quinta-feira, 26 de julho de 2007

Bolseiro

Afinal, percebo que a sociedade é composta por apenas malditos hobbits! Se o Tolkien algum dia fez alguma coisa realmente brilhante, querendo ou não, para mim foi a maquete da nossa sociedade do Condado. Malditos hobbits que somos! Vivemos sempre em nossas cidadezinhas, em nossos mundinhos internos em nossas cabeças, vivendo sempre regras e condutas da moral local, estabelecidas por milhares de conceitos velhos e ultrapassados, proibindo pessoas que optam por fazer uso de coisas, e escolher atitudes que, se irão prejudicar alguém, não será ninguém além de si mesmos. Somos em geral pessoas fechadas a novas experiências, opiniões diferentes; idéias inovadoras, arrogantes e ousadas nos causam medo, horror; Vimos alguém vestido de forma diferente das usuais castas dos cults, playboys, nerds, roots e “normais”, e já nos botamos a olha-lo feio, como se estivesse errado em alguma coisa. Ouvimos histórias de pessoas fazendo sexo em festas, e achamos um absurdo. Drogas, se não é a que usamos, nem pensar, feio. Excessos de bebidas são condenáveis, micos são arrependíveis, viagens em drogas mais pesadas são dignas de pena. Como ter pena do prazer de alguém?! Se a pena ainda fosse de uma lombra torta de algum louco tomando um docezinho, tudo bem; mas da viagem do cara?

Vivemos então, nesses nossos condados pessoais, dentro de nossas cabeças, até que eles se externem para o mundo. Música, a que me é oferecida, como o restante das artes. Viagens, para os lugares mais aclamados e falados por aí. Pena que muitos desses lugares simplesmente pagam para serem aclamados como são. Logo, cada recanto magnífico do planeta vai se tornando um ponto do turismo de férias de família, quando n ao é simplesmente anexado aos domínios das viagens pseudo-cults.

E nesse meio termo, então, busco eu o sangue de Bolseiro, que sei que está dentro de mim, em algum canto. Essa família incomum de hobbits, mal vista pelo restante da sociedade, acaba quebrando esses paradigmas sociais, se libertando e se pondo a desbravar o mundo, e os mundos das outras pessoas, subvertendo as regras morais do Condado, onde viajar é coisa de gente louca. Busco eu me tornar um desses viajantes, tanto no mundo interno quanto no externo, e nisso, ser mal visto pelos outros até me interessa, pois mostra que estou no caminho certo. As pessoas xingam o que não entendem, o que nunca viram antes, como loucura, ou atitude errada. Busco eu perder o medo de ser feliz em detrimento da aceitação dos outros, cada vez mais, me libertando desses paradigmas musicais, morais, e outros “ais” do tipo, que essa sociedadezinha adora. Tenho muitos exemplos para me inspirar, e um deles muito bem vivo, nas distantes terras de Clóvis.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Vôo 3054

Bola de fogo! Imagine um avião a mais de duzentos quilômetros por hora, atravessando à toda a pista do aeroporto mais movimentado do país. Ele nem freia, nem alça vôo, simplesmente atravessa uma das maiores avenidas da maior capital de estado, e se arremessa contra um prédio. É, aconteceu, semana passada. Me sento na cadeira, na casa dos meus avós, preocupado com meus próprios problemas, meu próprio cansaço. A tevê ta ligada, mas eu não presto atenção. De repente, as cores fortes da tela me chamam a atenção, como que dizendo “importante!”. Um Airbus, gigantinho, da TAM, tinha acabado de bater num prédio, também da TAM. Me deu um arrepio na espinha... Fiquei pensando. Mais de duzentas mortes. Uma queimação de filme do país, da companhia, do aeroporto... até da cidade. E em plenos jogos Pan-americanos. Fiquei pensando, ao mesmo tempo compadecido por aqueles que foram e que ficam, e aliviado, de não conhecer ninguém a bordo do vôo, ou dentro do prédio. Podia ter sido comigo... É o maior aeroporto de escalas do país. Quase todos os vôos para o exterior chegam por ali, saem dali. Vários vôos regionais passam por lá, antes de seguir viagem. Podia ter sido com alguém importante pra mim. Com alguém que passa por lá direto, tantas pessoas. Podia ter sido com a minha mãe. Acho que em todas essas hipóteses, teria preferido se fosse comigo. Nem quero imaginar a dor que os familiares daquele povo todo deve estar sentindo.

E como se não fosse nada, a oposição ao governo usa o acidente de fachada pra fazer campanha contra o governo. E depois o governo Lula é baixo, é filho-da-puta. Usar da dor dos outros pra fazer política é uma coisa muito suja. E como se já não bastasse, ainda tem gente do governo passando vexame, pra dar mais um pouquinho de motivo pra base direitista xingar. Sei lá, eu tenho vergonha é dessa base do país. Acidentes acontecem. Por falhas técnicas, humanas, de gestão, não sei. Se aconteceu, é cuidar pra não acontecer de novo, e fazer de tudo para remediar, ao máximo, o sofrimento e os problemas que eles causam. Agora, se utilizar de uma calamidade dessas para mostrar como o governo é incompetente, vou te contar... Como se teria sido diferente, se fosse o purê de chuchu que tivesse assumido o governo, em vez do Luiz Inácio. É, quero ver qual vai ser a próxima.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Um beijo

Um beijo, boa noite. Um beijo para você. Um beijo para quem fica, um beijo para quem foi, um beijo para quem não volta mais, um beijo. Um beijo pro meu pai, pra minha mãe, e especialmente pra você, xuxa! Um beijo, meu amor. A noite vai longe, já nas suas altas décimas primeiras horas, às cinco da manhã de Brasília. Mas estou no rio. O silêncio baixa como uma melancolia calma, até bonita. Essa tristeza das altas horas da noite, da solidão profunda, onde não há companhia nem das sombras, é até gostosa. Passada a loucura do dia, os altos e baixos de humor, o tédio do clima frio e nublado na cidade de praia, tudo tão próximo até alguns minutos atrás, parece agora distante. O mundo parece tão distante... do mundo! É bom. Deve ser algo como tomar morfina à beira da morte, um último prazer terreno antes de se livrar disso tudo. Até o cansaço parece se cansar de importunar. Fico aqui, ouvindo o que não há para se ouvir. Pensando, ouvindo, questionando o porquê das coisas.
Os minutos parecem não querer mais passar. Agradeço por essa trégua do tempo, paradoxalmente. Há poucos minutos mesmo, queria que esse tempo voasse, e levasse embora os dias tediosos, deixando apenas os dias que realmente podemos aproveitar. O sono vai tomando conta de tudo, e até mesmo a melancolia parece bocejar, e virar para o outro lado, me deixando em paz. É tão estranho viver acordado no tempo de sono do resto do país! É como se você não existisse, como se fosse um fantasma; Pois realmente, você não existe pra todo o resto. E se você não existe pra eles, eles também não existem pra você. E fico sozinho. Acompanhado do som do lápis torturando o papel em branco.
Então, vou dormir; nos braços da insônia, da noite, melancólica por estar chegando o seu fim. Vou dormir, para acordar no meio do sono, entre sonhos e delírios, tantas vezes durante uma mesma noite – ou dia. É, então, vou dormir afinal. Sem escrever nada! Sem falar nada. A noite vai chegando, a angustia e a melancolia continuam, mais baixam o tom, pelo cansaço... Fico como alguém que cansou de lutar contra o cativeiro, depois de tanto bater nas paredes. Um beijo pra você. Um beijo pra Martha também, menina da França. E um beijo para mim, que também preciso, enquanto tudo, enquanto tédio.
Um beijo.

sábado, 14 de julho de 2007

O mundo em minhas mãos.

É impressionante como uma reação sutil pode mudar sua vida. É delicioso ser mal interpretado pelas pessoas. É muito engraçado, como ao parar para fazer algo qualquer, um alguém pode ter um entendimento completamente errado. Você para num canto para criar, e de súbito te entendem como um destruidor, um transgressor, ou algo do tipo. E isso é uma coisa linda! Te da plena consciência de que ao mesmo tempo, todos somos iguais, pois podemos tirar nossas próprias conclusões, e diferentes, pois essas conclusões podem ser absurdamente diversas. Feliz e satisfeito, após resolver problemas e, mais ainda, usufruir da fonte da felicidade, me sento sobre o parapeito de um viaduto, na tesourinha entre a 110 e a 109 sul, para escrever, em paz. Observo, paralisado, admirado, o trânsito passando abaixo. Minha cabeça, apesar de cheia, está vazia, e idéia alguma me vem. Estou em paz.

De repente, passa abaixo um carro, e vejo o passageiro apontar pra mim do meio do engarrafamento. O motorista me pergunta: “Você não vai se suicidar não, né?”. Nego, pasmo com a idéia do cara. Passado o carro, me rio sozinho. Sucídio? Da onde veio essa idéia?! Continuo pensando na vida, divertido. Penso nos meus problemas, nos meus pensamentos, me sinto um bobo da corte. Rio de novo, dessa vez em alto e bom som. Não, amigo, não dessa vez. Não enquanto meu futuro promete o mundo em minhas mãos.



Terça feira - Dia 12 de junho de 2007. Dia dos namorados.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

O Som do Silêncio

Um dia os fantasmas da noite resolveram se revoltar. Como só viviam na noite, estavam cansados da escuridão. Obrigaram, então, o homem a tornar a noite mais clara, para que não tornassem a noite eterna. E então iluminamos a noite. Eu sinto uma paz de espírito fora do comum nessas horas entre a noite e o dia, horas que existem pra tão poucos. Acompanhado pelo sereno, e pelos postes a não iluminar ninguém, fico aqui só ouvindo o silêncio imponente, que ninguém além dos grilos e dos loucos ousa quebrar.

Fico aqui, pensando na minha vida, com uma facilidade que eu não encontro em casa. Ouço a ausência da maré ao longe, ainda tão estranha pra mim, depois desses meses do início do ano, na praia. O caio harmoniza a sinfonia da noite e do silêncio com harmônicas do violão, e eu penso. E aliviado, escrevo. Vejo o motoqueiro do jornal, trazendo as notícias antigas. É tão engraçado pensar que todo dia lemos as novidades quentes do mundo de ontem! Isso só vai reforçando o pensamento de que eu sou mesmo um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. E penso então, num sentido para tudo isso, mais uma vez. Outras dessas vezes me levaram à vestir a calça do pijama para sair, por vontade inocente; Também já acabei dormindo na rua, por isso; Corri feito louco, do nada, com medo de mim mesmo; Concordei com o impossível, e ri na cara da verdade, do real: esses nunca me pareceram absolutos.

O celular toca. É a mãe do Caio, mandando subir. Indiferente, me levanto, e na trilha sonora da minha vida, bem lá no fundo da minha cabeça, toca as músicas que aprendi a ouvir com a menina da França. O som do silêncio toma a dianteira, mas logo me vejo indo atrás de terras entre a praia e a água salgada, em algum lugar de uma certa feira de Scarborough.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Limiar de interpretações

E antes, como se fosse um calouro, sentiu medo. Era um nervosismo forte que se agravava a cada momento, causado pela eminência do momento. Começou a tremer, e seu corpo, mais informado que sua mente, começou a ter pequenos espasmos, movimentos involuntários, que o preocupavam. Suava feito um cachorro, e tinha muito medo e curiosidade, sobre aquela tênue barreira. Medo de se machucar, de machucar aquela coisa linda, medo. Medo do desconhecido.

Pensou se fizera tudo direito, se estava fazendo tudo direito, e os segundos pareciam se arrastar. Lembrou da primeira namorada, das outras que vieram, lembrou dos seus pais, do seu primeiro cachorro. De forma confusa, foi acometido assim, por tantas lembranças estranhas.

Chegando perto do grande momento, começou a pensar se fizera as escolhas certas, se fora o caminho certo que o levara até ali, e seu medo de estar errado em tudo aquilo que acreditava sobre aquele momento, o trouxeram um desespero. Na hora “H”, chegou mesmo a se arrepender. Desejou poder voltar no tempo, poder adiar aquele momento tão importante, agora irreversível. Chegou, inexplicavelmente, a ter medo da morte; E atravessou, como um cavalo, aquele frágil limiar.

E ele era só prazer. E em resposta ao sentimento mórbido, sentiu-se como se nascesse de novo. Sentiu que podia flutuar, e como se não precisasse mais respirar. Com essa barreira quebrada, viu todas as portas se abrirem para ele. Enquanto isso, seus sentido foram se aguçando cada vez mais, e, a cada momento, sentiu-se mais e mais inteligente e poderoso. Percebeu, então, que rumava para a transcendência e sentiu-se feliz, pois fizera a escolha certa. Num ápice, sua alma fundiu-se ao seu corpo, e seu consciente ao seu subconsciente. Seus sonhos se ajoelharam perante o antigo senhor e novo deus, enquanto ele percebeu a vergonha de ter sentido medo daquele paraíso. Em sua onipotência, se perdoou, assim como a todos seus antigos erros.

E no clímax, como deus, sentiu um prazer imenso, inimaginável a qualquer mortal. Tornou-se um com o universo e percebeu que, como deus, era dois, dois extremos do mundo, unidos no impossível. Numa explosão de vida, fragmentou-se, e assim nasceu um novo universo: O seu. Sua alma dividiu-se em três, separada do corpo logo antes da explosão, e um terço foi para não sei onde, enquanto os outros dois pedaços foram impulsionados de volta para a origem. As duas almas, enfim, tomaram rumos diferentes, mas não muito, e ele se viu sozinho.

Perdoado e purificado, renasceu. Acordou em um quarto, nos braços de uma mulher. Se era bebê ou adulto, não sabia. Se aquela mulher era sua mãe ou sua amante, não importava: Já não sabia falar. Estava feliz, como nunca. Já não sabia de mais nada, mas seus resquícios de onisciência lhe diziam. Ela era linda, era a mulher mais linda do mundo.

Um sonho

É engraçado como os sonhos são poderosos. Sei lá, é como se fossem reflexos completos de todo o seu subconsciente, jogando na sua cara todos os seus medos, todos os seus pensamentos profundos, todas as suas maiores viagens. Às vezes eu fico até com medo de sonhar. Porque eu acabo sabendo exatamente o que vem por aí, e sei que a noite vai ser longa, e cansativa.

Quando a sua cabeça quer te fuder, ela simplesmente vai, e te fode. Ela tem todas as informações que você tem, um potencial infinito de criar histórias, e uma oportunidade única de usar isso tudo sem ter você pra mandar na história, sem você obrigando-a a seguir o real, o que você vê do lado de fora. Hoje, por exemplo, eu sonhei que estava lá, dormindo, bem onde eu estava quando dormi. O problema é que eu não estava exatamente dormindo, no sonho, estava meio que sonhando acordado. Sonhar que sonhei acordado foi a pior coisa que me aconteceu nessa semana. Eu não tava conseguia pegar no sono, e ficava meio que bambeando, entre dormindo e acordado. E aí, no meu sonho, eu comecei a ter um pesadelo. E esse pesadelo era como se eu tivesse lembrando de coisas que aconteceram, que não aconteceram, achando que uma coisa iria acontecer, com toda a certeza, sendo que, na verdade, eu não posso ter certeza alguma dela. E pra provar que iria acontecer, a minha cabeça começava a me dar um monte de fatos absurdos, que não aconteceram, mas como era um sonho, eu meio que sabia que eles tinham acontecido, pois na realidade do sonho, eles realmente tinham! O resultado foi uma noite inteira tentando acordar, mas acordando do pesadelo, dentro do meu sonho, sem conseguir acordar direito, e aí, sem conseguir descansar direito, na vida real. E doía. Pra caralho! A pior parte é que vai demorar pra caramba pra eu saber se tinha ou não sentido, aquele pesadelo-sonho. É, essa noite vai ser longa...

domingo, 8 de julho de 2007

FMI

Quando eu penso na FMI, a feira de música independente, que aconteceu aqui em Brasília no começo de maio, eu fico feliz. Feliz por ter conhecido tanta gente, ter visto que Brasília não é composta só por um milhão de imbecis. Feliz por ter conhecido um lado da música que eu não tinha muito contato, e conhecido através disso um monte de banda legal. E feliz por ter conhecido alguém que eu já conhecia. Feliz por, sem nenhuma pretensão inicial, sem nenhum planejamento, ter acontecido tanta coisa, que eu desejo que só continue acontecendo, no segundo semestre. Aprendi muito, espero ter ensinado um pouquinho, Vivi. Tudo por ter decidido ir numa feira de música independente mais uma vez, no encerramento, ao invés de assistir a Fernandinha Abreu, num grande vexame dos organizadores de Brasília, com uma artista nacional.

E por tanta coisa boa, eu acho que podia ter uma FMI todo final de semana. “Ah, ia ser um exagero, e tudo em exagero fica ruim”, você pode dizer. Mas sei lá, eu acho que nesse caso, ia ser bom. Muito bom. Porque música, em exagero, faz mal? Me faz pensar. A música é muito boa! Arte, arte em geral...! A arte é a coisa mais genial que já inventaram! Pra mim, a arte é o único motivo pra gente não ter se matado até hoje. A arte é o que dá vida a vida. É o sopro da alma. Porque a arte é amor transcrito, em palavras, em sons, em cores, é um sentimento. Muitas vezes pode até não ser amor, sendo algum outro sentimento. E às vezes também pode ser raciocinada, calculada, o que é só um sentimento aplicado, acho. Mas o que move o ser humano a fazer a arte é o amor.

Amor. É uma coisa bonita, isso. O amor, do jeito que a gente sente, é o que faz do ser humano, humano. Pra mim, muito mais do que a nossa mente, do que a nossa capacidade de pensar, o nosso amor, humano, imperfeito, pensado, vivendo numa mescla com raciocínio, e outros sentimentos, tão racionais, criando toda essa angústia, essa saudade, esse nosso sentimento de pertencimento, de pertencer a alguém, esse amor é o que nos faz diferentes de simples animais. Que bom.

sábado, 7 de julho de 2007

O Esquecer

“E porque, você que um dia quis marcar a ferro o seu nome na história, você que é um dos últimos a acreditar no amor, você, que desejou ser grande, que se fez presente na alma de toda uma geração, e continuará na alma de tantas, através da sua arte, através da sua força, através da sua história, que você impôs à História; Porque você, que marcou seu nome a fogo no sentido de humanidade, que provou que amor continua existindo, e não esse amor falso que hoje é tão presente no mundo, mas o amor simples, o amor que simplesmente existe, simplesmente é sentido, como algo distante, porém tão presente; Porque você, que se tornou um imortal entre os grandes, tornou-se o alinhamento das artes e das idéias, porque você, que se tornou a História, sendo possuidor do maior segredo, do maior dom da criatividade e do aprendizado, porque você foge de nós? Porque depois de todos os seus grandes feitos, depois de toda a sua criação suprema, depois de toda a sua humanidade transcrita à humanidade, porque você esconde-se de tudo o que conseguiu? Porque foge da sua própria pessoa, da sua própria figura de mestre, da sua própria figura de inspirador? Porque vive em fuga, não reconhecendo o seu próprio destino, a sua própria fortuna? Porque desaparece da frente de todos, e nos priva da sua sabedoria, da sua criação, da sua fertilidade de pensamentos, porque deixa de nos prover com mais de tudo isso, por quê? E porque foge de nós? Nós, que estivemos a seu redor durante toda a sua vida? Que o apoiamos em tudo, que participamos do seu crescimento, que estivemos aqui antes de tudo isso? Porque você me abandona, abandona o meu amor, e o amor de seus melhores amigos, e toda a sua história com eles, com nós? Porque ao invés de apenas viver apenas alheio à sua grandeza, viver em seu esquecimento, como se nunca houvesse se tornado realmente grande, procura também abandonar tudo o que te embasou a ser grande? Até nós, que nunca precisamos de nada disso para te apoiar, para lembrar de você, para viver você, porque até nós você abandonou, e fugiu para esses ermos? Porque você foge até de mim? Eu, que te amei durante todo esse tempo, e me entreguei por completo a você, amando a você, e apenas a você, aprendendo que o amor realmente existe nessa forma absoluta, aprendendo a amar com você? Porque até a mim, que continuei ao seu lado quando o mundo procurou expulsar a todos, porque abandonou até que mais te ama nesse mundo? Porque procura me esquecer? Nos esquecer? A todos nós? Porque busca esquecer o seu passado?”

Ele, então, olhou ao seu redor, de cima daquela colina. Olhou todas aquelas árvores, aquele verde que o circundava, e pensou. Pensou em seu passado, pensou em sua amada, que estava à sua frente. Sentiu os raios solares irradiados à sua pele, chegando em ondas, na velocidade da luz, ininterruptamente, e sentiu-se momentaneamente bem. Esqueceu por um momento toda aquela angústia, trazida pelo mesmo motivo que realmente trouxe aquela por quem sentia amor àquele lugar: Seu presente. Sua grandeza, seu nome, buscado e conseguido de forma tão ingênua. Com um entusiasmo adolescente, buscou dês de sua juventude tornar-se aquele que era hoje, através da sua grande capacidade de pensar, e criar. Escreveu, pintou, esculpiu, discutiu, musicou; Através de todas as artes, inclusive a de pensar, e a de falar, atingiu a redenção. Chegou, em todos esses campos, a um lugar nunca antes visitado; E chegando a este lugar, concluiu que não há arte ou corrente melhor do que outra, apenas grandezas incomparáveis. Porém, com a idade, percebeu então que mais ninguém, em toda a sua geração, e em todas as próximas gerações que ele veria, perceberia isso além dele. Percebeu, então, que o mundo vivia rankings, onde tudo era classificado; que o mundo nunca perceberia que nisso, não há gênios. Há apenas humanidade.

Ouviu, em algum lugar perto, dentro do bosque que descia daquela bonita colina, a água. Algum rio nascia, eternamente, duma cachoeira que descia justo daquele lugar que escolhera subir. Provavelmente, todo aquele bosque só existia por causa desse rio. O bosque dava vida a tantos animais, que se alimentariam de outros animais, e serviriam de alimento a outros animais. E assim a vida seguia simples, com amor. Isso sim é genial, pensou. Pensou, então, em todos aqueles que nunca conhecera, e que o veneram como um deus, ou alguma entidade suprema diferente, um poço de energia. Pensou no absurdo de todas essas pessoas evocando sua memória, eternamente, por causa de um livro, um quadro, uma música. Sentiu náuseas ao imaginar pessoas se referindo a ele com um apelido carinhoso, como se o conhecessem de toda uma vida. Pensou também no orgulho de seus amigos, e daquela que o acompanhava, em encher o peito e dizer que o conhecera, ainda antes de sua grandeza. Hoje não mais compreendia a razão de ser desse orgulho, ou dessa simpatia, ou dessa veneração que havia, e haveria para com ele, só por causa de um amontoado de idéias. Pensou, então, no desespero de todos aqueles ditos gênios da humanidade, que vieram antes dele, aos quais era agora incluso, contra sua própria vontade. Pensou no desespero deles em chegar a este ponto, e descobrir que era uma tarefa impossível, como ensinar um cego a ver. A angústia toda voltou, e apenas o cheiro das flores, que não conhecia, dava algum consolo a ele. Olhou o horizonte e o céu azul, límpido, logo acima. Concluiu então, que fizera a decisão correta; Estava certo.

“Sim, fujo do mundo. Desapareci, não deixei pistas, procurei me transformar em fumaça, sim, fiz tudo isso. Abandonei até mesmo meus melhores amigos, aqueles que estiveram comigo durante todo esse tempo, dês de antes de tudo isso ocorrer. Optei por esquecer que tudo isso ocorreu, mas fugi para cá, para essa colina verde, e não apareci nem mesmo para aqueles que sempre me apoiaram. Abandonei até mesmo você, que me amou, da forma que te ensinei que era possível, e que amei de volta, como amei outras antes, mas de uma forma muito mais simples, absoluta, do que a qualquer outra. Sim, sim, procurei esquecer até mesmo o meu passado. Pois bem: Fugi de tudo aquilo que consegui, mas que quis por ingenuidade. Fugi de uma falsa grandeza, de uma mistificação que criaram em volta de alguém que descobriu que nunca quis nada além de ser feliz, e de criar. Porque criar é a essência da vida. Mas a vida não é eterna, e a criação, como se tornou, é uma maldição. É uma maldição pois é a imortalidade. Procurei esquecer tudo, pois dizem que um demônio não consegue te ver, se você não o olhar de volta. Procurei esquecer, para assim, ser esquecido. Fugi do meu presente, e do meu passado, para não me haver futuro. Um futuro eterno, sendo venerado, como o é Da Vinci, Bach, Cervantes. Tenho pena deles todos: Nunca serão esquecidos. O esquecimento é a maior das dádivas! Ele te permite descansar em paz, eternamente! Sem sua memória ser evocada, e venerada, enfim, você pode ser eterno. Eternamente esquecido, embaixo da terra, em plenitude com o mundo, com a natureza. E isso é o que eu mais desejo. Por isso, hoje fujo de todos aqueles que um dia possam se lembrar de mim, para que talvez assim, me esqueçam. Fujo até mesmo de você, a quem tanto amo. Pois é preferível um pequeno mal à um mal maior. Melhor uma dor que sentirei até morrer, do que uma dor que passarei a sentir a partir daí. Perdão, por te abandonar, peço-te perdão, mil vezes! Mas é preciso. Busquei entrar no inferno, pensando que chegava aos céus; Agora só desejo sair.”

Perplexa, ela o olhou nos olhos, e não viu qualquer sinal de insanidade, que às vezes se fazia presente naquela pessoa. O amor, simples, absoluto, se fez então presente. Ela o beijou na boca, e seu coração e cérebro ordenaram que ela esquecesse quem ele era, ou fora. Olhou então, aquele estranho, e sentiu um amor eterno por ele. Sentiu também seu desejo por paz e, então, o abandonou naquela colina. E todos aqueles que a encontraram a partir daí, também o esqueceram, e tudo o que ele produzira um dia, passou a não fazer sentido. O mundo, gradualmente, passou a esquecer que aquele artista um dia existira. O nome dele deixou de existir, gradualmente. Toda aquela obra, reunida em quadros, livros, músicas, filosofia, peças, tudo aquilo estava ali, reunido, facilmente identificável como algo produzido por uma só pessoa, misteriosa. Ninguém sabia dizer quem era aquele grande gênio, aquele grande produtor, benfeitor à humanidade. E assim, sua memória se fez esquecida, antes mesmo que morresse. Mas na verdade, aqueles que o amaram de verdade nunca o esqueceram. Uma vaga lembrança de uma pessoa, um nome, um grande, continuou eternamente na mente deles. Sua amante, aquela que dele aprendeu a amar simplesmente, sentiu, mais que todos os outros, um amor distante, por uma pessoa muito importante, que sabia quem era, apesar de amá-lo demais para se permitir lembrar. Sentia saudades imensas por essa pessoa, e amargou uma nostalgia melancólica, gostosa, vivendo aquele amor, junto a ele, apesar de separados. E esquecido, ele pôde então, um dia, ter a oportunidade de descansar em paz.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Um caminheiro de ontem no mundo do amanhã

É triste pensar assim, mas alguns sentimentos nunca passam, não importa quanto tempo passe. E geralmente, esses sentimentos são ruins. Eu tenho a impressão que vou carregar um deles por toda a minha vida. Esses sentimentos, que nos machucam, nos deprimem, nos fazem paranóicos, passamos a planejar a nossa vida contra eles, quando na verdade eles estão tão presentes na nossa vida que fazem parte de nosso ser, e qualquer tentativa de lutar contra eles seria como tentar lutar contra si mesmo. O que acontece é, com o tempo, muitos de nós conseguimos conviver com eles, carregá-los, tendo apenas alguns pequenos acessos ocasionalmente. Tornam-se suportáveis, pois nos acostumamos a eles. Matam sonhos nossos, geram frustrações, nos afastam de outras pessoas, nos aproximam de outras, às vezes ruins para nós, torturando nossa existência, até que, na maior das sortes, aprendemos a ignorá-lo, superá-lo, ou coexistir com ele.

Pois bem, tenho um sentimento assim. E esse eu sei que nunca vou superar, nunca vou poder ignorar, e nunca vai morrer. Pois o sentimento que eu tenho está relacionado a mim, e ao mundo, o mundo de hoje, o mundo em que nascemos. Mais especifica-mente, está relacionado ao modo que as pessoas vivem, se comportam, se divertem, se relacionam, ganham a vida.

Eu por exemplo, sempre tive um contato muito intenso com computadores. Dês de pequeno, tinha um computador em casa, e na curiosidade, acabei aprendendo na marra a mexer naquele treco. Mas eu sempre gostei de escrever no papel. Num sei porque, mas eu sempre preferi pegar um lápis, ou uma caneta, e escrever no papel do que no computador. É engraçado, porque isso acontece com muitas coisas da era do terceiro milênio. É uma espécie de sentimento de que eu nasci atrasado, tipo uns vinte, trinta anos. Porque eu tenho essa coisa dentro de mim que me dá vontade de lutar pelos meus ideais, de viver coisas intensas, de que o prazer fácil não tem graça, de que coisas muito superficiais e levianas não me interessam.

A minha geração é uma geração estagnada. Desinteressada por tudo e qualquer coisa, é sério. Pelo menos de uma forma geral. Porque, no ontem, existiam duas formas de lutar por algo que você quer. O primeiro era pegando em armas, indo fazer uma bagunça, uma “revolução” pelos seus direitos. E o outro era pela votação, pela maioria de voto. Eram duas coisas incontestáveis, que todo tirano temia, porque é a força de um povo reunida por uma vontade em comum, e contra o filho-da-puta. E qual não é a minha frustração quando eu vejo um monte de merda acontecendo, um monte de gente “revoltada” contra isso, e ninguém fazendo nada? “em quem você vai votar?”, pergunto. “Ah, em ninguém ainda, num sou obrigado...” A única explicação é esse egoísmo generalizado que vem ganhando cada vez mais lugar no século vinte e um. É moleque demais pra sentir no bolso ainda, ou na pele, então num faz nada pra mudar, enquanto não afeta diretamente.

E o bonito é que isso não se restringe só à luta, ao protesto. As forças da leviandade ganharam a guerra. O prazer rápido e fácil é o que todos querem, o máximo possível. Ou pelo menos a maioria. No início, entre namorar e ficar, as pessoas preferiam ficar, pois não encontravam alguém legal para namorar, ou algo do tipo. Justo. O problema é que, nessa onda de se relacionar, é um prazer mais fácil, e com menos perigo de trazer um sofrimento depois ficar com alguém, do que arriscar num namoro. As pessoas, então, começam a fugir umas das outras, muitas vezes evitando se aprofundar num relacionamento, com medo de que aconteça alguma coisa, de que você não queira mais largar aquela pessoa, ou com medo de ter que se engajar em algo mais sério.

E isso também acontece na música, nas artes, e em tudo que foi feito por nós, e para nós. Ou a maioria. Simplificação, industrialização, venda em massa. Até mesmo a contra-cultura é um produto da grande mídia hoje em dia. As pessoas tem medo até mesmo de buscar o que as fazem felizes, com medo de que isso não dê dinheiro. E isso é muito triste, pelo menos para mim.

Eu acho que em todos esses casos que eu citei eu sou mesmo um antiquado. Gosto de arranjar confusão pelas coisas, quando acho que estou certo. Luto com garras e dentes pelos meus ideais, sempre que possível. Claro que as vezes eu acabo não fazendo isso, mas eu tento. Com mulher, eu gosto de conhecer a pessoa, me aprofundar em algo. Sei lá, não curto muito essa coisa de beijar alguém que eu nunca vi na vida. Pra mim, pra eu querer ter alguma coisa com uma menina, eu tenho que ser atraído de pelo menos duas, das três formas de atração que eu gosto de falar que existem. E acabo mesmo me envolvendo, às vezes sofrendo, mas sendo muito feliz, mesmo nesse sofrimento. Porque eu acho que vale a pena sofrer por bons momentos. Acho que pode ser um pagamento à altura.

Então acabo gostando mesmo das pessoas. Não só das meninas com quem me relaciono, mas de todo mundo com quem eu gosto de conversar. Acabo sentindo falta das pessoas, me importando com elas, acima do comum. Acabo mesmo sendo viciado em gente. Em companhia das pessoas, em afeto, amor. E isso gera saudade. E essa saudade ganha tamanho, e se extende também para o que eu nunca vivi. Mas o que eu queria ter vivido. Tempos difíceis, mas desafiadores, que vieram muito antes de eu nascer. Nostalgia inexistente. E com o tempo, essa nostalgia perde espaço para a saudade por pessoas. Pessoas especiais, importantes. Pessoas que eu queria sempre ter ao lado, e que eu quero sempre ter por perto.

Acho que eu me vejo, então, como um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. Nasci um resquício do mundo do profundo, do concreto, mas nasci no mundo leviano. E por isso, busco sempre pessoas que também são esses resquícios. Pessoas que também sentem de verdade, que também vivem o intenso, o concreto. Pessoas que possuem ideais, e sonhos de verdade, algo além de ter um carro bonito. E passo a sentir falta delas, quando não estão por perto. Sinto falta de grandes amigos, sinto falta de grandes amigas, sinto falta da menina da França. Sofro, vivo intensamente. Sofro de saudades, sentimento que só existe na língua portuguesa, sentimento pelo qual as pessoas não acreditam mais que vale a pena sofrer. E não me arrependo. Pois sentir saudade é gostoso, pois sentindo saudade você tem a oportunidade de matar a própria.

Portanto, sinto. E vivo, da minha maneira. De maneira mais parecida com a que os meus pais viveram, e vivem, do que com a que as outras pessoas do hoje, do amanhã, vivem, e viverão. E apesar de sentir, então, eternamente esse sentimento de que pertenço a um tempo que não vivi, vivo feliz. Com uma única utopia de fazer o meu próprio tempo, de fazer o tempo futuro ter mais a minha cara do que a cara da leviandade que o mundo de hoje trouxe. Vim do mundo de ontem, mas vim para o mundo do amanhã.