sábado, 7 de julho de 2007

O Esquecer

“E porque, você que um dia quis marcar a ferro o seu nome na história, você que é um dos últimos a acreditar no amor, você, que desejou ser grande, que se fez presente na alma de toda uma geração, e continuará na alma de tantas, através da sua arte, através da sua força, através da sua história, que você impôs à História; Porque você, que marcou seu nome a fogo no sentido de humanidade, que provou que amor continua existindo, e não esse amor falso que hoje é tão presente no mundo, mas o amor simples, o amor que simplesmente existe, simplesmente é sentido, como algo distante, porém tão presente; Porque você, que se tornou um imortal entre os grandes, tornou-se o alinhamento das artes e das idéias, porque você, que se tornou a História, sendo possuidor do maior segredo, do maior dom da criatividade e do aprendizado, porque você foge de nós? Porque depois de todos os seus grandes feitos, depois de toda a sua criação suprema, depois de toda a sua humanidade transcrita à humanidade, porque você esconde-se de tudo o que conseguiu? Porque foge da sua própria pessoa, da sua própria figura de mestre, da sua própria figura de inspirador? Porque vive em fuga, não reconhecendo o seu próprio destino, a sua própria fortuna? Porque desaparece da frente de todos, e nos priva da sua sabedoria, da sua criação, da sua fertilidade de pensamentos, porque deixa de nos prover com mais de tudo isso, por quê? E porque foge de nós? Nós, que estivemos a seu redor durante toda a sua vida? Que o apoiamos em tudo, que participamos do seu crescimento, que estivemos aqui antes de tudo isso? Porque você me abandona, abandona o meu amor, e o amor de seus melhores amigos, e toda a sua história com eles, com nós? Porque ao invés de apenas viver apenas alheio à sua grandeza, viver em seu esquecimento, como se nunca houvesse se tornado realmente grande, procura também abandonar tudo o que te embasou a ser grande? Até nós, que nunca precisamos de nada disso para te apoiar, para lembrar de você, para viver você, porque até nós você abandonou, e fugiu para esses ermos? Porque você foge até de mim? Eu, que te amei durante todo esse tempo, e me entreguei por completo a você, amando a você, e apenas a você, aprendendo que o amor realmente existe nessa forma absoluta, aprendendo a amar com você? Porque até a mim, que continuei ao seu lado quando o mundo procurou expulsar a todos, porque abandonou até que mais te ama nesse mundo? Porque procura me esquecer? Nos esquecer? A todos nós? Porque busca esquecer o seu passado?”

Ele, então, olhou ao seu redor, de cima daquela colina. Olhou todas aquelas árvores, aquele verde que o circundava, e pensou. Pensou em seu passado, pensou em sua amada, que estava à sua frente. Sentiu os raios solares irradiados à sua pele, chegando em ondas, na velocidade da luz, ininterruptamente, e sentiu-se momentaneamente bem. Esqueceu por um momento toda aquela angústia, trazida pelo mesmo motivo que realmente trouxe aquela por quem sentia amor àquele lugar: Seu presente. Sua grandeza, seu nome, buscado e conseguido de forma tão ingênua. Com um entusiasmo adolescente, buscou dês de sua juventude tornar-se aquele que era hoje, através da sua grande capacidade de pensar, e criar. Escreveu, pintou, esculpiu, discutiu, musicou; Através de todas as artes, inclusive a de pensar, e a de falar, atingiu a redenção. Chegou, em todos esses campos, a um lugar nunca antes visitado; E chegando a este lugar, concluiu que não há arte ou corrente melhor do que outra, apenas grandezas incomparáveis. Porém, com a idade, percebeu então que mais ninguém, em toda a sua geração, e em todas as próximas gerações que ele veria, perceberia isso além dele. Percebeu, então, que o mundo vivia rankings, onde tudo era classificado; que o mundo nunca perceberia que nisso, não há gênios. Há apenas humanidade.

Ouviu, em algum lugar perto, dentro do bosque que descia daquela bonita colina, a água. Algum rio nascia, eternamente, duma cachoeira que descia justo daquele lugar que escolhera subir. Provavelmente, todo aquele bosque só existia por causa desse rio. O bosque dava vida a tantos animais, que se alimentariam de outros animais, e serviriam de alimento a outros animais. E assim a vida seguia simples, com amor. Isso sim é genial, pensou. Pensou, então, em todos aqueles que nunca conhecera, e que o veneram como um deus, ou alguma entidade suprema diferente, um poço de energia. Pensou no absurdo de todas essas pessoas evocando sua memória, eternamente, por causa de um livro, um quadro, uma música. Sentiu náuseas ao imaginar pessoas se referindo a ele com um apelido carinhoso, como se o conhecessem de toda uma vida. Pensou também no orgulho de seus amigos, e daquela que o acompanhava, em encher o peito e dizer que o conhecera, ainda antes de sua grandeza. Hoje não mais compreendia a razão de ser desse orgulho, ou dessa simpatia, ou dessa veneração que havia, e haveria para com ele, só por causa de um amontoado de idéias. Pensou, então, no desespero de todos aqueles ditos gênios da humanidade, que vieram antes dele, aos quais era agora incluso, contra sua própria vontade. Pensou no desespero deles em chegar a este ponto, e descobrir que era uma tarefa impossível, como ensinar um cego a ver. A angústia toda voltou, e apenas o cheiro das flores, que não conhecia, dava algum consolo a ele. Olhou o horizonte e o céu azul, límpido, logo acima. Concluiu então, que fizera a decisão correta; Estava certo.

“Sim, fujo do mundo. Desapareci, não deixei pistas, procurei me transformar em fumaça, sim, fiz tudo isso. Abandonei até mesmo meus melhores amigos, aqueles que estiveram comigo durante todo esse tempo, dês de antes de tudo isso ocorrer. Optei por esquecer que tudo isso ocorreu, mas fugi para cá, para essa colina verde, e não apareci nem mesmo para aqueles que sempre me apoiaram. Abandonei até mesmo você, que me amou, da forma que te ensinei que era possível, e que amei de volta, como amei outras antes, mas de uma forma muito mais simples, absoluta, do que a qualquer outra. Sim, sim, procurei esquecer até mesmo o meu passado. Pois bem: Fugi de tudo aquilo que consegui, mas que quis por ingenuidade. Fugi de uma falsa grandeza, de uma mistificação que criaram em volta de alguém que descobriu que nunca quis nada além de ser feliz, e de criar. Porque criar é a essência da vida. Mas a vida não é eterna, e a criação, como se tornou, é uma maldição. É uma maldição pois é a imortalidade. Procurei esquecer tudo, pois dizem que um demônio não consegue te ver, se você não o olhar de volta. Procurei esquecer, para assim, ser esquecido. Fugi do meu presente, e do meu passado, para não me haver futuro. Um futuro eterno, sendo venerado, como o é Da Vinci, Bach, Cervantes. Tenho pena deles todos: Nunca serão esquecidos. O esquecimento é a maior das dádivas! Ele te permite descansar em paz, eternamente! Sem sua memória ser evocada, e venerada, enfim, você pode ser eterno. Eternamente esquecido, embaixo da terra, em plenitude com o mundo, com a natureza. E isso é o que eu mais desejo. Por isso, hoje fujo de todos aqueles que um dia possam se lembrar de mim, para que talvez assim, me esqueçam. Fujo até mesmo de você, a quem tanto amo. Pois é preferível um pequeno mal à um mal maior. Melhor uma dor que sentirei até morrer, do que uma dor que passarei a sentir a partir daí. Perdão, por te abandonar, peço-te perdão, mil vezes! Mas é preciso. Busquei entrar no inferno, pensando que chegava aos céus; Agora só desejo sair.”

Perplexa, ela o olhou nos olhos, e não viu qualquer sinal de insanidade, que às vezes se fazia presente naquela pessoa. O amor, simples, absoluto, se fez então presente. Ela o beijou na boca, e seu coração e cérebro ordenaram que ela esquecesse quem ele era, ou fora. Olhou então, aquele estranho, e sentiu um amor eterno por ele. Sentiu também seu desejo por paz e, então, o abandonou naquela colina. E todos aqueles que a encontraram a partir daí, também o esqueceram, e tudo o que ele produzira um dia, passou a não fazer sentido. O mundo, gradualmente, passou a esquecer que aquele artista um dia existira. O nome dele deixou de existir, gradualmente. Toda aquela obra, reunida em quadros, livros, músicas, filosofia, peças, tudo aquilo estava ali, reunido, facilmente identificável como algo produzido por uma só pessoa, misteriosa. Ninguém sabia dizer quem era aquele grande gênio, aquele grande produtor, benfeitor à humanidade. E assim, sua memória se fez esquecida, antes mesmo que morresse. Mas na verdade, aqueles que o amaram de verdade nunca o esqueceram. Uma vaga lembrança de uma pessoa, um nome, um grande, continuou eternamente na mente deles. Sua amante, aquela que dele aprendeu a amar simplesmente, sentiu, mais que todos os outros, um amor distante, por uma pessoa muito importante, que sabia quem era, apesar de amá-lo demais para se permitir lembrar. Sentia saudades imensas por essa pessoa, e amargou uma nostalgia melancólica, gostosa, vivendo aquele amor, junto a ele, apesar de separados. E esquecido, ele pôde então, um dia, ter a oportunidade de descansar em paz.

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