Então ali fiquei, encarando-o, desesperado demais para me desesperar, triste demais para chorar, assustado demais para gritar. Era uma sensação que eu nunca sentira antes: Sublime, completa, absoluta, e absolutamente aterradora.
Então ali eu fiquei, sentindo-o me sentir, olhando-o me olhar, sendo envolvido pelo meu abraço que ele me dava. E era um sentimento ruim. E era como se eu não pudesse abraçar ninguém, como se eu não pudesse xingar ninguém, como se mesmo aqueles que eu sempre odiei eu fosse obrigado a amar, e todas aquelas que amei, agora era obrigado a odiar. Era uma sensação absurda. O medo era tão grande, perante aquilo, flutuando ali, entre os quatro céus, descobrindo, enfim que não existia então um Deus, ou um inferno, apenas aquilo. Foi quando me dei conta que eu ainda não havia morrido.
Então ali fiquei, encarando-o, consciente demais para acordar, compreensivo demais para compreender. E o que tinha para acordar? Eu estava completamente acordado. E que tinha para compreender? Naquele momento eu sabia de tudo. Então ali fiquei, encarando-o, esperando a morte, o sono, ou qualquer outra coisa. E o silêncio era absurdo. Gritante. Queria falar, mas não tinha vontade. Queria ouvir, mas também não tinha vontade. Queria esperar. Só esperar. Mas também não tinha vontade para isso.
Então, eu nada. Digo nada, pois não há um verbo que o diga, mas eu nada. Olhei-o, esperei que me matasse, que risse de mim, que escarnecesse da minha humanidade, que chorasse, que qualquer coisa! E nada fez.
O inferno era esse: O céu. E o diabo era aquilo. Não era um ser mau, ou bom. Era apenas nada. Parava ali, tomava-te por completo, e olhava eternamente a sua cara, enquanto você esperava a paz derradeira que nunca viria. Não ria, pois não havia graça, ela nunca existira. Não chorava, pois a tristeza era coisa de outro mundo, que também não existia. Só olhava, sem olhos. E você descobria que havia sonhado durante toda a sua vida, e que não existiam pessoas, humanidade, ou qualquer outra palavra que você criou durante seus anos de história. Ninguém nunca existira, fora sempre você, e o seu mundo. Até que você acordasse e fosse você, e ele. Para todo o sempre.
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