sexta-feira, 20 de julho de 2007

Um beijo

Um beijo, boa noite. Um beijo para você. Um beijo para quem fica, um beijo para quem foi, um beijo para quem não volta mais, um beijo. Um beijo pro meu pai, pra minha mãe, e especialmente pra você, xuxa! Um beijo, meu amor. A noite vai longe, já nas suas altas décimas primeiras horas, às cinco da manhã de Brasília. Mas estou no rio. O silêncio baixa como uma melancolia calma, até bonita. Essa tristeza das altas horas da noite, da solidão profunda, onde não há companhia nem das sombras, é até gostosa. Passada a loucura do dia, os altos e baixos de humor, o tédio do clima frio e nublado na cidade de praia, tudo tão próximo até alguns minutos atrás, parece agora distante. O mundo parece tão distante... do mundo! É bom. Deve ser algo como tomar morfina à beira da morte, um último prazer terreno antes de se livrar disso tudo. Até o cansaço parece se cansar de importunar. Fico aqui, ouvindo o que não há para se ouvir. Pensando, ouvindo, questionando o porquê das coisas.
Os minutos parecem não querer mais passar. Agradeço por essa trégua do tempo, paradoxalmente. Há poucos minutos mesmo, queria que esse tempo voasse, e levasse embora os dias tediosos, deixando apenas os dias que realmente podemos aproveitar. O sono vai tomando conta de tudo, e até mesmo a melancolia parece bocejar, e virar para o outro lado, me deixando em paz. É tão estranho viver acordado no tempo de sono do resto do país! É como se você não existisse, como se fosse um fantasma; Pois realmente, você não existe pra todo o resto. E se você não existe pra eles, eles também não existem pra você. E fico sozinho. Acompanhado do som do lápis torturando o papel em branco.
Então, vou dormir; nos braços da insônia, da noite, melancólica por estar chegando o seu fim. Vou dormir, para acordar no meio do sono, entre sonhos e delírios, tantas vezes durante uma mesma noite – ou dia. É, então, vou dormir afinal. Sem escrever nada! Sem falar nada. A noite vai chegando, a angustia e a melancolia continuam, mais baixam o tom, pelo cansaço... Fico como alguém que cansou de lutar contra o cativeiro, depois de tanto bater nas paredes. Um beijo pra você. Um beijo pra Martha também, menina da França. E um beijo para mim, que também preciso, enquanto tudo, enquanto tédio.
Um beijo.

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