, olhavam as vitrines, compravam um jornal, ou um livro, tomavam um café. Alguns saíam da estação, então. Outros voltavam ao seu veículo, ou iam embora a pé, sempre indo, sempre da esquerda para a direita. Alguns vinham das portas da estação, em algum lugar fora do meu ângulo de visão.

Tinham ali alguns que de algum jeito eu sabia que estavam esperando um tempão. Outros, eu sabia que esperariam mais um bom tempo. Por qualquer motivo, uma hora eu comecei a ficar tão curioso, que comecei a torcer pelas pessoas. Algumas, eu queria que fossem embora logo, que seguissem seu rumo. Não gostava muito da cara delas, rostos conhecidos ou não. Outros, eu queria que pudessem embarcar logo, por compaixão de sua espera, por saber que desejavam ir para algum lugar, onde está alguém, onde está alguma coisa, alguma vida. Muitos desses, eu sabia que nunca poderiam embarcar, ou se embarcassem, nunca chegariam aonde desejam. Talvez até chegassem, mas nunca seria como imaginaram. Outros, eu tinha os rostos bem conhecidos, e desejava que ficassem, pelo menos algum tempo. E começava a torcer para que não fossem nunca. Alguns, eu ficava na expectativa, pois não sabia se ficariam ou não, e desejava que ficassem. Outros, eu tinha uma grande dúvida se embarcariam no próximo avião, ou se sentariam no mesmo banco que eu. Às vezes também, tinham aqueles que tinham um rosto curioso, diferente, e começava a querer que ficassem, queria conhecê-los, saber seus nomes, o que escutam, que línguas sabem falar, para onde estão indo... Mas este era um segredo que ninguém naquela estação podia revelar uns para os outros, seu destino. E além do mais, às vezes eu estava ocupado demais esperando meu próprio vagão.

E assim, vendo as pessoas chegando, e indo embora, as percebia envelhecendo, e pessoas diferentes iam me aparecendo. Alguns, aqueles que eu sabia que estavam ali a um bom tempo, continuavam ali, ou se levantavam e embarcavam naquele navio, ou noutro avião, e até naquele trem bonito cuspindo fumaça. E tinham aqueles rostos familiares, meus amigos, meus familiares, meus amores, tantos que eu queria tanto que ficassem ali comigo, e frustrado, assisti a grande maioria de todos eles se indo, embarcando, ou decidindo seguir a pé, rumo a qualquer que fosse seus destinos. De vez em quando, mas muito raramente, via embasbacado algum desembarcar de volta na estação, de volta pela esquerda, curiosamente. Os rostos iam ficando familiares, e ia ficando mais e mais fácil reconhecer as pessoas, e alguns deles iam me dando mais vontade de que ficassem comigo, até o meu embarcar. Mas quanto mais eu queria isso, mais via muitos embarcando. Via alguns se afundando, e entrando em trens escuros, com expressões negras, ou loucas, ou até indiferentes, e partir para desaparecer, ou aparecer pior do que nunca depois. E isso ia me deixando triste, e endurecido, enquanto ia aprendendo a lidar também com as diversas partidas.

Pessoas iam e vinham, e muitos iam deixando suas marcas na minha vida. Às vezes alguém se sentava do meu lado, e ficava ali algum tempo, e eram algumas das horas mais felizes naquela estação. Alguns desses me davam algum presente, alguma lembrança, e eu procurava devolver o agrado, agradecido. Ou se não, era a minha vez de dar algo para uma dessas pessoas, que algumas vezes não me deram algo em troca. Algumas vezes, nada trocávamos, mas mesmo assim, deixavam suas marcas, ou não. As melhores coisas que me davam, ficavam bem no fundo do meu coração e do meu cérebro, e os presentes eram simplesmente lembranças simbólicas, simbolizando a lembrança maior, que era os momentos passados juntos.

Então, em algum momento, chegou um trem, ou talvez fosse um navio, um avião, talvez algo dos três, ou mesmo um submarino. De algum modo, eu sabia que era a minha vez de embarcar. Peguei minha sacola, e olhei bem lá dentro. Um livro em inglês, um filme do Felini, um cd do Caetano. Em algum lugar eu sei que devia estar carregando também um relógio, e uma carteira de couro marrom, mas estavam guardados. Na cabeça, muitas lembranças, muitas tristezas, muitos momentos felizes. Ando a passo lento em direção ao trem, e percebo, num misto de curioso e de indiferente, que a estação estava vazia. Entro no vagão do trem, e quão pasmado não fico quando vejo cinco rostos bem conhecidos no mesmo vagão! A tristeza passa, a nostalgia dá um descanso, e começo a perceber que só embarco para depois descer em algum outro lugar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Bolseiro

Afinal, percebo que a sociedade é composta por apenas malditos hobbits! Se o Tolkien algum dia fez alguma coisa realmente brilhante, querendo ou não, para mim foi a maquete da nossa sociedade do Condado. Malditos hobbits que somos! Vivemos sempre em nossas cidadezinhas, em nossos mundinhos internos em nossas cabeças, vivendo sempre regras e condutas da moral local, estabelecidas por milhares de conceitos velhos e ultrapassados, proibindo pessoas que optam por fazer uso de coisas, e escolher atitudes que, se irão prejudicar alguém, não será ninguém além de si mesmos. Somos em geral pessoas fechadas a novas experiências, opiniões diferentes; idéias inovadoras, arrogantes e ousadas nos causam medo, horror; Vimos alguém vestido de forma diferente das usuais castas dos cults, playboys, nerds, roots e “normais”, e já nos botamos a olha-lo feio, como se estivesse errado em alguma coisa. Ouvimos histórias de pessoas fazendo sexo em festas, e achamos um absurdo. Drogas, se não é a que usamos, nem pensar, feio. Excessos de bebidas são condenáveis, micos são arrependíveis, viagens em drogas mais pesadas são dignas de pena. Como ter pena do prazer de alguém?! Se a pena ainda fosse de uma lombra torta de algum louco tomando um docezinho, tudo bem; mas da viagem do cara?

Vivemos então, nesses nossos condados pessoais, dentro de nossas cabeças, até que eles se externem para o mundo. Música, a que me é oferecida, como o restante das artes. Viagens, para os lugares mais aclamados e falados por aí. Pena que muitos desses lugares simplesmente pagam para serem aclamados como são. Logo, cada recanto magnífico do planeta vai se tornando um ponto do turismo de férias de família, quando n ao é simplesmente anexado aos domínios das viagens pseudo-cults.

E nesse meio termo, então, busco eu o sangue de Bolseiro, que sei que está dentro de mim, em algum canto. Essa família incomum de hobbits, mal vista pelo restante da sociedade, acaba quebrando esses paradigmas sociais, se libertando e se pondo a desbravar o mundo, e os mundos das outras pessoas, subvertendo as regras morais do Condado, onde viajar é coisa de gente louca. Busco eu me tornar um desses viajantes, tanto no mundo interno quanto no externo, e nisso, ser mal visto pelos outros até me interessa, pois mostra que estou no caminho certo. As pessoas xingam o que não entendem, o que nunca viram antes, como loucura, ou atitude errada. Busco eu perder o medo de ser feliz em detrimento da aceitação dos outros, cada vez mais, me libertando desses paradigmas musicais, morais, e outros “ais” do tipo, que essa sociedadezinha adora. Tenho muitos exemplos para me inspirar, e um deles muito bem vivo, nas distantes terras de Clóvis.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Vôo 3054

Bola de fogo! Imagine um avião a mais de duzentos quilômetros por hora, atravessando à toda a pista do aeroporto mais movimentado do país. Ele nem freia, nem alça vôo, simplesmente atravessa uma das maiores avenidas da maior capital de estado, e se arremessa contra um prédio. É, aconteceu, semana passada. Me sento na cadeira, na casa dos meus avós, preocupado com meus próprios problemas, meu próprio cansaço. A tevê ta ligada, mas eu não presto atenção. De repente, as cores fortes da tela me chamam a atenção, como que dizendo “importante!”. Um Airbus, gigantinho, da TAM, tinha acabado de bater num prédio, também da TAM. Me deu um arrepio na espinha... Fiquei pensando. Mais de duzentas mortes. Uma queimação de filme do país, da companhia, do aeroporto... até da cidade. E em plenos jogos Pan-americanos. Fiquei pensando, ao mesmo tempo compadecido por aqueles que foram e que ficam, e aliviado, de não conhecer ninguém a bordo do vôo, ou dentro do prédio. Podia ter sido comigo... É o maior aeroporto de escalas do país. Quase todos os vôos para o exterior chegam por ali, saem dali. Vários vôos regionais passam por lá, antes de seguir viagem. Podia ter sido com alguém importante pra mim. Com alguém que passa por lá direto, tantas pessoas. Podia ter sido com a minha mãe. Acho que em todas essas hipóteses, teria preferido se fosse comigo. Nem quero imaginar a dor que os familiares daquele povo todo deve estar sentindo.

E como se não fosse nada, a oposição ao governo usa o acidente de fachada pra fazer campanha contra o governo. E depois o governo Lula é baixo, é filho-da-puta. Usar da dor dos outros pra fazer política é uma coisa muito suja. E como se já não bastasse, ainda tem gente do governo passando vexame, pra dar mais um pouquinho de motivo pra base direitista xingar. Sei lá, eu tenho vergonha é dessa base do país. Acidentes acontecem. Por falhas técnicas, humanas, de gestão, não sei. Se aconteceu, é cuidar pra não acontecer de novo, e fazer de tudo para remediar, ao máximo, o sofrimento e os problemas que eles causam. Agora, se utilizar de uma calamidade dessas para mostrar como o governo é incompetente, vou te contar... Como se teria sido diferente, se fosse o purê de chuchu que tivesse assumido o governo, em vez do Luiz Inácio. É, quero ver qual vai ser a próxima.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Um beijo

Um beijo, boa noite. Um beijo para você. Um beijo para quem fica, um beijo para quem foi, um beijo para quem não volta mais, um beijo. Um beijo pro meu pai, pra minha mãe, e especialmente pra você, xuxa! Um beijo, meu amor. A noite vai longe, já nas suas altas décimas primeiras horas, às cinco da manhã de Brasília. Mas estou no rio. O silêncio baixa como uma melancolia calma, até bonita. Essa tristeza das altas horas da noite, da solidão profunda, onde não há companhia nem das sombras, é até gostosa. Passada a loucura do dia, os altos e baixos de humor, o tédio do clima frio e nublado na cidade de praia, tudo tão próximo até alguns minutos atrás, parece agora distante. O mundo parece tão distante... do mundo! É bom. Deve ser algo como tomar morfina à beira da morte, um último prazer terreno antes de se livrar disso tudo. Até o cansaço parece se cansar de importunar. Fico aqui, ouvindo o que não há para se ouvir. Pensando, ouvindo, questionando o porquê das coisas.
Os minutos parecem não querer mais passar. Agradeço por essa trégua do tempo, paradoxalmente. Há poucos minutos mesmo, queria que esse tempo voasse, e levasse embora os dias tediosos, deixando apenas os dias que realmente podemos aproveitar. O sono vai tomando conta de tudo, e até mesmo a melancolia parece bocejar, e virar para o outro lado, me deixando em paz. É tão estranho viver acordado no tempo de sono do resto do país! É como se você não existisse, como se fosse um fantasma; Pois realmente, você não existe pra todo o resto. E se você não existe pra eles, eles também não existem pra você. E fico sozinho. Acompanhado do som do lápis torturando o papel em branco.
Então, vou dormir; nos braços da insônia, da noite, melancólica por estar chegando o seu fim. Vou dormir, para acordar no meio do sono, entre sonhos e delírios, tantas vezes durante uma mesma noite – ou dia. É, então, vou dormir afinal. Sem escrever nada! Sem falar nada. A noite vai chegando, a angustia e a melancolia continuam, mais baixam o tom, pelo cansaço... Fico como alguém que cansou de lutar contra o cativeiro, depois de tanto bater nas paredes. Um beijo pra você. Um beijo pra Martha também, menina da França. E um beijo para mim, que também preciso, enquanto tudo, enquanto tédio.
Um beijo.

sábado, 14 de julho de 2007

O mundo em minhas mãos.

É impressionante como uma reação sutil pode mudar sua vida. É delicioso ser mal interpretado pelas pessoas. É muito engraçado, como ao parar para fazer algo qualquer, um alguém pode ter um entendimento completamente errado. Você para num canto para criar, e de súbito te entendem como um destruidor, um transgressor, ou algo do tipo. E isso é uma coisa linda! Te da plena consciência de que ao mesmo tempo, todos somos iguais, pois podemos tirar nossas próprias conclusões, e diferentes, pois essas conclusões podem ser absurdamente diversas. Feliz e satisfeito, após resolver problemas e, mais ainda, usufruir da fonte da felicidade, me sento sobre o parapeito de um viaduto, na tesourinha entre a 110 e a 109 sul, para escrever, em paz. Observo, paralisado, admirado, o trânsito passando abaixo. Minha cabeça, apesar de cheia, está vazia, e idéia alguma me vem. Estou em paz.

De repente, passa abaixo um carro, e vejo o passageiro apontar pra mim do meio do engarrafamento. O motorista me pergunta: “Você não vai se suicidar não, né?”. Nego, pasmo com a idéia do cara. Passado o carro, me rio sozinho. Sucídio? Da onde veio essa idéia?! Continuo pensando na vida, divertido. Penso nos meus problemas, nos meus pensamentos, me sinto um bobo da corte. Rio de novo, dessa vez em alto e bom som. Não, amigo, não dessa vez. Não enquanto meu futuro promete o mundo em minhas mãos.



Terça feira - Dia 12 de junho de 2007. Dia dos namorados.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

O Som do Silêncio

Um dia os fantasmas da noite resolveram se revoltar. Como só viviam na noite, estavam cansados da escuridão. Obrigaram, então, o homem a tornar a noite mais clara, para que não tornassem a noite eterna. E então iluminamos a noite. Eu sinto uma paz de espírito fora do comum nessas horas entre a noite e o dia, horas que existem pra tão poucos. Acompanhado pelo sereno, e pelos postes a não iluminar ninguém, fico aqui só ouvindo o silêncio imponente, que ninguém além dos grilos e dos loucos ousa quebrar.

Fico aqui, pensando na minha vida, com uma facilidade que eu não encontro em casa. Ouço a ausência da maré ao longe, ainda tão estranha pra mim, depois desses meses do início do ano, na praia. O caio harmoniza a sinfonia da noite e do silêncio com harmônicas do violão, e eu penso. E aliviado, escrevo. Vejo o motoqueiro do jornal, trazendo as notícias antigas. É tão engraçado pensar que todo dia lemos as novidades quentes do mundo de ontem! Isso só vai reforçando o pensamento de que eu sou mesmo um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. E penso então, num sentido para tudo isso, mais uma vez. Outras dessas vezes me levaram à vestir a calça do pijama para sair, por vontade inocente; Também já acabei dormindo na rua, por isso; Corri feito louco, do nada, com medo de mim mesmo; Concordei com o impossível, e ri na cara da verdade, do real: esses nunca me pareceram absolutos.

O celular toca. É a mãe do Caio, mandando subir. Indiferente, me levanto, e na trilha sonora da minha vida, bem lá no fundo da minha cabeça, toca as músicas que aprendi a ouvir com a menina da França. O som do silêncio toma a dianteira, mas logo me vejo indo atrás de terras entre a praia e a água salgada, em algum lugar de uma certa feira de Scarborough.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Limiar de interpretações

E antes, como se fosse um calouro, sentiu medo. Era um nervosismo forte que se agravava a cada momento, causado pela eminência do momento. Começou a tremer, e seu corpo, mais informado que sua mente, começou a ter pequenos espasmos, movimentos involuntários, que o preocupavam. Suava feito um cachorro, e tinha muito medo e curiosidade, sobre aquela tênue barreira. Medo de se machucar, de machucar aquela coisa linda, medo. Medo do desconhecido.

Pensou se fizera tudo direito, se estava fazendo tudo direito, e os segundos pareciam se arrastar. Lembrou da primeira namorada, das outras que vieram, lembrou dos seus pais, do seu primeiro cachorro. De forma confusa, foi acometido assim, por tantas lembranças estranhas.

Chegando perto do grande momento, começou a pensar se fizera as escolhas certas, se fora o caminho certo que o levara até ali, e seu medo de estar errado em tudo aquilo que acreditava sobre aquele momento, o trouxeram um desespero. Na hora “H”, chegou mesmo a se arrepender. Desejou poder voltar no tempo, poder adiar aquele momento tão importante, agora irreversível. Chegou, inexplicavelmente, a ter medo da morte; E atravessou, como um cavalo, aquele frágil limiar.

E ele era só prazer. E em resposta ao sentimento mórbido, sentiu-se como se nascesse de novo. Sentiu que podia flutuar, e como se não precisasse mais respirar. Com essa barreira quebrada, viu todas as portas se abrirem para ele. Enquanto isso, seus sentido foram se aguçando cada vez mais, e, a cada momento, sentiu-se mais e mais inteligente e poderoso. Percebeu, então, que rumava para a transcendência e sentiu-se feliz, pois fizera a escolha certa. Num ápice, sua alma fundiu-se ao seu corpo, e seu consciente ao seu subconsciente. Seus sonhos se ajoelharam perante o antigo senhor e novo deus, enquanto ele percebeu a vergonha de ter sentido medo daquele paraíso. Em sua onipotência, se perdoou, assim como a todos seus antigos erros.

E no clímax, como deus, sentiu um prazer imenso, inimaginável a qualquer mortal. Tornou-se um com o universo e percebeu que, como deus, era dois, dois extremos do mundo, unidos no impossível. Numa explosão de vida, fragmentou-se, e assim nasceu um novo universo: O seu. Sua alma dividiu-se em três, separada do corpo logo antes da explosão, e um terço foi para não sei onde, enquanto os outros dois pedaços foram impulsionados de volta para a origem. As duas almas, enfim, tomaram rumos diferentes, mas não muito, e ele se viu sozinho.

Perdoado e purificado, renasceu. Acordou em um quarto, nos braços de uma mulher. Se era bebê ou adulto, não sabia. Se aquela mulher era sua mãe ou sua amante, não importava: Já não sabia falar. Estava feliz, como nunca. Já não sabia de mais nada, mas seus resquícios de onisciência lhe diziam. Ela era linda, era a mulher mais linda do mundo.

Um sonho

É engraçado como os sonhos são poderosos. Sei lá, é como se fossem reflexos completos de todo o seu subconsciente, jogando na sua cara todos os seus medos, todos os seus pensamentos profundos, todas as suas maiores viagens. Às vezes eu fico até com medo de sonhar. Porque eu acabo sabendo exatamente o que vem por aí, e sei que a noite vai ser longa, e cansativa.

Quando a sua cabeça quer te fuder, ela simplesmente vai, e te fode. Ela tem todas as informações que você tem, um potencial infinito de criar histórias, e uma oportunidade única de usar isso tudo sem ter você pra mandar na história, sem você obrigando-a a seguir o real, o que você vê do lado de fora. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava lá, dormindo, bem onde eu estava quando dormi. O problema é que eu não estava exatamente dormindo, no sonho, estava meio que sonhando acordado. Sonhar que sonhei acordado foi a pior coisa que me aconteceu nessa semana. Eu não tava conseguia pegar no sono, e ficava meio que bambeando, entre dormindo e acordado. E aí, no meu sonho, eu comecei a ter um pesadelo. E esse pesadelo era como se eu tivesse lembrando de coisas que aconteceram, que não aconteceram, achando que uma coisa iria acontecer, com toda a certeza, sendo que, na verdade, eu não posso ter certeza alguma dela. E pra provar que iria acontecer, a minha cabeça começava a me dar um monte de fatos absurdos, que não aconteceram, mas como era um sonho, eu meio que sabia que eles tinham acontecido, pois na realidade do sonho, eles realmente tinham! O resultado foi uma noite inteira tentando acordar, mas acordando do pesadelo, dentro do meu sonho, sem conseguir acordar direito, e aí, sem conseguir descansar direito, na vida real. E doía. Pra caralho! A pior parte é que vai demorar pra caramba pra eu saber se tinha ou não sentido, aquele pesadelo-sonho. É, essa noite vai ser longa...

domingo, 8 de julho de 2007

FMI

Quando eu penso na FMI, a feira de música independente, que aconteceu aqui em Brasília no começo de maio, eu fico feliz. Feliz por ter conhecido tanta gente, ter visto que Brasília não é composta só por um milhão de imbecis. Feliz por ter conhecido um lado da música que eu não tinha muito contato, e conhecido através disso um monte de banda legal. E feliz por ter conhecido alguém que eu já conhecia. Feliz por, sem nenhuma pretensão inicial, sem nenhum planejamento, ter acontecido tanta coisa, que eu desejo que só continue acontecendo, no segundo semestre. Aprendi muito, espero ter ensinado um pouquinho, Vivi. Tudo por ter decidido ir numa feira de música independente mais uma vez, no encerramento, ao invés de assistir a Fernandinha Abreu, num grande vexame dos organizadores de Brasília, com uma artista nacional.

E por tanta coisa boa, eu acho que podia ter uma FMI todo final de semana. “Ah, ia ser um exagero, e tudo em exagero fica ruim”, você pode dizer. Mas sei lá, eu acho que nesse caso, ia ser bom. Muito bom. Porque música, em exagero, faz mal? Me faz pensar. A música é muito boa! Arte, arte em geral...! A arte é a coisa mais genial que já inventaram! Pra mim, a arte é o único motivo pra gente não ter se matado até hoje. A arte é o que dá vida a vida. É o sopro da alma. Porque a arte é amor transcrito, em palavras, em sons, em cores, é um sentimento. Muitas vezes pode até não ser amor, sendo algum outro sentimento. E às vezes também pode ser raciocinada, calculada, o que é só um sentimento aplicado, acho. Mas o que move o ser humano a fazer a arte é o amor.

Amor. É uma coisa bonita, isso. O amor, do jeito que a gente sente, é o que faz do ser humano, humano. Pra mim, muito mais do que a nossa mente, do que a nossa capacidade de pensar, o nosso amor, humano, imperfeito, pensado, vivendo numa mescla com raciocínio, e outros sentimentos, tão racionais, criando toda essa angústia, essa saudade, esse nosso sentimento de pertencimento, de pertencer a alguém, esse amor é o que nos faz diferentes de simples animais. Que bom.

sábado, 7 de julho de 2007

O Esquecer

“E porque, você que um dia quis marcar a ferro o seu nome na história, você que é um dos últimos a acreditar no amor, você, que desejou ser grande, que se fez presente na alma de toda uma geração, e continuará na alma de tantas, através da sua arte, através da sua força, através da sua história, que você impôs à História; Porque você, que marcou seu nome a fogo no sentido de humanidade, que provou que amor continua existindo, e não esse amor falso que hoje é tão presente no mundo, mas o amor simples, o amor que simplesmente existe, simplesmente é sentido, como algo distante, porém tão presente; Porque você, que se tornou um imortal entre os grandes, tornou-se o alinhamento das artes e das idéias, porque você, que se tornou a História, sendo possuidor do maior segredo, do maior dom da criatividade e do aprendizado, porque você foge de nós? Porque depois de todos os seus grandes feitos, depois de toda a sua criação suprema, depois de toda a sua humanidade transcrita à humanidade, porque você esconde-se de tudo o que conseguiu? Porque foge da sua própria pessoa, da sua própria figura de mestre, da sua própria figura de inspirador? Porque vive em fuga, não reconhecendo o seu próprio destino, a sua própria fortuna? Porque desaparece da frente de todos, e nos priva da sua sabedoria, da sua criação, da sua fertilidade de pensamentos, porque deixa de nos prover com mais de tudo isso, por quê? E porque foge de nós? Nós, que estivemos a seu redor durante toda a sua vida? Que o apoiamos em tudo, que participamos do seu crescimento, que estivemos aqui antes de tudo isso? Porque você me abandona, abandona o meu amor, e o amor de seus melhores amigos, e toda a sua história com eles, com nós? Porque ao invés de apenas viver apenas alheio à sua grandeza, viver em seu esquecimento, como se nunca houvesse se tornado realmente grande, procura também abandonar tudo o que te embasou a ser grande? Até nós, que nunca precisamos de nada disso para te apoiar, para lembrar de você, para viver você, porque até nós você abandonou, e fugiu para esses ermos? Porque você foge até de mim? Eu, que te amei durante todo esse tempo, e me entreguei por completo a você, amando a você, e apenas a você, aprendendo que o amor realmente existe nessa forma absoluta, aprendendo a amar com você? Porque até a mim, que continuei ao seu lado quando o mundo procurou expulsar a todos, porque abandonou até que mais te ama nesse mundo? Porque procura me esquecer? Nos esquecer? A todos nós? Porque busca esquecer o seu passado?”

Ele, então, olhou ao seu redor, de cima daquela colina. Olhou todas aquelas árvores, aquele verde que o circundava, e pensou. Pensou em seu passado, pensou em sua amada, que estava à sua frente. Sentiu os raios solares irradiados à sua pele, chegando em ondas, na velocidade da luz, ininterruptamente, e sentiu-se momentaneamente bem. Esqueceu por um momento toda aquela angústia, trazida pelo mesmo motivo que realmente trouxe aquela por quem sentia amor àquele lugar: Seu presente. Sua grandeza, seu nome, buscado e conseguido de forma tão ingênua. Com um entusiasmo adolescente, buscou dês de sua juventude tornar-se aquele que era hoje, através da sua grande capacidade de pensar, e criar. Escreveu, pintou, esculpiu, discutiu, musicou; Através de todas as artes, inclusive a de pensar, e a de falar, atingiu a redenção. Chegou, em todos esses campos, a um lugar nunca antes visitado; E chegando a este lugar, concluiu que não há arte ou corrente melhor do que outra, apenas grandezas incomparáveis. Porém, com a idade, percebeu então que mais ninguém, em toda a sua geração, e em todas as próximas gerações que ele veria, perceberia isso além dele. Percebeu, então, que o mundo vivia rankings, onde tudo era classificado; que o mundo nunca perceberia que nisso, não há gênios. Há apenas humanidade.

Ouviu, em algum lugar perto, dentro do bosque que descia daquela bonita colina, a água. Algum rio nascia, eternamente, duma cachoeira que descia justo daquele lugar que escolhera subir. Provavelmente, todo aquele bosque só existia por causa desse rio. O bosque dava vida a tantos animais, que se alimentariam de outros animais, e serviriam de alimento a outros animais. E assim a vida seguia simples, com amor. Isso sim é genial, pensou. Pensou, então, em todos aqueles que nunca conhecera, e que o veneram como um deus, ou alguma entidade suprema diferente, um poço de energia. Pensou no absurdo de todas essas pessoas evocando sua memória, eternamente, por causa de um livro, um quadro, uma música. Sentiu náuseas ao imaginar pessoas se referindo a ele com um apelido carinhoso, como se o conhecessem de toda uma vida. Pensou também no orgulho de seus amigos, e daquela que o acompanhava, em encher o peito e dizer que o conhecera, ainda antes de sua grandeza. Hoje não mais compreendia a razão de ser desse orgulho, ou dessa simpatia, ou dessa veneração que havia, e haveria para com ele, só por causa de um amontoado de idéias. Pensou, então, no desespero de todos aqueles ditos gênios da humanidade, que vieram antes dele, aos quais era agora incluso, contra sua própria vontade. Pensou no desespero deles em chegar a este ponto, e descobrir que era uma tarefa impossível, como ensinar um cego a ver. A angústia toda voltou, e apenas o cheiro das flores, que não conhecia, dava algum consolo a ele. Olhou o horizonte e o céu azul, límpido, logo acima. Concluiu então, que fizera a decisão correta; Estava certo.

“Sim, fujo do mundo. Desapareci, não deixei pistas, procurei me transformar em fumaça, sim, fiz tudo isso. Abandonei até mesmo meus melhores amigos, aqueles que estiveram comigo durante todo esse tempo, dês de antes de tudo isso ocorrer. Optei por esquecer que tudo isso ocorreu, mas fugi para cá, para essa colina verde, e não apareci nem mesmo para aqueles que sempre me apoiaram. Abandonei até mesmo você, que me amou, da forma que te ensinei que era possível, e que amei de volta, como amei outras antes, mas de uma forma muito mais simples, absoluta, do que a qualquer outra. Sim, sim, procurei esquecer até mesmo o meu passado. Pois bem: Fugi de tudo aquilo que consegui, mas que quis por ingenuidade. Fugi de uma falsa grandeza, de uma mistificação que criaram em volta de alguém que descobriu que nunca quis nada além de ser feliz, e de criar. Porque criar é a essência da vida. Mas a vida não é eterna, e a criação, como se tornou, é uma maldição. É uma maldição pois é a imortalidade. Procurei esquecer tudo, pois dizem que um demônio não consegue te ver, se você não o olhar de volta. Procurei esquecer, para assim, ser esquecido. Fugi do meu presente, e do meu passado, para não me haver futuro. Um futuro eterno, sendo venerado, como o é Da Vinci, Bach, Cervantes. Tenho pena deles todos: Nunca serão esquecidos. O esquecimento é a maior das dádivas! Ele te permite descansar em paz, eternamente! Sem sua memória ser evocada, e venerada, enfim, você pode ser eterno. Eternamente esquecido, embaixo da terra, em plenitude com o mundo, com a natureza. E isso é o que eu mais desejo. Por isso, hoje fujo de todos aqueles que um dia possam se lembrar de mim, para que talvez assim, me esqueçam. Fujo até mesmo de você, a quem tanto amo. Pois é preferível um pequeno mal à um mal maior. Melhor uma dor que sentirei até morrer, do que uma dor que passarei a sentir a partir daí. Perdão, por te abandonar, peço-te perdão, mil vezes! Mas é preciso. Busquei entrar no inferno, pensando que chegava aos céus; Agora só desejo sair.”

Perplexa, ela o olhou nos olhos, e não viu qualquer sinal de insanidade, que às vezes se fazia presente naquela pessoa. O amor, simples, absoluto, se fez então presente. Ela o beijou na boca, e seu coração e cérebro ordenaram que ela esquecesse quem ele era, ou fora. Olhou então, aquele estranho, e sentiu um amor eterno por ele. Sentiu também seu desejo por paz e, então, o abandonou naquela colina. E todos aqueles que a encontraram a partir daí, também o esqueceram, e tudo o que ele produzira um dia, passou a não fazer sentido. O mundo, gradualmente, passou a esquecer que aquele artista um dia existira. O nome dele deixou de existir, gradualmente. Toda aquela obra, reunida em quadros, livros, músicas, filosofia, peças, tudo aquilo estava ali, reunido, facilmente identificável como algo produzido por uma só pessoa, misteriosa. Ninguém sabia dizer quem era aquele grande gênio, aquele grande produtor, benfeitor à humanidade. E assim, sua memória se fez esquecida, antes mesmo que morresse. Mas na verdade, aqueles que o amaram de verdade nunca o esqueceram. Uma vaga lembrança de uma pessoa, um nome, um grande, continuou eternamente na mente deles. Sua amante, aquela que dele aprendeu a amar simplesmente, sentiu, mais que todos os outros, um amor distante, por uma pessoa muito importante, que sabia quem era, apesar de amá-lo demais para se permitir lembrar. Sentia saudades imensas por essa pessoa, e amargou uma nostalgia melancólica, gostosa, vivendo aquele amor, junto a ele, apesar de separados. E esquecido, ele pôde então, um dia, ter a oportunidade de descansar em paz.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Um caminheiro de ontem no mundo do amanhã

É triste pensar assim, mas alguns sentimentos nunca passam, não importa quanto tempo passe. E geralmente, esses sentimentos são ruins. Eu tenho a impressão que vou carregar um deles por toda a minha vida. Esses sentimentos, que nos machucam, nos deprimem, nos fazem paranóicos, passamos a planejar a nossa vida contra eles, quando na verdade eles estão tão presentes na nossa vida que fazem parte de nosso ser, e qualquer tentativa de lutar contra eles seria como tentar lutar contra si mesmo. O que acontece é, com o tempo, muitos de nós conseguimos conviver com eles, carregá-los, tendo apenas alguns pequenos acessos ocasionalmente. Tornam-se suportáveis, pois nos acostumamos a eles. Matam sonhos nossos, geram frustrações, nos afastam de outras pessoas, nos aproximam de outras, às vezes ruins para nós, torturando nossa existência, até que, na maior das sortes, aprendemos a ignorá-lo, superá-lo, ou coexistir com ele.

Pois bem, tenho um sentimento assim. E esse eu sei que nunca vou superar, nunca vou poder ignorar, e nunca vai morrer. Pois o sentimento que eu tenho está relacionado a mim, e ao mundo, o mundo de hoje, o mundo em que nascemos. Mais especifica-mente, está relacionado ao modo que as pessoas vivem, se comportam, se divertem, se relacionam, ganham a vida.

Eu por exemplo, sempre tive um contato muito intenso com computadores. Dês de pequeno, tinha um computador em casa, e na curiosidade, acabei aprendendo na marra a mexer naquele treco. Mas eu sempre gostei de escrever no papel. Num sei porque, mas eu sempre preferi pegar um lápis, ou uma caneta, e escrever no papel do que no computador. É engraçado, porque isso acontece com muitas coisas da era do terceiro milênio. É uma espécie de sentimento de que eu nasci atrasado, tipo uns vinte, trinta anos. Porque eu tenho essa coisa dentro de mim que me dá vontade de lutar pelos meus ideais, de viver coisas intensas, de que o prazer fácil não tem graça, de que coisas muito superficiais e levianas não me interessam.

A minha geração é uma geração estagnada. Desinteressada por tudo e qualquer coisa, é sério. Pelo menos de uma forma geral. Porque, no ontem, existiam duas formas de lutar por algo que você quer. O primeiro era pegando em armas, indo fazer uma bagunça, uma “revolução” pelos seus direitos. E o outro era pela votação, pela maioria de voto. Eram duas coisas incontestáveis, que todo tirano temia, porque é a força de um povo reunida por uma vontade em comum, e contra o filho-da-puta. E qual não é a minha frustração quando eu vejo um monte de merda acontecendo, um monte de gente “revoltada” contra isso, e ninguém fazendo nada? “em quem você vai votar?”, pergunto. “Ah, em ninguém ainda, num sou obrigado...” A única explicação é esse egoísmo generalizado que vem ganhando cada vez mais lugar no século vinte e um. É moleque demais pra sentir no bolso ainda, ou na pele, então num faz nada pra mudar, enquanto não afeta diretamente.

E o bonito é que isso não se restringe só à luta, ao protesto. As forças da leviandade ganharam a guerra. O prazer rápido e fácil é o que todos querem, o máximo possível. Ou pelo menos a maioria. No início, entre namorar e ficar, as pessoas preferiam ficar, pois não encontravam alguém legal para namorar, ou algo do tipo. Justo. O problema é que, nessa onda de se relacionar, é um prazer mais fácil, e com menos perigo de trazer um sofrimento depois ficar com alguém, do que arriscar num namoro. As pessoas, então, começam a fugir umas das outras, muitas vezes evitando se aprofundar num relacionamento, com medo de que aconteça alguma coisa, de que você não queira mais largar aquela pessoa, ou com medo de ter que se engajar em algo mais sério.

E isso também acontece na música, nas artes, e em tudo que foi feito por nós, e para nós. Ou a maioria. Simplificação, industrialização, venda em massa. Até mesmo a contra-cultura é um produto da grande mídia hoje em dia. As pessoas tem medo até mesmo de buscar o que as fazem felizes, com medo de que isso não dê dinheiro. E isso é muito triste, pelo menos para mim.

Eu acho que em todos esses casos que eu citei eu sou mesmo um antiquado. Gosto de arranjar confusão pelas coisas, quando acho que estou certo. Luto com garras e dentes pelos meus ideais, sempre que possível. Claro que as vezes eu acabo não fazendo isso, mas eu tento. Com mulher, eu gosto de conhecer a pessoa, me aprofundar em algo. Sei lá, não curto muito essa coisa de beijar alguém que eu nunca vi na vida. Pra mim, pra eu querer ter alguma coisa com uma menina, eu tenho que ser atraído de pelo menos duas, das três formas de atração que eu gosto de falar que existem. E acabo mesmo me envolvendo, às vezes sofrendo, mas sendo muito feliz, mesmo nesse sofrimento. Porque eu acho que vale a pena sofrer por bons momentos. Acho que pode ser um pagamento à altura.

Então acabo gostando mesmo das pessoas. Não só das meninas com quem me relaciono, mas de todo mundo com quem eu gosto de conversar. Acabo sentindo falta das pessoas, me importando com elas, acima do comum. Acabo mesmo sendo viciado em gente. Em companhia das pessoas, em afeto, amor. E isso gera saudade. E essa saudade ganha tamanho, e se extende também para o que eu nunca vivi. Mas o que eu queria ter vivido. Tempos difíceis, mas desafiadores, que vieram muito antes de eu nascer. Nostalgia inexistente. E com o tempo, essa nostalgia perde espaço para a saudade por pessoas. Pessoas especiais, importantes. Pessoas que eu queria sempre ter ao lado, e que eu quero sempre ter por perto.

Acho que eu me vejo, então, como um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. Nasci um resquício do mundo do profundo, do concreto, mas nasci no mundo leviano. E por isso, busco sempre pessoas que também são esses resquícios. Pessoas que também sentem de verdade, que também vivem o intenso, o concreto. Pessoas que possuem ideais, e sonhos de verdade, algo além de ter um carro bonito. E passo a sentir falta delas, quando não estão por perto. Sinto falta de grandes amigos, sinto falta de grandes amigas, sinto falta da menina da França. Sofro, vivo intensamente. Sofro de saudades, sentimento que só existe na língua portuguesa, sentimento pelo qual as pessoas não acreditam mais que vale a pena sofrer. E não me arrependo. Pois sentir saudade é gostoso, pois sentindo saudade você tem a oportunidade de matar a própria.

Portanto, sinto. E vivo, da minha maneira. De maneira mais parecida com a que os meus pais viveram, e vivem, do que com a que as outras pessoas do hoje, do amanhã, vivem, e viverão. E apesar de sentir, então, eternamente esse sentimento de que pertenço a um tempo que não vivi, vivo feliz. Com uma única utopia de fazer o meu próprio tempo, de fazer o tempo futuro ter mais a minha cara do que a cara da leviandade que o mundo de hoje trouxe. Vim do mundo de ontem, mas vim para o mundo do amanhã.

sábado, 30 de junho de 2007

Destinos e Reticências

França. Nova Zelândia, Austrália, Inglaterra! Peru, Equador, Panamá, até Argentina. Ou Japão, Alemanha, Moçambique. Estados Unidos já foi, Canadá acabou de deixar de ser, Noruega deixa amanhã. Irlanda, Inglaterra de novo, Estados Unidos de novo, México... França. Até Escócia, Uruguai está sendo, até Paraguai, se não me engano. Posso dizer também de Bali, Tailândia... Espanha, Portugal, Holanda. Itália, e... França.

Dentro do país há Angra, São Luiz, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo. Paraty, Búzios, Bonito... Floripa, Goiânia, Guarapari, Goiás Velho. Belém do Para, Muitas na Bahia, Campo Grande. Fora do país, França.

Destinos, muitos e muitos destinos. Pessoas, muitas e muitas pessoas. Tristezas, felicidades, pessoas que nunca mais verei, pessoas que verei em pouco tempo, outras em não tão pouco tempo. Pessoas próximas, pessoas distantes, pessoas quais eu me incluo, pessoas quais meus familiares estão inclusos. Tristezas vão com algumas, desejos de boa sorte com outras, mas é engraçado como sempre fica esse ar, reticente. Acho que nunca acabei de me despedir de ninguém.

Nunca houve nada parecido com um filme, onde as pessoas se despedem daqueles que viajam, e pronto, despediram-se, agora resta esperar sua volta. Ou mesmo quando as pessoas se despedem de você, que está indo viajar, e em um passe de mágica, deixam de existir. Sempre houve apenas reticências. Aquela vontade de ter se despedido um pouco mais, ou simplesmente aquela indiferença esquisita, quando é uma pessoa que mal tenho contato. Com algumas, uma certa tristeza bate, em pensar que muitos fatos transcorreram, transcorrem, transcorrerão dessas viagens, uma tristeza muitas vezes causada pela certeza de que nunca mais verei alguém, ou algo do tipo. Às vezes é só saudade. Às vezes essas lombras não tem nada a ver com a realidade. Mas ainda assim, fica um medo, uma sensação esquisita, uma saudade... Uma nostalgia, e... Reticências. Aquela vontade de ter dito algo a mais, de ter passado um pouquinho mais de tempo junto com a pessoa, aquela sensação de arrependimento por ter tratado a pessoa de algum jeito, que você acha que foi insuficiente... E reticências.

Alguns estão de volta, alguns destinos deixaram de ser destinos para transformarem-se em partidas, finalmente. Porém, alguns acabaram de tornarem-se destinos, e alguns são dolorosos. Alguns destinos deixarão de ser destinos para serem residências, outros serão estadias longas, alguns estadias curtas... E alguns nunca deixarão de ser destinos, pela sensação esquisita de que a pessoa está sempre indo, como acontece com as pessoas que você não mantém muito contato. “Fulano foi pra Zimbabwe”, você diz. Mas foi a meses atrás, então, porque não diz que está lá? Porque foi? Continua indo, eternamente? Às vezes parece que sim. Às vezes é assim, quem sabe?

Enquanto isso, outras pessoas foram para lugares, chegaram a lugares, e estão lá, agora. França. Destino final. Lá se encontra, lá está. Essa, em especial, espero ansiosamente. E com muita saudade, e muita nostalgia, espero o momento em que transformará seu Destination em seu Departure. Pois enquanto isso há a costumeira reticência. E reticências, reticências, reticências...

Lua

Repentinamente, me vejo só. Só, só, só. Olho em volta, e sumiu. Sumiram todos. O quarto à minha volta começa a crescer, se agigantar, se transformar num mundo inteiro. As mesas são agora montanhas, o chão um grande mar, e a minha cama, último porto seguro que sobra. Nesse universo crescente, começo a me sentir cada vez mais sufocado, cada vez mais preso, quanto mais ele cresce. Inconscientemente, uma prisão começa a se formar em volta de mim, e começo a me sentir claustrofóbico, tamanha a imensidão, vazia, que me cerca. Começo a ser esmagado pelo peso do vazio. O oxigênio, de tão abundante, começa a me faltar, pois minhas narinas nunca antes respiraram sem dividi-lo com pessoas. Pessoas que eu gosto, pessoas especiais. Pessoas que vem e vão, Entrando e saindo por portas da vida.

Enquanto sozinho, percebo o quanto o Sol é importante para mim, o quanto ele me acompanha, me dá forças, e que sempre que eu precisei de companhia e de forças, ele estava lá, me olhando paternalmente, sempre em busca de me ajudar. Mas zombando de mim, a vida também o tira, e o quarto fica cada vez mais escuro, com o afastamento dela. Sinto medo, sinto tristeza, mas também compreendo os caminhos que a vida toma, o que me deixa ainda mais impotente em minha dor. Sabendo como e porque a vida escolheu seus desvios, é impossível sentir raiva, esse sentimento ingênuo e feliz, que nos ajuda a passar por alguns dos momentos difíceis da vida. É impossível odiar, ou ter uma raiva real de alguém importante para você, alguém que você goste. E nessas horas, só podemos desejar boa viagem, e esperar que o retorno realmente retorne, apesar de todo o medo que sentimos da mudança, da mudança que essas viagens fazem nas pessoas.

E tudo isso escurece meu mundo, pois surge medo, surge dúvida, e apesar de não criar expectativas racionais, estamos sempre esperando algo, sempre débeis seres confiantes de que a vida enfim vai cooperar, quando na verdade somos apenas nós que não cooperamos seguindo o caminho que ela nos impõe. Balançamos inutilmente em suas tempestades, com completa certeza de que sabemos exatamente para onde estamos indo.

E ali, no escuro sozinho do meu mundo, algo me faz rir de todos os seres humanos, inclusive eu mesmo. A lua navega pelos céus do meu quarto, zombando de mim, lá no alto, me olhando. Lembro de todas as luas que passaram pela minha vida, e da relação de amor e ódio que criei com o satélite. Sempre joguei a culpa de todas as decepções da minha vida na lua, odiando-a sempre que necessário. E então, nunca mais consegui parar de rir. Pois a lua está sempre lá, nos olhando, indiferente em sua grandeza. E por estar sempre lá, presente, sempre achamos que ela está olhando por nós, nos acolhendo, ou nos olhando com a severidade de quem nos tortura, enquanto na verdade ela está apenas olhando. Não zomba, não ri, não chora. Apenas observa, serena em suas noites. E mesmo assim, odiei-a, com todas as minhas forças, por tudo que acontecera na última semana. Culpei-a por tudo que ocorrera, que me machucara, que me fizera sofrer, e xinguei seu olhar indiferente nos céus.

Mas então, uma pequena estrela cadente cruzou as paredes negras do mundo-quarto, e eu, impressionado como uma criança, compreendi a grandeza de tudo. Percebi que a vida é linda justamente por não podermos escolher nossos caminhos, e percebi que todos os fatos felizes que ocorreram na minha vida, inclusive ela, se deram apenas pelo motivo de eu não ter podido seguir o caminho que desejava seguir. Percebi que a graça da vida é não esperar que as coisas aconteçam, pois acontecerão sempre do jeito que os próprios fatos acharem mais legal, ou mais bonito, ou mais divertido. Amei então a lua, minha segunda mãe, aquela que esteve sempre presente, nos momentos bons e ruins da minha vida, indiferente aos meus sentimentos, contente em apenas me olhar, me admirar, como sempre a admirei, mesmo quando com raiva. E nada mais de ruim senti, e compreendi, e esperei Agosto, sozinho, no escuro mundo claustrofóbico do meu quarto, mas agora iluminado pela companhia de alguém tão ilustre quanto a própria lua.