Ela não me sai da cabeça. Na sala, deitado no sofá, assisto-o atender o telefonema dela, que é sua amiga. Não consigo me conter, e pergunto a ele como ela está, já que eles mantêm contato. Ela está bem, diz ele. Um pouco de felicidade. O plenário é invadido por uma onda de algo, não sei bem descrever, mas é analgésico, entorpecente, algo parecido com um alívio, creio. Porém, não dura muito tempo. Olho o outro na janela, sempre junto ao violão. Brinca com o meu nome, com uma voz aguda peculiar, que me traz lembranças, dói um pouco, mas uma dor meio masoquista, gostosa, por assim dizer. Abro um meio sorriso, e ouço a música. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio que, por sorte, se assim posso dizer dado o meu estado, não sinto há algum tempo. Apesar de denso, e meio pesado, gosto bastante do livro. Os dois, o homem do rio e o de sobrenome francês, felizes e mexidos por suas experiências de quando eu estava viajando, gritam e fazem alarde. No quarto, dorme o meu irmão. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes ecoam alto no auditório. Sou um só, e preciso me concentrar para entender a confusão de cada voz, apesar de conseguir acompanhar várias ao mesmo tempo, com facilidade. O caos é grande, e preciso me concentrar em um de cada vez para entender ao menos uma. Algumas mais altas que as outras, ouço de um lado lembrarem-me de bons momentos, lembrarem-me dela, lembrarem-me de meses passados, lembrarem-me do outono. Outra grita algo mais alto, e tem sua vez de me falar das idéias revolucionárias, das idéias bulugunzianas, das idéias culturais, musicais, do otimismo e da esperança em relação a isso, em relação até a ela. Mas perante a essa esperança inconveniente, veto sua voz temporariamente, e logo me vem menos otimistas. Um bom e velho saudosismo carrega o tom, das mesmas idéias revolucionárias, das mesmas idéias bulugunzianas, são descrentes, e dizem serem fadadas há um fracasso negro e doloroso. Me lembram dela, e pela dor, também os calo. Vozes nervosas e em caos tomam um tom acusador. Sabem de todos meus lados negativos, todas as minhas características reprováveis, que eu mesmo odeio. Dizem da minha pré-potência, da minha arrogância, da minha insistência exagerada na luta pelos meus desejos e crenças, e aí falam da minha dificuldade para aceitar a opinião dos outros. Me lembram, e também os calo. Em meio a tudo isso, em plano principal tento ler. Leio o livro, interessado, mas sempre perturbado pelos inconvenientes. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando. Enquanto descreve, sonhador, a idéia de um outro plano, olha para fora, pela janela. O Lago Sul faz fundo ao quadro formado pela copa das árvores abaixo, o belo prédio de planta original do projeto piloto, à direita, com a placa azul dizendo “A”. Lembro-me de outro prédio, e a imagem de Paixão emoldurado pelas árvores à norte, atrás das grades da janela, é substituída por uma imagem virtual, e me perco
De 26 de Agosto. Quem importa sabe do que se trata.
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