quarta-feira, 31 de outubro de 2007

um paradoxo

esse jeito de olhar
confunde-me:
por que quanto mais longe é menor,
se quanto mais se afasta é maior o que sinto?

a ilusão de óptica é tão certa
quanto os olhos fechados e o coração sentindo.

meu grito virou eco
sem sequer repetir uma só palavra,
porque à cada som perde o significado
e sobe um tom.

o olhar e o grito que lancei
se eternizaram
no limite de um horizonte
no vácuo de um prelúdio.

não me olhe de perto
e nem fale comigo.
se é que quer me entender.


De uma variação do Eu, o ego cruelmente lindo e imponente; Tássia, Tássinha, Tássião.

*O título dado não é o verdadeiro título do poema.

O rapaz da reprise do amor

Um dia, andando por uma rua qualquer, um homem que não amava a ninguém derrubou uma moeda. Estava chovendo, e a moeda de algum modo se equilibrou em cima de uma gota de chuva, que parou no ar. De algum modo, não achou estranho. Pegou a moeda, e assim, tornou-se Deus. Rapidamente, tornou-se onipotente, onisciente e onipresente. Ganhou conhecimento de tudo e todos que havia no mundo, e no universo. De algum modo que não saberia explicar antes, podia ver tudo e todos, ao mesmo tempo, em todas as direções. Sabia curar a AIDS e o Câncer, sabia qual o número que sairia na próxima mega-sena, e também se existia vida fora da Terra. Mas nada disso o impressionou, ou chamou a sua atenção. Pois sabia de todos, e o que todos faziam, o que fariam, e o que fizeram. Percebeu então um homem, um adolescente, que possuía o estranho poder de escolher o tempo no qual vivia, porém não podia modificar o passado. Viu então que aquele homem sempre escolhia voltar para aquele mesmo mês de maio, chegando sempre ao mesmo ponto, e voltando sempre ao mesmo mês.

O homem que não amava ninguém resolveu então conversar com aquele garoto. Em sua onipresença, fez seu corpo materializar-se no lugar onde o rapaz vivia, e foi até ele. Questionou-o então, sobre o porquê de fazer aquilo sempre, e o garoto respondeu que vivia sempre uma fase de sua vida, sempre junto à sua amada. Disse que as coisas se enrolavam mais para frente, e chegando a um ponto onde tinha dúvidas demais sobre o amor que ela tinha por ele, ele resolvia voltar para o início, e viver tudo outra vez. “E você vive sempre o mesmo tempo, mesmo sem poder concertar os seus erros? Não te dói cometer sempre os mesmos?” perguntou ao rapaz. Este respondeu “Bem, pra falar a verdade, nem sempre volto para aquela mesma noite em que a conheci, daquela maneira tão inesperada. Às vezes volto repetidamente para a mesma noite de amor, nunca deixando-a terminar. Assisto o mesmo filme junto a ela repetidamente, escuto a mesma música. E sobre os erros, não me arrependo de nenhum deles. Portanto, dói sim, repeti-los, mas assim quero que seja, já que não posso concertá-los”. Abismado com a resposta do rapaz, o novo Deus pergunta, então “E você nunca teve curiosidade de saber o que acontece depois? Afinal, você não tem certeza sobre tudo”. “Bem, curiosidade já tive. Mas tenho muito medo do que ela faria, afinal. Prefiro viver essa angústia eternamente, sem saber qual a resposta dela, e amá-la repetidamente, o mesmo tempo, do que ter que encarar a possibilidade dela não me amar, e depois viver eternamente voltando e amando-a com o desgosto de saber que ela uma hora não terá esse mesmo amor por mim”.

Tocado, o homem que nunca amou deixou o rapaz, e seu amor angustiado, em sua eternidade. Percebeu então, que não tinha capacidade de amar alguém, e que nunca amara ninguém, e nem sabia o que era amor. Resolveu então mudar isso. Juntou tudo o que sabia sobre amor, e tudo o que imaginava, e como imaginava ser o amor, e resolveu mostrar para eles. Voltou no tempo, para tempos imemoriáveis, e resolveu criar o amor transcendental. Criou seu próprio amor, e resolveu que amaria todo um povo. Encontrou um patriarca, um tal de Abraão, e começou:




quarta feira, 1 de Agosto de 2007.

Criança

Acordei, mas não me lembrava de nada. Um nada absoluto, um vazio gigantesco, do qual estranhamente tenho conhecimento o suficiente para ter noção de seu tamanho. Era um vazio estranho, meio ameaçador, e quis sentir medo; Não sabia como. Juntei muita coragem, e abri os olhos, sem lembrar como se faz para ver. Não podia dizer quem eu era, quem eram as pessoas que eu amava, o meu timbre de violão favorito, que tipo de delírios eu já vivi, que perdas eu havia sofrido, o nome daqueles que eram eu. Mas estava calmo, enervantemente calmo: Não sabia me desesperar.

Como não lembrava do tempo, não sei dizer se foram anos, segundos, milênios ou punhados de areia que se passaram, e aos poucos comecei a perceber que à minha frente, acontecia algo. Havia coisas. E coisas fazem barulhos. Barulhos melódicos fazem música, som. E o primeiro som que eu ouvi foi água. E de repente, eu vi, vi tudo. A cachoeira à minha frente, as montanhas estranhas, que não sabia dizer se eram como gregas, siberianas ou canadenses, os lagos da Terra, as crateras da lua, o sorriso. Vi alguma espécie de coisa viva. Um ser esquisito, que anda e pensa. Era o dono do sorriso. E era a coisa mais bonita que existia no mundo inteiro. Brilhantes, abertos e perfeitos, eram aqueles dentes, numa boca igualmente linda, grande, saudável. Perdi meus olhos ali.

Imerso, lembrei de tudo. Lembrei das meninas que eu amaria, dos gramados secos que pisaria, do cheiro nauseabundo que encontraria nos subterrâneos, da cara redonda e insana do Patropic, do dia mais doce do ano, da menina mais doce da Terra, da menina, outra, mais insana e poderosa que eu conheceria. Lembrei da minha infância, onde conheceria meus dois irmãos, do parquinho de areia, da infame queimada que abriria minha testa, da família que viria a constituir. Lembrei do cheiro do ar do Rio de Janeiro, lembrei do gosto da boca de São Paulo, do fogo das mulheres de Brasília. Lembrei do cheiro verde nas praças, dos banheiros dos bares. Lembrei do fogo. O fogo borbulhante do Sol, que engoliria toda a Terra. O fogo fátuo dos mortos, que guardaria a eternidade do meu avô. O fogo azul dos gregos, que continuaria queimando até quando mergulhado em água. O fogo risonho, que aqueceria festas e piraria insanos.

Lembrei de tudo isso, tudo aquilo que eu não viveria. Lembrei também onde estava, de onde havia vindo, quem era, qual o sentido de tudo isso. Estava num lugar diferente, onde viviam todos os que nunca nasceriam. Havia vindo da minha própria imaginação, e sabia que se nunca viveria tudo aquilo, era por minha causa, e de mais ninguém. Sorri, por nunca ter de sofrer tanto. Sorri, por nunca conhecer a amizade. Sorri, por nunca ter de viver amores. Sorri, de nunca ter de perdê-los.




terça feira, 30 de Outubro de 2007.