É triste pensar assim, mas alguns sentimentos nunca passam, não importa quanto tempo passe. E geralmente, esses sentimentos são ruins. Eu tenho a impressão que vou carregar um deles por toda a minha vida. Esses sentimentos, que nos machucam, nos deprimem, nos fazem paranóicos, passamos a planejar a nossa vida contra eles, quando na verdade eles estão tão presentes na nossa vida que fazem parte de nosso ser, e qualquer tentativa de lutar contra eles seria como tentar lutar contra si mesmo. O que acontece é, com o tempo, muitos de nós conseguimos conviver com eles, carregá-los, tendo apenas alguns pequenos acessos ocasionalmente. Tornam-se suportáveis, pois nos acostumamos a eles. Matam sonhos nossos, geram frustrações, nos afastam de outras pessoas, nos aproximam de outras, às vezes ruins para nós, torturando nossa existência, até que, na maior das sortes, aprendemos a ignorá-lo, superá-lo, ou coexistir com ele.
Pois bem, tenho um sentimento assim. E esse eu sei que nunca vou superar, nunca vou poder ignorar, e nunca vai morrer. Pois o sentimento que eu tenho está relacionado a mim, e ao mundo, o mundo de hoje, o mundo em que nascemos. Mais especifica-mente, está relacionado ao modo que as pessoas vivem, se comportam, se divertem, se relacionam, ganham a vida.
Eu por exemplo, sempre tive um contato muito intenso com computadores. Dês de pequeno, tinha um computador em casa, e na curiosidade, acabei aprendendo na marra a mexer naquele treco. Mas eu sempre gostei de escrever no papel. Num sei porque, mas eu sempre preferi pegar um lápis, ou uma caneta, e escrever no papel do que no computador. É engraçado, porque isso acontece com muitas coisas da era do terceiro milênio. É uma espécie de sentimento de que eu nasci atrasado, tipo uns vinte, trinta anos. Porque eu tenho essa coisa dentro de mim que me dá vontade de lutar pelos meus ideais, de viver coisas intensas, de que o prazer fácil não tem graça, de que coisas muito superficiais e levianas não me interessam.
A minha geração é uma geração estagnada. Desinteressada por tudo e qualquer coisa, é sério. Pelo menos de uma forma geral. Porque, no ontem, existiam duas formas de lutar por algo que você quer. O primeiro era pegando em armas, indo fazer uma bagunça, uma “revolução” pelos seus direitos. E o outro era pela votação, pela maioria de voto. Eram duas coisas incontestáveis, que todo tirano temia, porque é a força de um povo reunida por uma vontade em comum, e contra o filho-da-puta. E qual não é a minha frustração quando eu vejo um monte de merda acontecendo, um monte de gente “revoltada” contra isso, e ninguém fazendo nada? “em quem você vai votar?”, pergunto. “Ah, em ninguém ainda, num sou obrigado...” A única explicação é esse egoísmo generalizado que vem ganhando cada vez mais lugar no século vinte e um. É moleque demais pra sentir no bolso ainda, ou na pele, então num faz nada pra mudar, enquanto não afeta diretamente.
E o bonito é que isso não se restringe só à luta, ao protesto. As forças da leviandade ganharam a guerra. O prazer rápido e fácil é o que todos querem, o máximo possível. Ou pelo menos a maioria. No início, entre namorar e ficar, as pessoas preferiam ficar, pois não encontravam alguém legal para namorar, ou algo do tipo. Justo. O problema é que, nessa onda de se relacionar, é um prazer mais fácil, e com menos perigo de trazer um sofrimento depois ficar com alguém, do que arriscar num namoro. As pessoas, então, começam a fugir umas das outras, muitas vezes evitando se aprofundar num relacionamento, com medo de que aconteça alguma coisa, de que você não queira mais largar aquela pessoa, ou com medo de ter que se engajar em algo mais sério.
E isso também acontece na música, nas artes, e em tudo que foi feito por nós, e para nós. Ou a maioria. Simplificação, industrialização, venda
Eu acho que em todos esses casos que eu citei eu sou mesmo um antiquado. Gosto de arranjar confusão pelas coisas, quando acho que estou certo. Luto com garras e dentes pelos meus ideais, sempre que possível. Claro que as vezes eu acabo não fazendo isso, mas eu tento. Com mulher, eu gosto de conhecer a pessoa, me aprofundar
Então acabo gostando mesmo das pessoas. Não só das meninas com quem me relaciono, mas de todo mundo com quem eu gosto de conversar. Acabo sentindo falta das pessoas, me importando com elas, acima do comum. Acabo mesmo sendo viciado
Acho que eu me vejo, então, como um caminheiro de ontem no mundo do amanhã. Nasci um resquício do mundo do profundo, do concreto, mas nasci no mundo leviano. E por isso, busco sempre pessoas que também são esses resquícios. Pessoas que também sentem de verdade, que também vivem o intenso, o concreto. Pessoas que possuem ideais, e sonhos de verdade, algo além de ter um carro bonito. E passo a sentir falta delas, quando não estão por perto. Sinto falta de grandes amigos, sinto falta de grandes amigas, sinto falta da menina da França. Sofro, vivo intensamente. Sofro de saudades, sentimento que só existe na língua portuguesa, sentimento pelo qual as pessoas não acreditam mais que vale a pena sofrer. E não me arrependo. Pois sentir saudade é gostoso, pois sentindo saudade você tem a oportunidade de matar a própria.
Portanto, sinto. E vivo, da minha maneira. De maneira mais parecida com a que os meus pais viveram, e vivem, do que com a que as outras pessoas do hoje, do amanhã, vivem, e viverão. E apesar de sentir, então, eternamente esse sentimento de que pertenço a um tempo que não vivi, vivo feliz. Com uma única utopia de fazer o meu próprio tempo, de fazer o tempo futuro ter mais a minha cara do que a cara da leviandade que o mundo de hoje trouxe. Vim do mundo de ontem, mas vim para o mundo do amanhã.
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