terça-feira, 26 de junho de 2007

Quando o mundo caiu

Sentado, melancólico com a nova realidade, já tão velha, fitava o mar, lá em cima. Antes um ávido praticante da arte de caminhar, assim passava a maior parte de seus dias. Não se conformava em viver naqueles malditos suportes para samambaias, com sem poder ver o céu, ou sentir o Sol sobre a sua cabeça, pelo menos não tranquilamente e sentado em algum lugar, como antes se fazia. Gostava de andar pela cidade, ou melhor, pelas cidades, apreciar o horizonte, olhar para o céu, e duvidar de que aquilo tudo realmente existe. E agora, privado de tudo isso por uma loucura das leis universais, passava o dia sentado, pensando no passado, bebendo.

Vez ou outra, tentavam falar com aquele que antes fora um dos mais promissores pensadores de seu tempo. Conscientes de que o Fato mudou irremediavelmente a face do mundo, e de todos que viviam nele, nem insistiam: Ele não foi o único que entrou em depressão, ou enlouqueceu depois daquele desastre. Na verdade, uma maioria dos sobreviventes tornou-se insana.

Porém, quando os aspirantes a ouvintes tinham grande sorte, uma feliz pequena gota de água se desprendia, e caía bem em sua testa. Por algum motivo, isso sempre o acordava de sua depressão. Talvez porque isso o lembrava da chuva. Talvez não. E então, uma disposição impossível o acometia, e ele passava a responder a todos. Mas infelizmente, só falava do passado.

Geralmente, então, pediam-no que falasse do dia em que tudo ocorreu. E ele contava o que aconteceu, como se nenhum deles houvesse passado por tudo aquilo.

Ele estava andando pela rua, há trinta anos atrás, em seus vinte e poucos anos, quando tudo ocorreu. Na época, cursava física e filosofia. Havia passado entre os cinco primeiros para ambos os cursos. Em sua juventude, já era considerado um dos maiores pensadores vivos, e aclamado por suas teorias, filosóficas e físicas. E é claro que como qualquer outro físico, nunca mais tocou em qualquer assunto relacionado à área depois do ocorrido.

Estava andando tranquilamente pelo eixo W, em Brasília, na altura da 109, quando começou a ouvir gritos de espanto por todos os lados. Olhou em volta, e todos estavam parando de fazer o que quer que estivessem fazendo, e olhando na direção do lago Paranoá. Divertido, virou-se calmamente, com ar de superioridade, típico de um jovem bem sucedido, e foi punido pela realidade, ao ser obrigado a espantar-se como qualquer outro: Uma cachoeira havia aparecido no lago. Mas se fosse só isso, teria sido apenas curioso. A cachoeira estava saindo do lago. Subindo, em direção ao céu profundo e azul, azul como só acontece em Brasília, e se perdendo, quando os olhos já não alcançam o trajeto da cachoeira.

Ingenuamente, como todos os outros, começou então a descer em direção ao lago, abismado, com uma expressão idiota, quase infantil, no rosto. Entrou na passagem correndo, passou por baixo do eixão, correu feliz da vida para fora, entrando na 209. E foi ali que o seu espanto tornou-se desespero. Ele olhava fixamente a enorme cachoeira que saía do lago, que por algum motivo, começara a afinar, quando percebeu alguma coisa subindo, passando entre sua visão e a cachoeira, porém distante. Parou, curioso, enquanto aquelas essa “coisinha” subia, e percebeu muitas outras subindo. Eram carros.

Desesperado, olhou para frente, e, ouvindo gritos de desespero, viu uma multidão vindo da direção das quatrocentos. De forma perceptível, semelhante ao inicio da chuva, as pessoas começavam a subir, numa velocidade acentuada, e essa estranha onda vinha chegando perto de onde ele estava. Pensou então em correr, mas sua reflexão rápida o convenceu a correr na direção oposta. Correu em direção à quadra, entrando embaixo da segurança de um bloco, o primeiro suporte de samambaia que possuiu. Ali, esperou.

De súbito, ele sentiu. E foi a mais estranha sensação que já sentira. Alguns psicanalistas de hoje em dia julgam que foi por essa sensação que a maioria daqueles que enlouqueceram perdeu a sanidade. Não era como se estivessem te puxando para cima, ou como se você perdesse o suporte que te prendesse ao chão. O mundo estava virando de cabeça para baixo, literalmente. Ele sentiu que estava caindo, e tentou se segurar num banco que estava perto, mas não teve tempo. Caiu no teto do térreo do prédio, e levantou-se a tempo de ouvir o estrondo dos elevadores caindo e se espatifando contra as suas casas de máquina.

Confuso, ficou ali, tentando entender o que aconteceu, o que poderia fazer, qualquer coisa do tipo. Procurou o porteiro do prédio, ou qualquer outra pessoa, mas não havia ninguém – deviam ter corrido em direção à cachoeira, ou fugindo dela, como todos os outros. Ficou, então, sozinho embaixo – ou em cima – do prédio, até conseguir subir as paredes da portaria, auxiliado por pessoas que conseguiram fazer o caminho inverso, subindo pelas rampas dos tetos das escadas, durante um longo tempo.

De algum modo, alguém conseguiu fazer funcionar um helicóptero, e acabou não sendo o único, e assim começou a adaptação à nova realidade, com as pessoas buscando recriar a normalidade. Com o passar dos anos, os poucos sobreviventes foram encontrando-se, e reunindo-se em várias pequenas comunidades, já que era quase impossível cobrir grandes distâncias. Em dez anos, alguma normalidade havia ocupado o espaço do caos depois de que o mundo virou de cabeça pra baixo, e depois de vinte anos, as primeiras cidades samambaias começaram a se formar.

Pessoas começaram a concertar aviões que se espatifaram contra o teto de seus próprios hangares, e em pouco tempo, havia aviões reunindo as pessoas nessas cidades, tão esquisitas, sobre suportes presos ao chão por cabos de aço. A vida continuou, e há hoje pessoas que nem mesmo viveram o mundo como ele era, e de forma irônica, há já algumas crianças que não acreditam que o mundo algum dia teve um solo firme, no qual você podia andar o quanto quisesse. E isso tudo deprime o “professor”, aquele jovem que um dia gostou tanto de caminhar, e observar o mar.

Por algum motivo, o mar foi a única coisa que se manteve no lugar de sempre, em vez de cair, e por isso, o grande pensador de tempos passados agora o odiava. Passava o dia inteiro ali, sentado na sua cadeira, ao ar livre, olhando para o mar, desafiando-o a cair, se perguntando como que tudo aquilo aconteceu, e odiando cada vez mais o mar.

Raramente, levanta, e caminha até o parapeito da plataforma, e fica lá durante horas, olhando o cristo redentor, de cabeça para baixo. Por algum motivo, escolheram o Rio para ser o suporte para a cidade samambaia do Brasil. Estava lá, flutuando, em toda a sua majestade, iluminada pelo holofote solar, longe abaixo. Desafiava os céus e suas profundezas, como antes o fazia invejar a sua beleza terrena. E uma única coisa não mudou: Continuava sendo a cidade maravilhosa.

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