quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Da arte de conhecer pessoas

Mato meu tédio, ou melhor, o proíbo de existir, através do conhecimento de novas pessoas, pessoas diferentes, complexas, interessantes, problemáticas, ou até mesmo, pessoas simples e comuns. Não sofro do advento do tédio pelo simples motivo de que sou um apaixonado pelas artes, e pelos seres humanos, e enquanto elas expandem os meus horizontes e as minhas idéias, sempre ampliando a minha curiosidade e a minha ânsia em ir mais longe, tornando minha vida e cabeça maiores e mais ricas, eles preenchem todo esse espaço novo, com todas as suas idéias, vivências, curiosidades e excentricidades. Com todas as meninas com quem me relacionei, aprendi e cresci consideravelmente, e tenho plena consciência de que sempre será assim, pela minha escolha natural de apenas me relacionar com meninas que me interessam de uma forma especial.

Não digo que independe da pessoa em questão, que qualquer uma me interessaria da mesma forma que aquelas que cruzaram minha vida me interessaram, cada uma a seu tempo e modo; Tanto pois nunca teria vivido com algumas, no tempo que fosse, o que vivi com outras, em um curto tempo, em se tratando de riqueza de vida, emoções, crescimento, aquisição de conhecimentos, maturação. Não digo que qualquer menina teria o poder de fazer-me apaixonar por ela, ou qualquer menina me proporciona o mesmo prazer e vivência, em se tratando de crescimento e vida. Porém, digo que toda menina que passar por minha vida vai me dar esse prazer de me ensinar todo um livro, todo um método próprio sobre a própria vida, e que cada um desses “livros” me ensinará muitíssimas coisas, me impressionará pelo imprevisto, pelo inesperado, de formas felizes e tristes; Pois também, raras são as vezes que você poderá prever uma derrocada, ou algo do tipo, vindo de uma pessoa que se torne muito especial para você.

É claro que algumas pessoas que cruzam a sua vida, por serem maiores ou mais ricas em algum aspecto, em alguma qualidade, poderá te proporcionar uma experiência, momentos, uma vida, muito mais interessantes do que outras, em diversos momentos. Algumas pessoas são mais cultas que outras, mais divertidas que outras, mais problemáticas que outras, mais complexas, abertas, obtusas, fechadas, e por aí vai. O conjunto de todas essas características, do passado, da psicologia, das memórias e do próprio caráter da pessoa, será o fator determinante para isso, e uma pessoa poderá ser muito interessante para um, e absolutamente sem graça para outro, mas sempre poderá impressionar por alguma coisa; O passado e a história nos constroem, erguendo nossas fundações, que se escondem por debaixo das cidades. E escavando cidades modernas, muitas vezes podemos achar fundações impensáveis, datadas de séculos esquecidos pelo tempo. Todas as pessoas, algumas mais interessantes, outras menos; algumas que se tornam amigos, outras, amantes. Todos já são suficientes para qualquer um, pelo simples fato de serem pessoas. Serem diferentes, únicos. Conheci já grandes pessoas, e futuras grandes pessoas. E são as mais complexas. Pessoas cultas, bonitas, com a cabeça aberta; Como também conheci pessoas que sei que serão para sempre pequenas; Algumas, por opção, e aí está a grandeza delas, na simplicidade. Outras, por uma visão muito fechada do que chamamos de “Mundo”. Essas, passarão pela vida sem ninguém nem notar que existiram.

Porém, conhece-las todas é como viajar. Existem lugares magníficos pelo mundo afora. Lugares com histórias maravilhosas, passados grandiosos, e futuros não tão grandiosos assim. Existem lugares ricos, economicamente, ou ricos culturalmente. Lugares que não eram nada no passado, e tem futuros promissores. Lugares novos, cidades que não tem mais de cinqüenta anos, e cidades antiqüíssimas, datadas de milênios. Existem também cidades gigantescas, e cidades minúsculas. E lugares simples e lindíssimos, vazios, sem qualquer tipo de civilização. E também existem desertos, vastos e vazios. E até nesses desertos há segredos magníficos guardados, horas inesquecíveis e acontecimentos únicos. E mesmo quando nem isso há, já vale a viagem, por simplesmente ser um lugar novo, um lugar desconhecido, a ser explorado. Mesmo uma planície descampada, mesmo os lugares de puro vácuo do espaço, ou então, uma metrópole global, como São Paulo. Cada uma com seus segredos, seus esplendores, suas curiosidades, e histórias. Essas pessoas, mesmo aquelas com quem não me envolvo tanto a ponto de mergulhar em seu “ser” a essa profundidade, preenchem todo o vazio da minha alma. Algumas mais, como ela, e algumas menos, como muitos que cruzaram meu caminho. E pra todo o espaço que sobra, a própria arte e os sentimentos, em seu projeto de expansão da minha percepção, ainda tem o poder de transformar energia em massa, e preencher todo esse vácuo. Mesmo que seja de tristezas, melancolias, angústias, saudades.

Saudades.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Incômodo Cerebral

Ela não me sai da cabeça. Na sala, deitado no sofá, assisto-o atender o telefonema dela, que é sua amiga. Não consigo me conter, e pergunto a ele como ela está, já que eles mantêm contato. Ela está bem, diz ele. Um pouco de felicidade. O plenário é invadido por uma onda de algo, não sei bem descrever, mas é analgésico, entorpecente, algo parecido com um alívio, creio. Porém, não dura muito tempo. Olho o outro na janela, sempre junto ao violão. Brinca com o meu nome, com uma voz aguda peculiar, que me traz lembranças, dói um pouco, mas uma dor meio masoquista, gostosa, por assim dizer. Abro um meio sorriso, e ouço a música. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio que, por sorte, se assim posso dizer dado o meu estado, não sinto há algum tempo. Apesar de denso, e meio pesado, gosto bastante do livro. Os dois, o homem do rio e o de sobrenome francês, felizes e mexidos por suas experiências de quando eu estava viajando, gritam e fazem alarde. No quarto, dorme o meu irmão. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes ecoam alto no auditório. Sou um só, e preciso me concentrar para entender a confusão de cada voz, apesar de conseguir acompanhar várias ao mesmo tempo, com facilidade. O caos é grande, e preciso me concentrar em um de cada vez para entender ao menos uma. Algumas mais altas que as outras, ouço de um lado lembrarem-me de bons momentos, lembrarem-me dela, lembrarem-me de meses passados, lembrarem-me do outono. Outra grita algo mais alto, e tem sua vez de me falar das idéias revolucionárias, das idéias bulugunzianas, das idéias culturais, musicais, do otimismo e da esperança em relação a isso, em relação até a ela. Mas perante a essa esperança inconveniente, veto sua voz temporariamente, e logo me vem menos otimistas. Um bom e velho saudosismo carrega o tom, das mesmas idéias revolucionárias, das mesmas idéias bulugunzianas, são descrentes, e dizem serem fadadas há um fracasso negro e doloroso. Me lembram dela, e pela dor, também os calo. Vozes nervosas e em caos tomam um tom acusador. Sabem de todos meus lados negativos, todas as minhas características reprováveis, que eu mesmo odeio. Dizem da minha pré-potência, da minha arrogância, da minha insistência exagerada na luta pelos meus desejos e crenças, e aí falam da minha dificuldade para aceitar a opinião dos outros. Me lembram, e também os calo. Em meio a tudo isso, em plano principal tento ler. Leio o livro, interessado, mas sempre perturbado pelos inconvenientes. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando. Enquanto descreve, sonhador, a idéia de um outro plano, olha para fora, pela janela. O Lago Sul faz fundo ao quadro formado pela copa das árvores abaixo, o belo prédio de planta original do projeto piloto, à direita, com a placa azul dizendo “A”. Lembro-me de outro prédio, e a imagem de Paixão emoldurado pelas árvores à norte, atrás das grades da janela, é substituída por uma imagem virtual, e me perco em pensamentos. Labirinto complicado, esse dos pensamentos. Quando fui ver, os três já foram embora. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio esse que não sinto há muito tempo, felizmente. Se puder chamar um mau preenchimento de felicidade. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes clamam forte, ecoam na minha cabeça, em um caos polifônico incompreensível. Algumas mais altas que as outras, as vozes no plenário gritam-me alto, incomodando. Desejo apenas parar de pensar, por um dia sequer. No auditório do congresso, Lembranças, alegrias, idéias novas, otimismos, brigam com o saudosismo, idéias pessimistas, constatações tristes, arrependimentos recentes, arrependimentos antigos. Em posição de centro, encontram-se melancolia e nostalgia. E em destaque, o livro tenta ser lido. O prazer faltou, a raiva e o ódio estão de férias, mas a felicidade e a plenitude também estão. A paixão e o amor, apesar de presentes, estão impedidos de falar muito. O presidente dessa câmara, eu, deseja apenas fugir dali, antes que a casa caia nas mãos dele. E então, em uníssono, todos perguntam “Cadê o rumo?” Espantados, percebem que ele está sumido do plenário, dês do começo de Agosto. Em murmúrios, na velha ladainha política, cochicham, aqui e ali, se deveriam votar em perguntar a ela. Resolvo encerrar o dia, e declaro o adiamento das discussões da câmara cerebral bulhonesca. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando.



De 26 de Agosto. Quem importa sabe do que se trata.