Queria muito escrever algo, mas como não sei o que, simplesmente soltarei as palavras, do jeito que me vierem. É algo assim, de algo que tenho vivido, passado, sentido. As pessoas são tão todas iguais! E todas tão diferentes! Tão melhores que as outras, tão piores que as outras! Tão incomparáveis, entre si! Cada uma com suas idéias, seus interesses, suas visões, seus pensamentos, cada uma tão única. Mesmo assim, algumas passam a ser simplesmente comuns, enquanto algumas raras tomam essa posição de únicas. Diferentes de tudo o que já vimos, tão propensas a nos impressionar... É esquisito pensar que algumas nos interessam, e outras não. Também é esquisito pensar que isso possa ser de alguma forma, mútuo. Tão coincidente, isso ser alguma vez mútuo... E também, o alinhamento de idéias, é algo dado tão casualmente, tão sem intenção, sem nada. Tão gostoso que a vida se dê desse jeito... E tão doloroso. Conhecemos uns aos outros de forma inusitada, nos ligamos, criamos lembranças, lugares, idéias, músicas, impressões de coisas e lugares, maluquices, hábitos, costumes que se tornam moda, marcos, juntos. Amigos, rivais, companheiros, amores. Dês do início, a única certeza que nos é dada, sem palavras, sem nem mesmo serem pensadas por qualquer um, é que ou nos separaremos, ou seremos separados. Seja por brigas, por morte, por vontade, por desgosto, por falta de vontade, por obrigação, por desejo, por morte do desejo, simplesmente chegará um momento em que um rumará a Sul, e outro a Norte. Em algum momento veremos com um brilho nos olhos, uma carreira se abrindo à nossa frente, uma oportunidade, uma viagem, uma mudança, ou ela engajada na carreira de medicina ou jornalismo, entrando para um grupo itinerante de teatro, indo morar no Zimbabwe, como diplomata, ou na Espanha, como pintora; Ela se mudando para Arembepe, São Francisco ou Rio de Janeiro. Quando isso acontece, ainda é menos doloroso. Assim, pelo menos, de algum modo podemos ainda voltar a se cruzar, como na vida há muitos caminhos levando a destinos iguais, podemos passar uma temporada de trabalho fora em seu apartamento na Vinícius de Moraes ou na Paulista, ir ao lançamento de um de seus livros, encontra-la guiando o avião que te leva para Londres, trabalhando no mesmo festival que você, ou até batendo na sua porta numa bela manhã de sábado. Mas também há o inevitável de nunca mais vermos a pessoa, que uma hora ou outra, poderá sucumbir a uma doença, ou você mesmo pode ser vítima de um atropelamento, ou de um latrocínio. Pois justamente, a vida é casual, coincidente. Esquisito, impensável.
E quem dera fosse simples assim! Entram tantas e tantas variáveis, que logo a cabeça se perde. Como qualquer outra, relacionamento é uma utopia. Se simplesmente nos separássemos de pessoas que gostamos por acontecimentos e fatos... Muitas vezes, o simples pensamento morre, o sonho acaba, o trem simplesmente segue por um desvio qualquer, nos afastando. De repente, você não se vê mais com alguém, ou algo simplesmente o faz afastar-se de você. A música desafina, o som do silêncio te prevalece, o frio e o cinza tomam conta de uma grande amizade. E assim, casamentos se rompem, bandas acabam, amigos se magoam, amantes se desamam. A vida é assim de verdade, e tão frequentemente verdadeira...! São casos mais comuns do que árvores na floresta. Triste, doloroso, frio, mas verdadeiro. As pessoas, tão propensas a te impressionar, finalmente te dão um grande final, e te deixam pasmo, ao desaparecer, sumir, simplesmente. Evaporam de perto de você, chovendo em outro lugar, longe do seu alcance, às suas vistas ou não. Com isso, enfim entendo as pessoas.
Com isso, enfim entendo todos os do hoje. Entendo perfeitamente que as pessoas têm se tornado cada vez mais individualistas, cada vez mais anti-sociais, e egocêntricas. Num mundo medroso, acomodado e escandaloso, como o nosso de hoje, as pessoas fogem desse sofrimento. Cada vez mais tementes da dor, cada vez mais covardes, e cada vez mais aterrorizadas por atos terríveis, tão comuns hoje como sempre foram, mas noticiados de forma sensacionalista, e utilizados aos seus favores por pessoas mais corajosas e egocêntricas do que as outras, as pessoas, então, fogem umas das outras. O amor e a amizade, palavras tão temerosas ou temidas, nos dias de hoje. A primeira nem mesmo existe, para alguns, tamanho o medo de se envolver. A segunda é cada vez mais rara, em um lugar onde cada vez é mais difícil ter um grande amigo, sem nenhum interesse na relação. As pessoas têm na cabeça o medo dessa dor, e na critica a ela, fazem as outras fugirem do amor, e até da amizade. E a maioria daqueles que se aventuram nesse mundo de se relacionar, evitam mergulhar, para não bater a cabeça, e no menor sinal de aprofundamento, fogem de tudo. Cada vez menos as pessoas tem coragem de serem verdadeiros, para si mesmos e para os outros, em relação ao que sentem. Não se vê um amigo falando para outro que o ama, a qualquer hora. E num relacionamento afetivo, é raro ver alguém falando de forma verdadeira. Aqueles que levam o amor como palavra, falam como se fosse bom dia. Os outros que sabem que amor é coisa séria, nem sequer falam, às vezes por não sentirem, e às vezes por terem medo de dizer.
A gente tem medo de dizer o que sente. Medo mesmo de mostrar afeto, medo da reação das pessoas. E medo do afeto dos outros, medo da própria reação nesse afeto. Medo do que os outros vão pensar, medo do que aquela pessoa vai pensar, medo de julgamento, de reações, de rótulos. Esse negócio de rótulo. Cansei de ver gente falando que não gosta de rótulo. É uma coisa chata mesmo, alguém falar que você é um apaixonado, que você é um hippie, que você é um playboy, que você é isso ou aquilo. Muito chato. Mas, sinceramente, não to nem aí. Não vai mudar nada em mim, alguém achar que eu sou hippie, ou achar que eu sou maluco. Primeiro porque hippie é um movimento que nem existe mais. Segundo porque qualquer coisa que alguém disser de mim não vai decidir se eu sou aquilo ou não. A minha maluquice só é definida pela minha maluquice. Meu amor só vai também ser definido pelo meu sentimento. E sinceramente, caguei se vai doer ou não. Dane-se se eu vou ficar doente se não comer, dane-se que não vou ser compreendido se não falar, ou se falar, dane-se se vou parecer um maluco andando de pijamas no colégio, dane-se! Me disseram já algumas vezes que eu sou muito verdadeiro, que não tenho medo de dizer o que eu sinto. Eu sempre achei super estranho. Porque, apesar de dizer o que eu sinto, eu digo quando tenho certeza do que eu to dizendo, então não vejo que eu falo muito o que eu sinto. Segundo porque eu não vejo isso como ser verdadeiro, pra mim é só normal. Deve ser porque pra mim, isso é normal. Agora eu vejo porque alguém pode se impressionar a ponto de falar isso pra mim. Num mundo que as pessoas têm tanto medo de sentir, imagina dizer o que sente?!
1 de Agosto de 2007, 18 de Agosto de 2007.
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