Por Deus, dez anos, ele pensou. Faziam apenas dez anos! Um imenso deserto se estendia à sua frente. Naquela nova mistura, de cerrado, caatinga nova e resquícios, o ex-presidente amargou seu arrependimento. Bastaram apenas dez anos para que um todo restante se juntasse ao nada. Milhares de anos de estabelecimento, crescimento, vida. E em dez, tudo foi destruído. Para limpar a consciência, jogou a culpa para aqueles demagogos que convenceram de que era o melhor, para depois passarem anos em discussões infrutíferas, enquanto todo o mal era feito. O arrependido olhou mais uma vez para os restos daquela antiga explosão de vida, antes de submergir em seus próprios pensamentos.
Faziam dez anos dês da internacionalização. Depois de anos de lobby, aqueles que queriam tirar proveito de tal ação, finalmente convenceram o resto do mundo de que o errado era o melhor a se fazer. Diante da negativa do governo, barreiras comerciais foram armadas, a diplomacia do país foi minada, e sob ameaças de invasão, finalmente o presidente assinou a carta que internacionalizaria a Amazônia.
Mas sua ação em nada o ajudou. A oposição logo atacou com belas palavras a atitude do presidente, como se ele tivesse outra opção, e o povo seguiu o que a televisão ditou: Irados, homens e mulheres, estudantes, operários, servidores públicos, artistas, todos saíram às ruas para pedir a cabeça do homem que cometera a heresia de abdicar a grande floresta brasileira. Houve então o segundo impeachment da história do Brasil: A cassação do presidente quase foi seguida pelo seu assassinato, em incontáveis tentativas, de pessoas completamente diferentes umas das outras.
Logo, um movimento revolucionário se formou: Os Reais Soberanos da Amazônia, formado por um grupo de pessoas dispostos a lutar contra a internacionalização. Anti-heróis exaltados como heróis nacionais pelo povo, assim como os cangaceiros haviam sido um dia, marcharam orgulhosos em direção à grande floresta. Porém o próprio caminho parecia estar contra eles. Madeireiros, mineiros, calor e doenças tropicais rapidamente opuseram-se à sua passagem. Morreram como cachorros, assim como os cangaceiros um dia foram. E o pior: morreram sem saber que nunca lutariam contra ninguém. A internacionalização da floresta, na verdade, constituiu-se na retirada dos exércitos brasileiros, e o fim da responsabilidade do governo brasileiro sobre as matas. Exército algum ali baixou definitivamente para ocupar o lugar, além das forças da ONU que entraram para fiscalizar a desocupação da floresta pelos agora invasores brasileiros.
Bastaram apenas alguns meses, e logo madeireiros, mineiros, traficantes, e todo tipo de vigaristas perceberem e agarrarem a chance do século. E assim começou o fim. O governo brasileiro levaria alguns meses para desocupar por completo a Amazônia. Durante esse tempo, as forças da ONU e o exército brasileiro estariam na região, fiscalizando a desocupação para que nada de errado ocorresse. Mas assim que as forças militares do Brasil estivessem detrás das novas fronteiras, eles estariam livres para fazer o máximo de lucro possível antes que os Estados Unidos e a ONU estabelecessem as leis sobre a área internacional, e criassem um sistema de fiscalização eficiente.
E assim, os primeiros anos internacionais da Amazônia foram marcados pela anarquia. Inicialmente, nem as madeireiras conseguiram ter algum poder. Motins surgiram entre todos os grupos possíveis, e a Amazônia tornou-se o novo caribe dos piratas. Grupos de baderneiros se juntaram em saques pelas cidades de toda a floresta. Então, os moradores das matas logo perceberam que só poderiam sobreviver se fossem iguais àqueles malucos, e passaram a se organizar em milícias para proteger suas casas.
Diante da situação alarmante, cada cidade enviou pedidos de socorro para as antigas capitais, mas estas nada podiam fazer além de repassar a mensagem para seus antigos e novos soberanos: Eram portos seguros pelo seu tamanho, e não possuíam o menor desejo de perder esse status enviando forças policiais ou milícias ao auxílio de cidades menores. As forças da ONU que estavam presentes nas matas logo foram destruídas, ou incorporadas aos grupos de bandidos e saqueadores, que conheciam infinitamente melhor a floresta. Esses grupos, armados com o equipamento internacional, foram se tornando cada vez mais fortes. A situação foi piorando durante dois anos, enquanto o Brasil se recusava a enviar exércitos para a floresta, alegando que fora o único contra a internacionalização. Finalmente, os EUA, sob pressão, enviaram suas forças, que demoraram mais um ano para conseguir diminuir a incidência dos saques.
Durante todo esse tempo, traficantes de todos os cantos estabeleciam-se pela floresta, abrindo gigantescas clareiras na floresta para o cultivo de drogas. Como seu objetivo era plantar sem problemas com a fiscalização, mal se incomodaram com o solo infértil: O adubo era caro, mas valia a pena. O tráfico se fortaleceu, enquanto o número de usuários aumentava por todo o mundo. Drogas de qualidade por um preço tão baixo atiçavam ainda mais a curiosidade de futuros viciados.
No quarto ano, a situação havia melhorado consideravelmente na Amazônia: A anarquia continuava, mas as forças eram agora mais concentradas. Baderneiros se juntaram para enfrentar os exércitos americanos, que os cassavam floresta adentro. As próprias forças armadas americanas tornaram-se o alvo dos bandidos. Enquanto isso, madeireiras e mineradoras, ambas ilegais, aproveitaram para fazer sua entrada triunfal, rumo à segunda fase da destruição. Abriram caminho por entre índios, piratas, e safados que estavam embalando e vendendo a água dos rios, ainda limpos, e fizeram a sua festa. Melhores organizados, equipados e em maior número, atacaram sem piedade qualquer um que entrasse no seu caminho. Moradores da floresta repetiam o gesto de abraçar as árvores, e eram cortados junto a elas, madeiras sangrentas que seriam vendidas por todo o mundo transformadas em cadeiras e mesas.
Logo, os astronautas, também internacionais, na também internacional estação espacial, podiam ver furos sendo feitos na camisa verde que cobria o peito da América do Sul. O exército americano passou a perseguir também as madeireiras, mas enquanto eles interrompiam o trabalho de uma no antigo Acre, uma nova mineradora estava auxiliando outra madeireira a limpar o terreno, no norte de Roraima, para extrair todo ferro, ouro, cobre, ou quaisquer outros minerais que conseguissem encontrar. Em tal confusão, já propícia pelo próprio clima de Brasil na ex região norte do país, grupos de soldados começaram a desertar, juntando-se a madeireiras, bandidos, e traficantes, procurando uma forma mais fácil de ganhar a vida.
E mais três anos se passaram enquanto políticos de todo o mundo discutiam, incessantemente como seriam as leis internacionais da Amazônia. Faziam sete anos dês de que a floresta tornara-se internacional. Aí já não restavam cinqüenta por cento da antiga majestade sul-americana. Militarmente, a Amazônia havia se tornado um segundo Iraque para os norte-americanos. Ou talvez um segundo Vietnam. A pressão em todo o mundo crescia, junto com todos os problemas globais trazidos pela industrialização excessiva. E foi aí que então o Brasil declara guerra à Amazônia internacional.
Em uma carta ao mundo, o novo presidente brasileiro, reeleito, diz que perante o descaso feito pelo restante do mundo em relação ao antigo território nacional, o Brasil reivindica a posse sobre a sua floresta, que nunca deixou de ser brasileira enquanto internacional. Alarmados, os norte-americanos pressionam a ONU, que liberam uma carta de leis sobre a floresta internacional, junto a um ultimato ao governo brasileiro, proibindo a invasão pelas tropas sul-americanas. Uma guerra sangrenta é travada, com direito a muito napalm, e muita guerrilha, e de forma inexplicável, ambos os exércitos se retiram da floresta, com todas as suas forças esgotadas. A paz é feita, com a Amazônia repartida entre o Brasil e os EUA. O Brasil fica com o terço mais oriental do antigo estado do Amazonas, e tudo o que há a leste, junto ao estado de Rondônia. Os Estados Unidos anexa O restante da floresta, como território nacional norte-americano, na América do Sul. Toda essa guerra dura dois anos, e é necessário mais um ano para o governo e as forças armadas se restabelecerem na nova região norte. Já não restam dez por cento da floresta, nesse estágio. Uma horrível cicatriz marca a face da América do Sul, agora sem sua exuberante cabeleira verde. Melancólico, o cerrado ganha terreno sobre a antiga floresta, que em tão pouco tempo foi destruída quase que por completo. Durante toda a guerra, as madeireiras não cessaram de cortar sua madeira, enquanto os exércitos faziam a sua parte do estrago nas matas.
E hoje, no final desses dez anos, o ex-presidente olha uma última vez, todo aquele estrago. Uma gigantesca floresta reduzida a nada, em tão pouco tempo. Um triste fim para milhares de ano de crescimento, milhares de anos de milhares de árvores, vivendo e morrendo, crescendo por centenas de anos, ou por apenas uma dezena. A vida de milhares de animais, hoje mortos, extintos, ou expulsos para outras regiões. Milhares de vidas, e heranças de milhões de vidas, que antecederam aqueles que viviam ali durante esses dez anos. E essas vidas não se restringiam aos animais e as plantas, mas também eram os índios, que por proeza ou por sorte, sobreviveram à invasão anterior, dos ibéricos. Pena a Amazônia ter feito parte do Brasil: País este que foi criado para ser explorado, e está destinado a ser explorado por quem se dispor, para sempre. País este que como um filho mais velho, maltratado pelos pais, explora e espanca o irmão mais novo, que nada tem a ver com isso. Esse irmão mais novo que já foi o índio, esse irmão mais novo que já foi o escravo negro, esse irmão mais novo que já foi a mata atlântica. Esse irmão mais novo que hoje é o pobre, o analfabeto, aquele que, por ser menos favorecido, não pode também roubar e explorar, como todo bom brasileiro faz, e é explorado, como todo bom brasileiro é.
Pensando em tudo isso, o ex-presidente lamenta o dia em que assinou a carta da internacionalização. Triste, caminha de volta para o local onde fora deixado pelo helicóptero. E também pensa se teria sido diferente se não tivesse assinado a maldita carta. Se teria impedido alguma destruição, sendo que teria de haver guerra entre o Brasil e o mundo, pela soberania da floresta. Pensa se ao menos poderia não ter assinado aquela carta, ou se teria sido obrigado por alguém, preocupado com a segurança da nação. Pensa se realmente fora a sua culpa. Com uma melancolia crônica, entra no helicóptero. Olha para trás, como se desse adeus à antiga localização da floresta. Enquanto a máquina sai do solo, uma lágrima cai dos olhos do infeliz, talvez apenas pela força da gravidade.