Repentinamente, me vejo só. Só, só, só. Olho em volta, e sumiu. Sumiram todos. O quarto à minha volta começa a crescer, se agigantar, se transformar num mundo inteiro. As mesas são agora montanhas, o chão um grande mar, e a minha cama, último porto seguro que sobra. Nesse universo crescente, começo a me sentir cada vez mais sufocado, cada vez mais preso, quanto mais ele cresce. Inconscientemente, uma prisão começa a se formar em volta de mim, e começo a me sentir claustrofóbico, tamanha a imensidão, vazia, que me cerca. Começo a ser esmagado pelo peso do vazio. O oxigênio, de tão abundante, começa a me faltar, pois minhas narinas nunca antes respiraram sem dividi-lo com pessoas. Pessoas que eu gosto, pessoas especiais. Pessoas que vem e vão, Entrando e saindo por portas da vida.
Enquanto sozinho, percebo o quanto o Sol é importante para mim, o quanto ele me acompanha, me dá forças, e que sempre que eu precisei de companhia e de forças, ele estava lá, me olhando paternalmente, sempre em busca de me ajudar. Mas zombando de mim, a vida também o tira, e o quarto fica cada vez mais escuro, com o afastamento dela. Sinto medo, sinto tristeza, mas também compreendo os caminhos que a vida toma, o que me deixa ainda mais impotente em minha dor. Sabendo como e porque a vida escolheu seus desvios, é impossível sentir raiva, esse sentimento ingênuo e feliz, que nos ajuda a passar por alguns dos momentos difíceis da vida. É impossível odiar, ou ter uma raiva real de alguém importante para você, alguém que você goste. E nessas horas, só podemos desejar boa viagem, e esperar que o retorno realmente retorne, apesar de todo o medo que sentimos da mudança, da mudança que essas viagens fazem nas pessoas.
E tudo isso escurece meu mundo, pois surge medo, surge dúvida, e apesar de não criar expectativas racionais, estamos sempre esperando algo, sempre débeis seres confiantes de que a vida enfim vai cooperar, quando na verdade somos apenas nós que não cooperamos seguindo o caminho que ela nos impõe. Balançamos inutilmente em suas tempestades, com completa certeza de que sabemos exatamente para onde estamos indo.
E ali, no escuro sozinho do meu mundo, algo me faz rir de todos os seres humanos, inclusive eu mesmo. A lua navega pelos céus do meu quarto, zombando de mim, lá no alto, me olhando. Lembro de todas as luas que passaram pela minha vida, e da relação de amor e ódio que criei com o satélite. Sempre joguei a culpa de todas as decepções da minha vida na lua, odiando-a sempre que necessário. E então, nunca mais consegui parar de rir. Pois a lua está sempre lá, nos olhando, indiferente em sua grandeza. E por estar sempre lá, presente, sempre achamos que ela está olhando por nós, nos acolhendo, ou nos olhando com a severidade de quem nos tortura, enquanto na verdade ela está apenas olhando. Não zomba, não ri, não chora. Apenas observa, serena em suas noites. E mesmo assim, odiei-a, com todas as minhas forças, por tudo que acontecera na última semana. Culpei-a por tudo que ocorrera, que me machucara, que me fizera sofrer, e xinguei seu olhar indiferente nos céus.
Mas então, uma pequena estrela cadente cruzou as paredes negras do mundo-quarto, e eu, impressionado como uma criança, compreendi a grandeza de tudo. Percebi que a vida é linda justamente por não podermos escolher nossos caminhos, e percebi que todos os fatos felizes que ocorreram na minha vida, inclusive ela, se deram apenas pelo motivo de eu não ter podido seguir o caminho que desejava seguir. Percebi que a graça da vida é não esperar que as coisas aconteçam, pois acontecerão sempre do jeito que os próprios fatos acharem mais legal, ou mais bonito, ou mais divertido. Amei então a lua, minha segunda mãe, aquela que esteve sempre presente, nos momentos bons e ruins da minha vida, indiferente aos meus sentimentos, contente em apenas me olhar, me admirar, como sempre a admirei, mesmo quando com raiva. E nada mais de ruim senti, e compreendi, e esperei Agosto, sozinho, no escuro mundo claustrofóbico do meu quarto, mas agora iluminado pela companhia de alguém tão ilustre quanto a própria lua.
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