quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O rapaz da reprise do amor

Um dia, andando por uma rua qualquer, um homem que não amava a ninguém derrubou uma moeda. Estava chovendo, e a moeda de algum modo se equilibrou em cima de uma gota de chuva, que parou no ar. De algum modo, não achou estranho. Pegou a moeda, e assim, tornou-se Deus. Rapidamente, tornou-se onipotente, onisciente e onipresente. Ganhou conhecimento de tudo e todos que havia no mundo, e no universo. De algum modo que não saberia explicar antes, podia ver tudo e todos, ao mesmo tempo, em todas as direções. Sabia curar a AIDS e o Câncer, sabia qual o número que sairia na próxima mega-sena, e também se existia vida fora da Terra. Mas nada disso o impressionou, ou chamou a sua atenção. Pois sabia de todos, e o que todos faziam, o que fariam, e o que fizeram. Percebeu então um homem, um adolescente, que possuía o estranho poder de escolher o tempo no qual vivia, porém não podia modificar o passado. Viu então que aquele homem sempre escolhia voltar para aquele mesmo mês de maio, chegando sempre ao mesmo ponto, e voltando sempre ao mesmo mês.

O homem que não amava ninguém resolveu então conversar com aquele garoto. Em sua onipresença, fez seu corpo materializar-se no lugar onde o rapaz vivia, e foi até ele. Questionou-o então, sobre o porquê de fazer aquilo sempre, e o garoto respondeu que vivia sempre uma fase de sua vida, sempre junto à sua amada. Disse que as coisas se enrolavam mais para frente, e chegando a um ponto onde tinha dúvidas demais sobre o amor que ela tinha por ele, ele resolvia voltar para o início, e viver tudo outra vez. “E você vive sempre o mesmo tempo, mesmo sem poder concertar os seus erros? Não te dói cometer sempre os mesmos?” perguntou ao rapaz. Este respondeu “Bem, pra falar a verdade, nem sempre volto para aquela mesma noite em que a conheci, daquela maneira tão inesperada. Às vezes volto repetidamente para a mesma noite de amor, nunca deixando-a terminar. Assisto o mesmo filme junto a ela repetidamente, escuto a mesma música. E sobre os erros, não me arrependo de nenhum deles. Portanto, dói sim, repeti-los, mas assim quero que seja, já que não posso concertá-los”. Abismado com a resposta do rapaz, o novo Deus pergunta, então “E você nunca teve curiosidade de saber o que acontece depois? Afinal, você não tem certeza sobre tudo”. “Bem, curiosidade já tive. Mas tenho muito medo do que ela faria, afinal. Prefiro viver essa angústia eternamente, sem saber qual a resposta dela, e amá-la repetidamente, o mesmo tempo, do que ter que encarar a possibilidade dela não me amar, e depois viver eternamente voltando e amando-a com o desgosto de saber que ela uma hora não terá esse mesmo amor por mim”.

Tocado, o homem que nunca amou deixou o rapaz, e seu amor angustiado, em sua eternidade. Percebeu então, que não tinha capacidade de amar alguém, e que nunca amara ninguém, e nem sabia o que era amor. Resolveu então mudar isso. Juntou tudo o que sabia sobre amor, e tudo o que imaginava, e como imaginava ser o amor, e resolveu mostrar para eles. Voltou no tempo, para tempos imemoriáveis, e resolveu criar o amor transcendental. Criou seu próprio amor, e resolveu que amaria todo um povo. Encontrou um patriarca, um tal de Abraão, e começou:




quarta feira, 1 de Agosto de 2007.

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