terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Fortaleza Quântica

Tudo meio assim, imagine, uma realidade, meio matrix, meio teoria da conspiração, meio tudo um pouco, meio mundo. O mundo é tudo um pouco disso, um pouco de matrix, um pouco de teoria da conspiração, um pouco de insanidade displicente, gerada pela chatice normativa dos não-loucos, chamados normais, mas por mim, agora que aprendi, chamados também de doidos. Dia especial: Kael, nome celestial, mas se eu fosse encarregado por um sistema diabólico e meio facista que eu fosse obrigado a chamar de chefe, mudaria o significado: O pescador de pessoas, ou talvez o pescador de loucuras. Pessoas, afinal, são loucuras, e Kael é aquele que tem o dom de conhecer pessoas extraordinárias. Encontramos com Kael, Kael está acompanhado. Vamos ao carro, vamos ao bar. Local sagrado chamado Beirute, tempos imemoriáveis de Brasília, maquete de experimentos do país.

Brasília é a cidade perfeita, de diversos pontos de vista, e assim foi planejada, com todo seu apartheid personalizado: Uma imponente, loucamente planejada acrópole. Segura, rica, um oásis no meio do deserto do planalto. Em torno, cidades que vivem para suprir Brasília de serviços básicos, cujos importantes moradores se recusariam a efetuar. Brasília é justamente, portanto, uma matrix dentro da própria, uma maquete em tamanho real do que seria a capital intergalática perfeita, regida pelo império, é claro.

No bar, ao som da chuva e à luz dum incenso, profundo, a bolha mais uma vez cresceu. Com certeza, pode-se dizer que foi só mais um bug do sistema: Tal encontro era proibido pelas leis quânticas, físicas, físico-químicas e bíblicas de acontecer. Provavelmente se trata dum encontro de realidades, como uma grande sala de bate-papo. Imagine-se entrando num lugar e deparando consigo mesmo: Choque de dimensões. Sentado num bar, deparo-me comigo mesmo, sentado à minha frente, porém numa dimensão ainda distante, já que, como pude ter a pretensão de ensinar, nos mantemos presos por nossas pessoais fortalezas quânticas, cérebros físicos inexistentes, imagens criadas por nossos próprios para proteção.

Digo e afirmo, sem medo de parecer (ou me mostrar) maluco – Sou Deus. Com toda certeza, afirmo sem medo da sua repreensão (ou apreensão), ou repressão: Constato, e os informo, sociedade louca do mundo, sociedade que me julga maluco perante os olhos cegos da justiça, tão injusta, como prova toda a história, possuo, como você, seu irmão, sua namorada e seu amante, um cérebro onipotente, onisciente, e onipresente. Por proteção, criamos, juntos, a convenção do mundo físico: Essa é a verdadeira palavra de Deus (a minha). Imagine um universo onde você poderia fazer tudo o que quisesse, mas onde também haveria o revés de todos os outros terem o mesmo poder que o seu. A sobrevivência não passaria, portanto, de uma utopia? Talvez um norte...? Pois bem, imagine um congresso que nunca existiu, fora da sua própria cabeça, onde todos os deuses, que são um só, e que sou eu, mas também pode ser você, depende da realidade que você escolher, se juntam e resolvem abdicar seus oni-poderes afim de viver. Pois bem, agora sabes de um segredo que muito poucos sabem.

É dito pela física quântica, que o cérebro é uma máquina quântica perfeita. Como no universo das possibilidades, cada uma delas gera uma nova realidade, e com isso há a criação e a existência constantes de realidades diferentes, o fato de vivermos uma só é mero medo. Nosso cérebro, como máquina quântica perfeita, é capaz de viver em todas as realidades, duas, ou uma só, escolhendo tais possibilidades com seu poder de previsão. O fato de seguirmos uma normalidade significa apenas que, nessa escolha de possibilidades, cada novo cérebro encarnado, ou cada ser humano, é condicionado pelos próprios pais, viventes do mundo físico, a escolherem sempre possibilidades que seguem algumas regras de existência, as tais Leis da Física, que também não existem necessariamente.

Sentamos no bar, bebemos cerveja, apreciamos a nossa loucura, ou lucidez agraciada. Trocamos pensamentos, palavras, verdades, mentiras, vidas. Com toda a certeza, tal conversa não existiu. O sistema se comprometeu de fazer uma limpeza. Me mataram em 98, entrei com a cara na porta, rasguei o supercílio. A injeção de anti-tetânica foi mal efetuada, bolhas de oxigênio surgiram por todo o meu sangue. Caio ficou mal na época, só que depois esqueceu. Mas então, nunca conheceu o Ribeiro. A Jah te Vi acabou, porque não teve ninguém para falar no ouvido dos moleques. Sem o Ribeiro, Caio nunca se tornou maluco do jeito que é. Caio nunca conheceu Ida, sua amada norueguesa, já que a Ida conheceu apenas o Ribeiro. Nunca se fez a ponte Edgar, Caio, Ribeiro, Kael. Caio nunca ficou tão amigo de Kael, apesar de acabarem se conhecendo. Lá se vai Caio, o profeta. Nunca houve, então, Caio, Kael, Zé e Chico sentados numa mesa. Afinal, Caio, Chico, Tássia e Diego são uma pessoa só. Afinal, Caio, Kael, Zé e Chico são também uma pessoa só. Chico e Zé são irmãos, ou são duas realidades de uma mesma pessoa, que nunca se encontraram. Chico morreu! Morreu novo, aos 8 anos! Nunca conheceu Dani, nem Marina, quanto mais Martha. Nunca conheceu ninguém, porque nunca existiu. Interpretando direito, Caio, Tássia, Diego, Kael e Zé são uma pessoa só: Chico, que é Deus. Chico morreu, ou talvez nunca tenha nem existido. Essa conversa nunca existiu. Esse texto também não.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Realidade fria, porém real

Já não escrevo como antes. Talvez seja porque passei por tudo, talvez seja apenas porque já me dói de forma diferente todas as dores do meu corpo. Por pouca vontade, exponho textos antigos; Antigas feridas, abertas eternamente como em foto, apesar de já não sentir sua dor, apesar de tais dores já me serem tão familiares, que deixaram a muito de me incomodar. Lembranças e saudades, de tempos saudosos e repletos de memórias. Parece, às vezes, que sou tudo isso, mas apenas isso: Lembranças, saudades. Saudades que senti, que sinto, que sentirei, que talvez, no meio dessa dormência, me esqueça do gosto, do cheiro, da sensação específica. Luas, lençóis, sorrisos, piscadelas, jeitos. Jeito próprio de piscar os olhos, expressões faciais marcantes. Tudo lembranças.

Já não escrevo tanto quanto antes, ou tão bem. Tanto, pois aparentemente as minhas marés fizeram trégua, e já não tenho tanta vontade de escrever. Tudo bem, tudo bem, todos dizem, é passageiro, é fase, e sei que é verdade. Mas já não escrevo tanto, e tão bem quanto antes, pois hoje sou outro, e não sei se isso é triste, feliz, ou simplesmente indiferente. É tudo questão de lembranças, De já vus, pouco modificados: Mesmo local, relativamente mesmas personagens, situação completamente diferente. Parte de mim chora; Conservador como sou, nunca desejei tal mudança. Parte de mim sorri; O espírito revolucionário aceita mudanças sem pestanejar, acaricia o passado, mas ama o futuro, e conseqüentemente, o presente: Situação nova, situação boa. Uma terceira parte, simplesmente se sente atordoada, tão triste quanto feliz, nervosa. Pessoas importantes para mim, de diferentes épocas, se encontram todas. Antigas mágoas, antigas fotos felizes, antigas peças, antigas músicas. Antigos amores, antigos ódios, situações, momentos, loucuras!

O isqueiro salva a muitos. Levantado ao ar, ou levantado à boca, uma simples fricção de uma roda áspera de metal numa pedra de pólvora, uma centelha, uma centelha que acende um gás, gás esse que é alucinógeno, gás esse que pode destruir um cérebro, gás esse que queima belo. Erguido acima da cabeça, afasta toda a escuridão que cai sobre a minha alma, sobre o meu coração, sobre o meu casaco. Erguido acima do meu queixo, ou do queixo de outros, afasta a realidade, afasta o nervosismo, afasta a escuridão, ilumina rostos. Por algum motivo não me sinto mal com a escuridão afastada. Os rostos são nítidos. Os rostos se estranham. Os rostos se olham, de relance, algumas poucas vezes. Os rostos enchem-se de ar, esvaziam-se de ar, sufocam-se a si mesmos, ficam felizes. A situação é esquisitíssima, porém os rostos não se comentam. Apesar de todos os rostos, ou quase todos, estarem a par da situação, Um rosto esconde a surpresa, e permanece sem reação. O isqueiro já não é necessário, o ambiente se bruma entre os rostos, inutilmente, ocupando os últimos vazios no meio do nevoeiro. Os rostos estão acostumados com a névoa, mas há muito não se olham de perto, há muito não se falam, e continuam sem falar. Provavelmente, ambos os rostos tem muito o que dizer, muito o que sentir, muito o que temer. Mas palavra alguma é proferida. Se juntam perto do fogo, fogem assim da escura realidade que os compõe. Porém, não deixam orgulho, posição, respeito, realidade. Resolvem, silenciosamente, portanto, prorrogarem uma futura mudança, ou diria, re-mudança. Beijos não são trocados, abraços também não, tampouco comprimentos. O rosto se vai em meio à multidão.

Mais tarde, já sem um isqueiro, já sem rostos, resolvo ir embora. Um beijo na face sela qualquer coisa. Talvez um até nunca mais, talvez um até amanhã. Por mais que eu me importe, não me importo. A realidade é morta, a saudade é ignorada, sentimentos podem não existir, quando necessário. Triste? Diria real. Pergunte às brumas de Avalon, em Brasília, na UnB, ou até na torre, ou no CCBB. Lembranças me compõem, porém já não ligo para identidade.

Condição

E não me importa o presente,

Onde não ganho um só tributo,

Tempo este no qual somente vivo,

Vivo, por não ter rumo melhor a seguir,

Rumo, por não ter coisa melhor a fazer,

E faço, por não ter lugar melhor para viver.

E não me importa tudo isso, do que não reclamo,

Enquanto penso, simplesmente, nas portas,

Portas que me apareceram,

Portas que me escolheram,

Que me trouxeram a escolher a espera,

Por primavera, ou talvez por outono,

Mas a espera por alguém que vai longe,

E para longe de mim se foi.

Quando volta, ou se volta,

Tenho medo.

Pois não me importa o presente,

E a única coisa que lhe pergunto é

Sou passado, ou sou futuro?



14 de Julho de 2007. Tempos de saudades imensas e antigas realidades opressoras. Tive resposta impronunciada.

Uma minha clássica afirmação

Da perfeição das formas imperfeitas do mundo,

Prevejo a imprevisibilidade das pessoas,

Pois nunca se sabe do amanhã.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Amor e Vida

Amor: é o prenúncio de um grande sofrimento. Um sonho tão grande, e tão maravilhoso, misto de ternura e paixão, que é impossível que se vá facilmente, sem deixar marcas, causar mudança perceptível, sem dor, tristeza, sofrimento, ou lamento. Seria como beber até cair. Enquanto bêbado, a sensação é maravilhosa, o mundo pode se tornar perfeito. Passado o efeito, você pode passar uma das piores fases da sua vida. É um brinquedo perigoso, por assim dizer. Machuca, mata. Assassina, suicida. Mas é a melhor coisa que pode acontecer, que pode ser sentida por alguém. Cada segundo de seu auge vale meses da rebarba, meses do pós-guerra, ou pós-amor. Você conhece alguém, e passa a ter momentos ótimos com essa pessoa. Aprendizados e vivências para a vida, que mostram toda a perfeição e beleza do mundo, mesmo nos momentos tristes. Aprende a olhar para aquela pessoa com outros olhos, ouvir seu nome com outros ouvidos, reagir com outros estímulos à existência desse alguém; Essa pessoa se torna diferente, para sempre. Nunca um antigo amor voltará a ser simplesmente um amigo; Pode gerar uma amizade, mas será sempre um antigo amor. Ou pode gerar um outro qualquer sentimento diferente, postura diferente para com ele, mas será sempre aquela pessoa com quem você viveu bons momentos. Um carinho enorme pode ser gerado, ou uma mágoa profunda. Pois é tudo intenso demais para passar batido. O amor gera o quadro sentimental da vida; Todo sentimento humano parte, ou finda no amor. E por isso ele é tão idealizado, ou banalizado, dependendo do momento ou sentido. Ele dá os claros e escuros da vida, onde no claro, a vida é maravilhosa, cheia, intensa. No escuro, parece que nada na vida voltará a ser bom um dia. Não tão bom. Ninguém vai conseguir ser tão grande quanto aquela pessoa, nunca. É só uma dor. Só um sofrimento, só uma tristeza, só uma desilusão; Só um amor, uma paixão uma namorada, uma menina, uma pessoa, uma existência; Só uma fase. Mas dói. E é uma dor difícil de se descrever, digo. Posso tentar descreve-la em palavras racionais, ou em palavras de sentimento. É algo estranho, pois não se trata de uma dor puramente física. Também não se trata de algo parecido com um cansaço, ou um estresse, ou mesmo uma psicose. É meio que uma mistura de tudo isso. Pode até sentir o corpo doer, a peito apertar de um jeito mortífero, um vazio profundo na cabeça, uma ausência, absurda, como se não fizesse o menor sentido. E geralmente não faz, mesmo. Geralmente, não há um motivo, um sentido... A vida simplesmente muda, infelizmente. E a memória dessa mudança, a constatação dessa mudança, a memória dos bons momentos, e até dos maus momentos, tudo isso gera a dor. E dói. Sente-se vazio... Sem alma, sem nexo... Sem sentido, direção, vetor... Sem verdades, sem mentiras – estas que realmente não existem – sem tempo. Tempo pra quê? Sei lá, pra viver? Pra seguir adiante? Não se tem tempo, e não se teria motivo pra gasta-lo, se houvesse. Nem vontade. A cabeça se embaralha de novo, as faces, ideologias, imagens, personalidades, todas voltam para o baralho. As próprias idéias perdem seus sentidos, sua ordem... Você vive o passado, ou melhor, vive o presente composto pelo dueto, você, e... Ouve as músicas que aprendeu a ouvir. Pensa da forma que desenvolveu de pensar. Seu pensar antigo, mesclou-se às novas idéias que, inevitavelmente, absorveu, já que de uma pessoa que foi para você tão importante... Ou melhor, é: Nessas dores, sempre é. Não foi, pois não está morta. Mesmo não estando conjunta, não está morta, pois vive na sua cabeça. E você segue, buscando um sentido, passa a ter tempo, para pensar, para lembrar, para viver. E segue o caminho que visualizou quando estava unido. Porém, as idéias se embaralham, sem nexo, sem sexo, idéias assexuadas entre si, incapazes de se ordenar, distinguir, unir. Você toma decisões impensadas, evita alguns eventos, evita encontrar, ou faz de tudo para encontrar, se perde na própria vontade, tenta achar algum caminho, perdido. E você segue, buscando esse caminho, esse sentido, e vive como aprendeu a viver. Novas idéias estão no seu repertório, vivas. E como quem ama cuida, passa a temer a mudança, própria, e dela. Passa a temer as ações, passa a temer que algo de mal a aconteça, passa a temer. Chega a níveis de desespero, níveis de dor, níveis de incompreensão, níveis de non-sense, níveis de desorientação, níveis... Impensáveis, inexoráveis. Tudo por causa de uma pessoa. Que na verdade é você mesmo, e não ela, mas tudo por um sentimento. O seu, não o dela. E não está errado. Tem momentos de reclusão impossíveis, contra tudo e todos. Tem momentos de irresponsabilidade, e inconseqüência, necessários. Tem momentos de psicose angustiante, onde a sua cabeça parece pulsar, explodir e esmagar, explodir e esmagar, explodir e esmagar... Tem vontade de gritar, e grita, com toda a força; Mas grita dentro da própria cabeça, se ensurdecendo a si próprio, sozinho. Cai num mundo fechado, pequeno, escuro. Há ela, às vezes. Com o tempo, não há nada. Mas é um mundo doloroso, triste, sombrio, meio lúgubre. Tem momentos que não consegue olhar para frente, só para baixo. Mas vez ou outra algum raio de sol consegue bater na sua cara, e às vezes você não gosta, mas em outras você vai se sentir melhor com ele. E a vida vai seguindo, de uma forma irônica, como que rindo da sua cara, e você passa a odiar isso. Até que vê que ela faz isso como que te dizendo que já viu isso mil vezes, e passa a não conseguir mais chorar, mesmo se não tiver chorado nada. O choro, às vezes, é psicológico, sem som, sem lágrimas, sem soluços. E é como se você não tivesse mais lágrimas, ou seus neurônios não conseguissem mais imita-las. Você fica quieto, e se dá conta do término. Ousa levantar o rosto, olhar para frente, vê um mundo gigantesco e vazio. Olha para trás, e vê, por detrás de toda uma tempestade, que aquele mundo lindo, aquele mundo maravilhoso, faz parte do mesmo mundo que esse que está à sua frente. Percebe que a tempestade está em um ponto, não em uma linha. Vê que o mundo maravilhoso daquela pessoa não está por detrás de uma barreira, não está do outro lado de um rio, mas em outra margem de um lago. Percebe que aquela pessoa não ficou para trás, permanentemente, que ela apenas parou para amarrar os cadarços, ou descansar as pernas, beber um pouco de água. E seguiu por algum outro atalho, alguma outra trilha, ou mesmo está seguindo pela mesma que a sua. Como a vida passa ironicamente, você não pode parar e esperar, ou voltar e seguir pelo mesmo caminho que ela. Se for o caso, ela deve correr para te alcançar, ou seus caminhos, diferentes, poderão se cruzar novamente em algum lugar à frente, como amantes, novamente, ou como amigos. Pois como outrora todas as estradas chegavam a Roma, todos os caminhos podem se cruzar, vezes e vezes, podem chegar a um mesmo lugar, ou dar indicações de que “fulano passou por aqui”. É irremediável que grandes pessoas sempre encontrarão grandes pessoas. Eu tenho consciência que essa paulistinha é uma grande pessoa, e vai ser alguém ainda muito maior. Então, se pretendo cruzar o caminho dela algum dia, luto eu para ser grande. Se não, leio seu nome numa revista, num jornal, na televisão, e rio, com carinho, com boas lembranças.


20 de Agosto de 2007. Palavras de outros tempos, duma mesma pessoa.

Palavras Sentidas

Queria muito escrever algo, mas como não sei o que, simplesmente soltarei as palavras, do jeito que me vierem. É algo assim, de algo que tenho vivido, passado, sentido. As pessoas são tão todas iguais! E todas tão diferentes! Tão melhores que as outras, tão piores que as outras! Tão incomparáveis, entre si! Cada uma com suas idéias, seus interesses, suas visões, seus pensamentos, cada uma tão única. Mesmo assim, algumas passam a ser simplesmente comuns, enquanto algumas raras tomam essa posição de únicas. Diferentes de tudo o que já vimos, tão propensas a nos impressionar... É esquisito pensar que algumas nos interessam, e outras não. Também é esquisito pensar que isso possa ser de alguma forma, mútuo. Tão coincidente, isso ser alguma vez mútuo... E também, o alinhamento de idéias, é algo dado tão casualmente, tão sem intenção, sem nada. Tão gostoso que a vida se dê desse jeito... E tão doloroso. Conhecemos uns aos outros de forma inusitada, nos ligamos, criamos lembranças, lugares, idéias, músicas, impressões de coisas e lugares, maluquices, hábitos, costumes que se tornam moda, marcos, juntos. Amigos, rivais, companheiros, amores. Dês do início, a única certeza que nos é dada, sem palavras, sem nem mesmo serem pensadas por qualquer um, é que ou nos separaremos, ou seremos separados. Seja por brigas, por morte, por vontade, por desgosto, por falta de vontade, por obrigação, por desejo, por morte do desejo, simplesmente chegará um momento em que um rumará a Sul, e outro a Norte. Em algum momento veremos com um brilho nos olhos, uma carreira se abrindo à nossa frente, uma oportunidade, uma viagem, uma mudança, ou ela engajada na carreira de medicina ou jornalismo, entrando para um grupo itinerante de teatro, indo morar no Zimbabwe, como diplomata, ou na Espanha, como pintora; Ela se mudando para Arembepe, São Francisco ou Rio de Janeiro. Quando isso acontece, ainda é menos doloroso. Assim, pelo menos, de algum modo podemos ainda voltar a se cruzar, como na vida há muitos caminhos levando a destinos iguais, podemos passar uma temporada de trabalho fora em seu apartamento na Vinícius de Moraes ou na Paulista, ir ao lançamento de um de seus livros, encontra-la guiando o avião que te leva para Londres, trabalhando no mesmo festival que você, ou até batendo na sua porta numa bela manhã de sábado. Mas também há o inevitável de nunca mais vermos a pessoa, que uma hora ou outra, poderá sucumbir a uma doença, ou você mesmo pode ser vítima de um atropelamento, ou de um latrocínio. Pois justamente, a vida é casual, coincidente. Esquisito, impensável.

E quem dera fosse simples assim! Entram tantas e tantas variáveis, que logo a cabeça se perde. Como qualquer outra, relacionamento é uma utopia. Se simplesmente nos separássemos de pessoas que gostamos por acontecimentos e fatos... Muitas vezes, o simples pensamento morre, o sonho acaba, o trem simplesmente segue por um desvio qualquer, nos afastando. De repente, você não se vê mais com alguém, ou algo simplesmente o faz afastar-se de você. A música desafina, o som do silêncio te prevalece, o frio e o cinza tomam conta de uma grande amizade. E assim, casamentos se rompem, bandas acabam, amigos se magoam, amantes se desamam. A vida é assim de verdade, e tão frequentemente verdadeira...! São casos mais comuns do que árvores na floresta. Triste, doloroso, frio, mas verdadeiro. As pessoas, tão propensas a te impressionar, finalmente te dão um grande final, e te deixam pasmo, ao desaparecer, sumir, simplesmente. Evaporam de perto de você, chovendo em outro lugar, longe do seu alcance, às suas vistas ou não. Com isso, enfim entendo as pessoas.

Com isso, enfim entendo todos os do hoje. Entendo perfeitamente que as pessoas têm se tornado cada vez mais individualistas, cada vez mais anti-sociais, e egocêntricas. Num mundo medroso, acomodado e escandaloso, como o nosso de hoje, as pessoas fogem desse sofrimento. Cada vez mais tementes da dor, cada vez mais covardes, e cada vez mais aterrorizadas por atos terríveis, tão comuns hoje como sempre foram, mas noticiados de forma sensacionalista, e utilizados aos seus favores por pessoas mais corajosas e egocêntricas do que as outras, as pessoas, então, fogem umas das outras. O amor e a amizade, palavras tão temerosas ou temidas, nos dias de hoje. A primeira nem mesmo existe, para alguns, tamanho o medo de se envolver. A segunda é cada vez mais rara, em um lugar onde cada vez é mais difícil ter um grande amigo, sem nenhum interesse na relação. As pessoas têm na cabeça o medo dessa dor, e na critica a ela, fazem as outras fugirem do amor, e até da amizade. E a maioria daqueles que se aventuram nesse mundo de se relacionar, evitam mergulhar, para não bater a cabeça, e no menor sinal de aprofundamento, fogem de tudo. Cada vez menos as pessoas tem coragem de serem verdadeiros, para si mesmos e para os outros, em relação ao que sentem. Não se vê um amigo falando para outro que o ama, a qualquer hora. E num relacionamento afetivo, é raro ver alguém falando de forma verdadeira. Aqueles que levam o amor como palavra, falam como se fosse bom dia. Os outros que sabem que amor é coisa séria, nem sequer falam, às vezes por não sentirem, e às vezes por terem medo de dizer.

A gente tem medo de dizer o que sente. Medo mesmo de mostrar afeto, medo da reação das pessoas. E medo do afeto dos outros, medo da própria reação nesse afeto. Medo do que os outros vão pensar, medo do que aquela pessoa vai pensar, medo de julgamento, de reações, de rótulos. Esse negócio de rótulo. Cansei de ver gente falando que não gosta de rótulo. É uma coisa chata mesmo, alguém falar que você é um apaixonado, que você é um hippie, que você é um playboy, que você é isso ou aquilo. Muito chato. Mas, sinceramente, não to nem aí. Não vai mudar nada em mim, alguém achar que eu sou hippie, ou achar que eu sou maluco. Primeiro porque hippie é um movimento que nem existe mais. Segundo porque qualquer coisa que alguém disser de mim não vai decidir se eu sou aquilo ou não. A minha maluquice só é definida pela minha maluquice. Meu amor só vai também ser definido pelo meu sentimento. E sinceramente, caguei se vai doer ou não. Dane-se se eu vou ficar doente se não comer, dane-se que não vou ser compreendido se não falar, ou se falar, dane-se se vou parecer um maluco andando de pijamas no colégio, dane-se! Me disseram já algumas vezes que eu sou muito verdadeiro, que não tenho medo de dizer o que eu sinto. Eu sempre achei super estranho. Porque, apesar de dizer o que eu sinto, eu digo quando tenho certeza do que eu to dizendo, então não vejo que eu falo muito o que eu sinto. Segundo porque eu não vejo isso como ser verdadeiro, pra mim é só normal. Deve ser porque pra mim, isso é normal. Agora eu vejo porque alguém pode se impressionar a ponto de falar isso pra mim. Num mundo que as pessoas têm tanto medo de sentir, imagina dizer o que sente?!



1 de Agosto de 2007, 18 de Agosto de 2007.