sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Amor e Arte

Vivemos hoje uma espécie de admirável mundo novo, descentralizado e desorganizado, à brasileira. O quanto uma peça de teatro pode te chocar, não sei dizer. Sei dizer o quanto uma peça de teatro me chocou, mas esse dito não se expressa em palavras. Uma peça baseada num livro, baseada em pensamentos, baseados em idéias. Isso resume a peça. Idéias proféticas, diria. Profecias realizadas, ou em realização, diria ainda. Uma sociedade onde vão pouco a pouco fazendo-nos desaprender a pensar, retirando um a um nossos valores, dando novos, artificiais e supérfluos. Isso é tudo o que ela diz. Vivemos uma espécie de “mundo perfeito”, onde a felicidade é a meta principal, a qualquer custo, e felicidade significa adequação a um sistema distorcido. Nesse nosso mundo perfeito, olhamos horrorizados os horrores da realidade, como algo completamente anormal, enquanto voltando para trás, simplesmente achamos um mesmo padrão de atrocidades; Logo, estamos apenas nos desacostumando à própria realidade, enquanto nos é imposta uma nova concepção de mundo, onde não há dor e tristeza.

A única diferença que consegui perceber entre a ficção e a realidade é o fator de, por sorte, em vez de uma grande “máfia”, ou “estado”, palavras sinônimas, há uma infinidade de pequenas “gangues”, cleros do mundo contemporâneo, distintas entre mídias, marcas, culturas “globalizadas”. Em vez de um grande estado controlador, há espaço para uma globo, ao lado de uma Coca-Cola, ao lado de uma Abril, e por aí vai. E no lugar de uma droga universal que nos engana do sofrimento, temos a televisão, o refrigerante, as roupas de marca, a industria do tabaco... A cultura vai morrendo, sendo assassinada, em um mundo cada vez mais alfabetizado, em que cada vez se lê menos, e cada vez mais merda é posta na prateleira para substituir livros úteis. Em seu lugar, como no livro, filmes sem significado, culturas do prazer sem limites, culturas contra bons valores, entre tantos ruins que já havia. O quanto uma peça pode te chocar? Digo o quanto uma peça me chocou. Muito. Um desespero por motivo inconcebível me acometeu com uma força impensada, ao pensar que nós já vivemos a realidade profetizada. Ao pensar que talvez, seja meio tarde para começar a lutar contra isso. Nossa cultura vem sendo empobrecida a mais de trinta anos, nos quais uns e outros vão tentando lutar contra a maré, e vão sendo simplesmente engolidos, e forçados a surfar a onda que nos arrasta pro brejo. Vemos uma a uma as artes sendo derrubadas de seus patamares, ou tendo seus pedestais pichados por vândalos, que as vêem como um empecilho em sua meta de riqueza e poder. Por mais lucrativo, os krakens e leviatans do mar da sociedade globalizada vão simplesmente incorporando essas artes da forma mais simples possível, pois o simples é mais fácil de controlar, e com o controle, é mais fácil de se ganhar dinheiro. Simplesmente me recuso a essa realidade. Tenho repulsa por tudo isso. Nojo. Nojo desses sistemas. Nojo dessas “regras”, destinadas a me ensinar a me enquadrar à sociedade, quando é a sociedade que tem de ser “arredondada” às pessoas. Desgosto por ver o tanto de peixe que essa rede pega, e medo por saber o quão difícil é fazer um furo nessa rede, para soltar o máximo de peixes possíveis. E decepção por estar ciente de que muitos desses peixes estão bem onde desejam estar, no meio da rede de abatedouro. Simplesmente, me recuso.

Arte é vida. Amor é vida. Amor à arte é oxigênio, enquanto meu coração faz o papel de pulmão. Faço arte, ou busco fazer. Amo, apesar de não poder ter. Porém, não tenho medo desse sofrimento. Esse medo é simplesmente mais um “enquadramento” à essa sociedade distorcida. Sofro, mas sofro ciente do que quero, ciente de quem quero. E não guardo qualquer rancor por ela. Nada além de boas impressões, lembranças, muito carinho, e todo o amor do mundo. Mesmo que não seja isso que ela deseje, temporária ou permanentemente. Conheço grandes pessoas. E tenho fé de que grandes pessoas são capazes de ver isso tudo, e tenho fé de que grandes pessoas vão também desejar essa mudança. Conheci também, pessoas que serão grandes. Ela é a maior delas. Você é a maior delas, e você sabe que é você, quando lê. Crio, amo, e além de tudo, amo criar. Amo ver, amo conhecer, amo ler, amo pensar. Tudo essencial, e parte das minhas entranhas. E isso, ninguém vai mudar em mim. Nem marista, nem tristeza, nem felicidade, nem família, nem nada. Assim como o que sinto. Assim como o que penso.

Arte e amor.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Uma nota

Vivo ainda vivo, infelizmente. Escrevo, escravo da minha escrita, mais que nunca um escravo. Agradeço com um obrigado obrigado, à etiqueta dos ingratos portugueses. Não te afobes; Por mais que desejar, e por menos que escrevo, ou possa aparentar, gozo de saúde; Quando extremo, de prazer impudico, sem vontade ou lugar. Podes voltar a se aborrecer: Continuo a escrever, e muito. Mas um alívio posso te dar: Por algum tempo não escrevo aqui novidades, escrevo uma peça teatral. Se não gostas, não me assista! Mijo em cima e desprezo seu pudor e opinião. Merda para mim. Beijos para poucos. O inferno pra você.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Numa certa estação

Entro numa estação de trem. Um banco de madeira, uma bela estação. Mas bem que ao invés do usual, além de trens passavam aviões, passavam navios. Tudo meio nevoado. Era algo assim, numa cor sem sal, bege ou algo assim, ou talvez fosse preto e branco. Sentei no banco, deixei meu casaco ao lado. Junto comigo, não tinha nenhuma mala, só uma sacola, que botei em cima do casaco. Era um lugar alto e longo, e em cada uma das pontas, nas aberturas por onde saíam os trilhos, havia nuvens, e uma forte claridade. Curioso, percebi que também passavam pessoas, vindo e indo a pé, naquela estação. Muita gente descia dos veículos, sentavam-se em algum banco, ficavam um tempo, e iam embora. Já tinha gente que chegava, e ficava na estação um bom tempo. Olhavam em volta, testavam os bancos, bafejavam as vidraças, olhavam as vitrines, compravam um jornal, ou um livro, tomavam um café. Alguns saíam da estação, então. Outros voltavam ao seu veículo, ou iam embora a pé, sempre indo, sempre da esquerda para a direita. Alguns vinham das portas da estação, em algum lugar fora do meu ângulo de visão.

Tinham ali alguns que de algum jeito eu sabia que estavam esperando um tempão. Outros, eu sabia que esperariam mais um bom tempo. Por qualquer motivo, uma hora eu comecei a ficar tão curioso, que comecei a torcer pelas pessoas. Algumas, eu queria que fossem embora logo, que seguissem seu rumo. Não gostava muito da cara delas, rostos conhecidos ou não. Outros, eu queria que pudessem embarcar logo, por compaixão de sua espera, por saber que desejavam ir para algum lugar, onde está alguém, onde está alguma coisa, alguma vida. Muitos desses, eu sabia que nunca poderiam embarcar, ou se embarcassem, nunca chegariam aonde desejam. Talvez até chegassem, mas nunca seria como imaginaram. Outros, eu tinha os rostos bem conhecidos, e desejava que ficassem, pelo menos algum tempo. E começava a torcer para que não fossem nunca. Alguns, eu ficava na expectativa, pois não sabia se ficariam ou não, e desejava que ficassem. Outros, eu tinha uma grande dúvida se embarcariam no próximo avião, ou se sentariam no mesmo banco que eu. Às vezes também, tinham aqueles que tinham um rosto curioso, diferente, e começava a querer que ficassem, queria conhecê-los, saber seus nomes, o que escutam, que línguas sabem falar, para onde estão indo... Mas este era um segredo que ninguém naquela estação podia revelar uns para os outros, seu destino. E além do mais, às vezes eu estava ocupado demais esperando meu próprio vagão.

E assim, vendo as pessoas chegando, e indo embora, as percebia envelhecendo, e pessoas diferentes iam me aparecendo. Alguns, aqueles que eu sabia que estavam ali a um bom tempo, continuavam ali, ou se levantavam e embarcavam naquele navio, ou noutro avião, e até naquele trem bonito cuspindo fumaça. E tinham aqueles rostos familiares, meus amigos, meus familiares, meus amores, tantos que eu queria tanto que ficassem ali comigo, e frustrado, assisti a grande maioria de todos eles se indo, embarcando, ou decidindo seguir a pé, rumo a qualquer que fosse seus destinos. De vez em quando, mas muito raramente, via embasbacado algum desembarcar de volta na estação, de volta pela esquerda, curiosamente. Os rostos iam ficando familiares, e ia ficando mais e mais fácil reconhecer as pessoas, e alguns deles iam me dando mais vontade de que ficassem comigo, até o meu embarcar. Mas quanto mais eu queria isso, mais via muitos embarcando. Via alguns se afundando, e entrando em trens escuros, com expressões negras, ou loucas, ou até indiferentes, e partir para desaparecer, ou aparecer pior do que nunca depois. E isso ia me deixando triste, e endurecido, enquanto ia aprendendo a lidar também com as diversas partidas.

Pessoas iam e vinham, e muitos iam deixando suas marcas na minha vida. Às vezes alguém se sentava do meu lado, e ficava ali algum tempo, e eram algumas das horas mais felizes naquela estação. Alguns desses me davam algum presente, alguma lembrança, e eu procurava devolver o agrado, agradecido. Ou se não, era a minha vez de dar algo para uma dessas pessoas, que algumas vezes não me deram algo em troca. Algumas vezes, nada trocávamos, mas mesmo assim, deixavam suas marcas, ou não. As melhores coisas que me davam, ficavam bem no fundo do meu coração e do meu cérebro, e os presentes eram simplesmente lembranças simbólicas, simbolizando a lembrança maior, que era os momentos passados juntos.

Então, em algum momento, chegou um trem, ou talvez fosse um navio, um avião, talvez algo dos três, ou mesmo um submarino. De algum modo, eu sabia que era a minha vez de embarcar. Peguei minha sacola, e olhei bem lá dentro. Um livro em inglês, um filme do Felini, um cd do Caetano. Em algum lugar eu sei que devia estar carregando também um relógio, e uma carteira de couro marrom, mas estavam guardados. Na cabeça, muitas lembranças, muitas tristezas, muitos momentos felizes. Ando a passo lento em direção ao trem, e percebo, num misto de curioso e de indiferente, que a estação estava vazia. Entro no vagão do trem, e quão pasmado não fico quando vejo cinco rostos bem conhecidos no mesmo vagão! A tristeza passa, a nostalgia dá um descanso, e começo a perceber que só embarco para depois descer em algum outro lugar.