E por que a preocupação? Você está muito bem. Às vezes, eu queria até não estar tão bem. Queria ter algo sério de verdade para me tirar o sono, problemas reais. Pois os problemas trazem à tona um dos mais primordiais extintos do homem: O de resolvê-los. A minha geração sofre desse mal. Se preocupa com pouco, como se fosse um desastre. Às vezes desejo que aconteça mesmo um desastre pra quem pede, para verem que não têm problemas. Às vezes eu desejo mesmo que aconteça um desastre, comigo. Me faria parar de me preocupar com pouco. Mas esse é o mal da minha geração, não é? Ou será da minha idade?
Sofremos mesmo sem ter nada sério para se preocupar. E esse é o maior problema. Não é sofrer à toa, pois o sofrimento pode ser bom. Mas a ausência de problemas! Se tivéssemos problemas reais deixaríamos dessa mania hiperbólica. E além do mais, os problemas trazem lições, são aprendizados. Nos fazem pensar, refletir, nos fazem capazes de assimilar mais da complexidade da vida.
Andando nas ruas, sinto minhas costas fracas, me causando uma sensação incômoda, fazendo com que eu me curve. Como se carregasse um grande peso, uma grande angústia. O peso do vento. Pois não há sofrimento algum para gerar essa angústia. Muito pelo contrário, a vida me vem sendo leviana! Eu sofro da privação de sofrimento. Sou impedido de desfrutar do luxo de sofrer, de ter problemas, de ter algo que me leve a meus limites, me teste. Sou impedido de ter algo que me dê impulso, algo para me compelir para frente, para me inspirar através de uma grande dor... Vivo essa frustração, de ser obrigado a ser medíocre. A ser pouco, a ser pequeno. Não tenho contra o que lutar, para quem perder. Ou algum líder para seguir, razão para me sacrificar, utopia para me inspirar. Ideal para seguir. Dostoievski disse que “Para se escrever bem, é preciso sofrer, sofrer”. E de que sofro eu?
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