- Pois é doutor, tudo começou com um espirro. Eu tava lá em casa, há uns dois anos atrás. Um amigo meu tinha passado a semana por lá, bem doente, e eu tinha começado a gripar. Era uma tosseira, um tal de espirra pra cá, espirra pra lá, e aquela dor no corpo, aquela chatisse que o senhor conhece.
- Sim, sim, compreendo. Continue.
- Bem, o grande problema foi quando a tosse começou a piorar. A garganta foi ficando sensível, e com aquele clima seco de Brasília, só piora tudo. Mas o problema todo começou numa bobagem muito maior.
“Eu tenho esse... esse costume, esse problema, sei lá, essa coisa de pensar demais
- Tudo bem, mas continue com o seu problema.
- Ah! Então. Eu num consigo controlar esses meus pensamentos, sabe? E aí, há dois anos atrás, quando eu tava doente lá, a minha tosse começou a piorar.
“E aí eu tava lá em casa, muito feliz da vida, sem noção alguma de que eu num tinha nenhum problema de verdade, sabe? Reclamando, de barriga cheia, da vida. E aí o negócio é que começou a dar aquela coisa chata da tosse sabe, começa com aquela coisa esquisita na garganta, e aí vem uma coceirinha que você sabe que vai tossir. E aí eu dei aquela puxada de ar pra garganta, pra deixar ela mais sensível ainda, com aquela certeza de que eu ia tossir, e aí eu espirrei. Sei lá, eu não tossi! Eu tinha certeza de que ia tossir, eu tinha forçado a tosse, feito de tudo pra tossir, só que não tossi! Eu espirrei, do nada, de repente, na hora que eu queria tossir. E aí que começou isso tudo.”
- E como que essa sua... Tosse-espirro pode ter gerado a sua insegurança?
- Ah doutor. É que sabe, é aquilo que eu te falei. Eu sou muito filósofo. E aí começou desse jeito. Eu ia tossir, e espirrei. E aí foi assim pra sempre. Eu nunca mais consegui saber se eu ia espirrar, ou se eu ia tossir.
“Vinha aquela vontade de espirrar, aquela coisa até gostosa, que agente perde o controle do rosto, da respiração, e em vez de espirrar eu tossia. E aí coçava a garganta, e eu espirrava. Ou se não, vinha um acesso de tosse, que eu espirrava, tossia, e aí tossia de novo, e vinha outro espirro, e eu num entendia mais nada. E quando num era assim, eu espirrava e tossia ao mesmo tempo. E aí eu fui ficando cada vez mais desesperado, e paranóico, e eu num conseguia saber quando que eu espirrava, quando que eu tossia, e aí quando tinha alguém por perto eu ficava até com vergonha da cara que eu fazia quando vinha vontade de espirrar, ou de tossir, eu sei lá doutor, eu comecei a pensar, se eu num consigo controlar nem se eu tusso ou se eu espirro, como que eu vou controlar alguma coisa?! Se eu num consigo nem ter certeza de como que o meu corpo vai reagir, que certeza eu posso ter? E aí começou a bater uma depressão, comecei a me sentir tão inútil... Fui ficando inseguro, e aí eu num sabia mais o que fazer.”
- E você tentou perder essa insegurança, de algum jeito?
- Ah doutor, eu tentei de tudo. Mas num dava, num dava mesmo. Eu precisava ter certeza de alguma coisa, precisava controlar alguma coisa, e num dá pra ter certeza de nada se nem disso eu tenho, nem controlar nada se eu num consigo controlar nem a mim mesmo. Aí eu comecei a tentar curar essa tosse-espirro. Mas o problema é que num é igual uma doença sabe, que você cura usando remédio pra parar. O negócio é que sempre que eu ia tossir ou espirrar, saia os dois, ou saía trocado, ou se não saía certo.
- Bem. Nada no mundo é certo, você sabe. Você tem é que aprender a não precisar de uma certeza no mundo, pois elas não existem. O mesmo se dá a essa sua necessidade de controle. O que eu digo para você é...
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