quinta-feira, 12 de julho de 2007

O Som do Silêncio

Um dia os fantasmas da noite resolveram se revoltar. Como só viviam na noite, estavam cansados da escuridão. Obrigaram, então, o homem a tornar a noite mais clara, para que não tornassem a noite eterna. E então iluminamos a noite. Eu sinto uma paz de espírito fora do comum nessas horas entre a noite e o dia, horas que existem pra tão poucos. Acompanhado pelo sereno, e pelos postes a não iluminar ninguém, fico aqui só ouvindo o silêncio imponente, que ninguém além dos grilos e dos loucos ousa quebrar.

Fico aqui, pensando na minha vida, com uma facilidade que eu não encontro em casa. Ouço a ausência da maré ao longe, ainda tão estranha pra mim, depois desses meses do início do ano, na praia. O caio harmoniza a sinfonia da noite e do silêncio com harmônicas do violão, e eu penso. E aliviado, escrevo. Vejo o motoqueiro do jornal, trazendo as notícias antigas. É tão engraçado pensar que todo dia lemos as novidades quentes do mundo de ontem! Isso só vai reforçando o pensamento de que eu sou mesmo um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. E penso então, num sentido para tudo isso, mais uma vez. Outras dessas vezes me levaram à vestir a calça do pijama para sair, por vontade inocente; Também já acabei dormindo na rua, por isso; Corri feito louco, do nada, com medo de mim mesmo; Concordei com o impossível, e ri na cara da verdade, do real: esses nunca me pareceram absolutos.

O celular toca. É a mãe do Caio, mandando subir. Indiferente, me levanto, e na trilha sonora da minha vida, bem lá no fundo da minha cabeça, toca as músicas que aprendi a ouvir com a menina da França. O som do silêncio toma a dianteira, mas logo me vejo indo atrás de terras entre a praia e a água salgada, em algum lugar de uma certa feira de Scarborough.

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