Vivemos hoje uma espécie de admirável mundo novo, descentralizado e desorganizado, à brasileira. O quanto uma peça de teatro pode te chocar, não sei dizer. Sei dizer o quanto uma peça de teatro me chocou, mas esse dito não se expressa
A única diferença que consegui perceber entre a ficção e a realidade é o fator de, por sorte, em vez de uma grande “máfia”, ou “estado”, palavras sinônimas, há uma infinidade de pequenas “gangues”, cleros do mundo contemporâneo, distintas entre mídias, marcas, culturas “globalizadas”. Em vez de um grande estado controlador, há espaço para uma globo, ao lado de uma Coca-Cola, ao lado de uma Abril, e por aí vai. E no lugar de uma droga universal que nos engana do sofrimento, temos a televisão, o refrigerante, as roupas de marca, a industria do tabaco... A cultura vai morrendo, sendo assassinada, em um mundo cada vez mais alfabetizado, em que cada vez se lê menos, e cada vez mais merda é posta na prateleira para substituir livros úteis. Em seu lugar, como no livro, filmes sem significado, culturas do prazer sem limites, culturas contra bons valores, entre tantos ruins que já havia. O quanto uma peça pode te chocar? Digo o quanto uma peça me chocou. Muito. Um desespero por motivo inconcebível me acometeu com uma força impensada, ao pensar que nós já vivemos a realidade profetizada. Ao pensar que talvez, seja meio tarde para começar a lutar contra isso. Nossa cultura vem sendo empobrecida a mais de trinta anos, nos quais uns e outros vão tentando lutar contra a maré, e vão sendo simplesmente engolidos, e forçados a surfar a onda que nos arrasta pro brejo. Vemos uma a uma as artes sendo derrubadas de seus patamares, ou tendo seus pedestais pichados por vândalos, que as vêem como um empecilho em sua meta de riqueza e poder. Por mais lucrativo, os krakens e leviatans do mar da sociedade globalizada vão simplesmente incorporando essas artes da forma mais simples possível, pois o simples é mais fácil de controlar, e com o controle, é mais fácil de se ganhar dinheiro. Simplesmente me recuso a essa realidade. Tenho repulsa por tudo isso. Nojo. Nojo desses sistemas. Nojo dessas “regras”, destinadas a me ensinar a me enquadrar à sociedade, quando é a sociedade que tem de ser “arredondada” às pessoas. Desgosto por ver o tanto de peixe que essa rede pega, e medo por saber o quão difícil é fazer um furo nessa rede, para soltar o máximo de peixes possíveis. E decepção por estar ciente de que muitos desses peixes estão bem onde desejam estar, no meio da rede de abatedouro. Simplesmente, me recuso.
Arte é vida. Amor é vida. Amor à arte é oxigênio, enquanto meu coração faz o papel de pulmão. Faço arte, ou busco fazer. Amo, apesar de não poder ter. Porém, não tenho medo desse sofrimento. Esse medo é simplesmente mais um “enquadramento” à essa sociedade distorcida. Sofro, mas sofro ciente do que quero, ciente de quem quero. E não guardo qualquer rancor por ela. Nada além de boas impressões, lembranças, muito carinho, e todo o amor do mundo. Mesmo que não seja isso que ela deseje, temporária ou permanentemente. Conheço grandes pessoas. E tenho fé de que grandes pessoas são capazes de ver isso tudo, e tenho fé de que grandes pessoas vão também desejar essa mudança. Conheci também, pessoas que serão grandes. Ela é a maior delas. Você é a maior delas, e você sabe que é você, quando lê. Crio, amo, e além de tudo, amo criar. Amo ver, amo conhecer, amo ler, amo pensar. Tudo essencial, e parte das minhas entranhas. E isso, ninguém vai mudar
Arte e amor.