quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Incômodo Cerebral

Ela não me sai da cabeça. Na sala, deitado no sofá, assisto-o atender o telefonema dela, que é sua amiga. Não consigo me conter, e pergunto a ele como ela está, já que eles mantêm contato. Ela está bem, diz ele. Um pouco de felicidade. O plenário é invadido por uma onda de algo, não sei bem descrever, mas é analgésico, entorpecente, algo parecido com um alívio, creio. Porém, não dura muito tempo. Olho o outro na janela, sempre junto ao violão. Brinca com o meu nome, com uma voz aguda peculiar, que me traz lembranças, dói um pouco, mas uma dor meio masoquista, gostosa, por assim dizer. Abro um meio sorriso, e ouço a música. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio que, por sorte, se assim posso dizer dado o meu estado, não sinto há algum tempo. Apesar de denso, e meio pesado, gosto bastante do livro. Os dois, o homem do rio e o de sobrenome francês, felizes e mexidos por suas experiências de quando eu estava viajando, gritam e fazem alarde. No quarto, dorme o meu irmão. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes ecoam alto no auditório. Sou um só, e preciso me concentrar para entender a confusão de cada voz, apesar de conseguir acompanhar várias ao mesmo tempo, com facilidade. O caos é grande, e preciso me concentrar em um de cada vez para entender ao menos uma. Algumas mais altas que as outras, ouço de um lado lembrarem-me de bons momentos, lembrarem-me dela, lembrarem-me de meses passados, lembrarem-me do outono. Outra grita algo mais alto, e tem sua vez de me falar das idéias revolucionárias, das idéias bulugunzianas, das idéias culturais, musicais, do otimismo e da esperança em relação a isso, em relação até a ela. Mas perante a essa esperança inconveniente, veto sua voz temporariamente, e logo me vem menos otimistas. Um bom e velho saudosismo carrega o tom, das mesmas idéias revolucionárias, das mesmas idéias bulugunzianas, são descrentes, e dizem serem fadadas há um fracasso negro e doloroso. Me lembram dela, e pela dor, também os calo. Vozes nervosas e em caos tomam um tom acusador. Sabem de todos meus lados negativos, todas as minhas características reprováveis, que eu mesmo odeio. Dizem da minha pré-potência, da minha arrogância, da minha insistência exagerada na luta pelos meus desejos e crenças, e aí falam da minha dificuldade para aceitar a opinião dos outros. Me lembram, e também os calo. Em meio a tudo isso, em plano principal tento ler. Leio o livro, interessado, mas sempre perturbado pelos inconvenientes. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando. Enquanto descreve, sonhador, a idéia de um outro plano, olha para fora, pela janela. O Lago Sul faz fundo ao quadro formado pela copa das árvores abaixo, o belo prédio de planta original do projeto piloto, à direita, com a placa azul dizendo “A”. Lembro-me de outro prédio, e a imagem de Paixão emoldurado pelas árvores à norte, atrás das grades da janela, é substituída por uma imagem virtual, e me perco em pensamentos. Labirinto complicado, esse dos pensamentos. Quando fui ver, os três já foram embora. Meu estômago reclama, me levanto, pego meu livro, vou ao banheiro. O livro é “Filosofia do Tédio”. Tédio esse que não sinto há muito tempo, felizmente. Se puder chamar um mau preenchimento de felicidade. Mas nada disso está na minha cabeça. As vozes clamam forte, ecoam na minha cabeça, em um caos polifônico incompreensível. Algumas mais altas que as outras, as vozes no plenário gritam-me alto, incomodando. Desejo apenas parar de pensar, por um dia sequer. No auditório do congresso, Lembranças, alegrias, idéias novas, otimismos, brigam com o saudosismo, idéias pessimistas, constatações tristes, arrependimentos recentes, arrependimentos antigos. Em posição de centro, encontram-se melancolia e nostalgia. E em destaque, o livro tenta ser lido. O prazer faltou, a raiva e o ódio estão de férias, mas a felicidade e a plenitude também estão. A paixão e o amor, apesar de presentes, estão impedidos de falar muito. O presidente dessa câmara, eu, deseja apenas fugir dali, antes que a casa caia nas mãos dele. E então, em uníssono, todos perguntam “Cadê o rumo?” Espantados, percebem que ele está sumido do plenário, dês do começo de Agosto. Em murmúrios, na velha ladainha política, cochicham, aqui e ali, se deveriam votar em perguntar a ela. Resolvo encerrar o dia, e declaro o adiamento das discussões da câmara cerebral bulhonesca. As vozes do loiro-longo e dos pequenos dreads me fazem resolver dar um tempo da leitura. Saio do banheiro, volto à sala. Conversamos, ouvimos música. O negro acorda, e senta-se no parapeito da janela da sala. Nos conta agora das suas próprias experiências do tempo em que eu estava viajando.



De 26 de Agosto. Quem importa sabe do que se trata.

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