Entro numa estação de trem. Um banco de madeira, uma bela estação. Mas bem que ao invés do usual, além de trens passavam aviões, passavam navios. Tudo meio nevoado. Era algo assim, numa cor sem sal, bege ou algo assim, ou talvez fosse preto e branco. Sentei no banco, deixei meu casaco ao lado. Junto comigo, não tinha nenhuma mala, só uma sacola, que botei em cima do casaco. Era um lugar alto e longo, e em cada uma das pontas, nas aberturas por onde saíam os trilhos, havia nuvens, e uma forte claridade. Curioso, percebi que também passavam pessoas, vindo e indo a pé, naquela estação. Muita gente descia dos veículos, sentavam-se em algum banco, ficavam um tempo, e iam embora. Já tinha gente que chegava, e ficava na estação um bom tempo. Olhavam em volta, testavam os bancos, bafejavam as vidraças, olhavam as vitrines, compravam um jornal, ou um livro, tomavam um café. Alguns saíam da estação, então. Outros voltavam ao seu veículo, ou iam embora a pé, sempre indo, sempre da esquerda para a direita. Alguns vinham das portas da estação, em algum lugar fora do meu ângulo de visão.
Tinham ali alguns que de algum jeito eu sabia que estavam esperando um tempão. Outros, eu sabia que esperariam mais um bom tempo. Por qualquer motivo, uma hora eu comecei a ficar tão curioso, que comecei a torcer pelas pessoas. Algumas, eu queria que fossem embora logo, que seguissem seu rumo. Não gostava muito da cara delas, rostos conhecidos ou não. Outros, eu queria que pudessem embarcar logo, por compaixão de sua espera, por saber que desejavam ir para algum lugar, onde está alguém, onde está alguma coisa, alguma vida. Muitos desses, eu sabia que nunca poderiam embarcar, ou se embarcassem, nunca chegariam aonde desejam. Talvez até chegassem, mas nunca seria como imaginaram. Outros, eu tinha os rostos bem conhecidos, e desejava que ficassem, pelo menos algum tempo. E começava a torcer para que não fossem nunca. Alguns, eu ficava na expectativa, pois não sabia se ficariam ou não, e desejava que ficassem. Outros, eu tinha uma grande dúvida se embarcariam no próximo avião, ou se sentariam no mesmo banco que eu. Às vezes também, tinham aqueles que tinham um rosto curioso, diferente, e começava a querer que ficassem, queria conhecê-los, saber seus nomes, o que escutam, que línguas sabem falar, para onde estão indo... Mas este era um segredo que ninguém naquela estação podia revelar uns para os outros, seu destino. E além do mais, às vezes eu estava ocupado demais esperando meu próprio vagão.
E assim, vendo as pessoas chegando, e indo embora, as percebia envelhecendo, e pessoas diferentes iam me aparecendo. Alguns, aqueles que eu sabia que estavam ali a um bom tempo, continuavam ali, ou se levantavam e embarcavam naquele navio, ou noutro avião, e até naquele trem bonito cuspindo fumaça. E tinham aqueles rostos familiares, meus amigos, meus familiares, meus amores, tantos que eu queria tanto que ficassem ali comigo, e frustrado, assisti a grande maioria de todos eles se indo, embarcando, ou decidindo seguir a pé, rumo a qualquer que fosse seus destinos. De vez em quando, mas muito raramente, via embasbacado algum desembarcar de volta na estação, de volta pela esquerda, curiosamente. Os rostos iam ficando familiares, e ia ficando mais e mais fácil reconhecer as pessoas, e alguns deles iam me dando mais vontade de que ficassem comigo, até o meu embarcar. Mas quanto mais eu queria isso, mais via muitos embarcando. Via alguns se afundando, e entrando em trens escuros, com expressões negras, ou loucas, ou até indiferentes, e partir para desaparecer, ou aparecer pior do que nunca depois. E isso ia me deixando triste, e endurecido, enquanto ia aprendendo a lidar também com as diversas partidas.
Pessoas iam e vinham, e muitos iam deixando suas marcas na minha vida. Às vezes alguém se sentava do meu lado, e ficava ali algum tempo, e eram algumas das horas mais felizes naquela estação. Alguns desses me davam algum presente, alguma lembrança, e eu procurava devolver o agrado, agradecido. Ou se não, era a minha vez de dar algo para uma dessas pessoas, que algumas vezes não me deram algo
Então, em algum momento, chegou um trem, ou talvez fosse um navio, um avião, talvez algo dos três, ou mesmo um submarino. De algum modo, eu sabia que era a minha vez de embarcar. Peguei minha sacola, e olhei bem lá dentro. Um livro em inglês, um filme do Felini, um cd do Caetano. Em algum lugar eu sei que devia estar carregando também um relógio, e uma carteira de couro marrom, mas estavam guardados. Na cabeça, muitas lembranças, muitas tristezas, muitos momentos felizes. Ando a passo lento em direção ao trem, e percebo, num misto de curioso e de indiferente, que a estação estava vazia. Entro no vagão do trem, e quão pasmado não fico quando vejo cinco rostos bem conhecidos no mesmo vagão! A tristeza passa, a nostalgia dá um descanso, e começo a perceber que só embarco para depois descer em algum outro lugar.
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