quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Criança

Acordei, mas não me lembrava de nada. Um nada absoluto, um vazio gigantesco, do qual estranhamente tenho conhecimento o suficiente para ter noção de seu tamanho. Era um vazio estranho, meio ameaçador, e quis sentir medo; Não sabia como. Juntei muita coragem, e abri os olhos, sem lembrar como se faz para ver. Não podia dizer quem eu era, quem eram as pessoas que eu amava, o meu timbre de violão favorito, que tipo de delírios eu já vivi, que perdas eu havia sofrido, o nome daqueles que eram eu. Mas estava calmo, enervantemente calmo: Não sabia me desesperar.

Como não lembrava do tempo, não sei dizer se foram anos, segundos, milênios ou punhados de areia que se passaram, e aos poucos comecei a perceber que à minha frente, acontecia algo. Havia coisas. E coisas fazem barulhos. Barulhos melódicos fazem música, som. E o primeiro som que eu ouvi foi água. E de repente, eu vi, vi tudo. A cachoeira à minha frente, as montanhas estranhas, que não sabia dizer se eram como gregas, siberianas ou canadenses, os lagos da Terra, as crateras da lua, o sorriso. Vi alguma espécie de coisa viva. Um ser esquisito, que anda e pensa. Era o dono do sorriso. E era a coisa mais bonita que existia no mundo inteiro. Brilhantes, abertos e perfeitos, eram aqueles dentes, numa boca igualmente linda, grande, saudável. Perdi meus olhos ali.

Imerso, lembrei de tudo. Lembrei das meninas que eu amaria, dos gramados secos que pisaria, do cheiro nauseabundo que encontraria nos subterrâneos, da cara redonda e insana do Patropic, do dia mais doce do ano, da menina mais doce da Terra, da menina, outra, mais insana e poderosa que eu conheceria. Lembrei da minha infância, onde conheceria meus dois irmãos, do parquinho de areia, da infame queimada que abriria minha testa, da família que viria a constituir. Lembrei do cheiro do ar do Rio de Janeiro, lembrei do gosto da boca de São Paulo, do fogo das mulheres de Brasília. Lembrei do cheiro verde nas praças, dos banheiros dos bares. Lembrei do fogo. O fogo borbulhante do Sol, que engoliria toda a Terra. O fogo fátuo dos mortos, que guardaria a eternidade do meu avô. O fogo azul dos gregos, que continuaria queimando até quando mergulhado em água. O fogo risonho, que aqueceria festas e piraria insanos.

Lembrei de tudo isso, tudo aquilo que eu não viveria. Lembrei também onde estava, de onde havia vindo, quem era, qual o sentido de tudo isso. Estava num lugar diferente, onde viviam todos os que nunca nasceriam. Havia vindo da minha própria imaginação, e sabia que se nunca viveria tudo aquilo, era por minha causa, e de mais ninguém. Sorri, por nunca ter de sofrer tanto. Sorri, por nunca conhecer a amizade. Sorri, por nunca ter de viver amores. Sorri, de nunca ter de perdê-los.




terça feira, 30 de Outubro de 2007.

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