domingo, 3 de junho de 2007

Dinheiro é cultura

Descobri que esse vazio que sentem todos da minha geração é resultado de onde chegamos, do tempo em que vivemos. Nós chegamos um período de transição, um conflito entre duas eras. Um conflito aberto em todas as frentes, entre todos e tudo. Um conflito velado entre uma cultura antiga, e uma cultura em processo de síntese. E o vazio, que muitos de nós sentimos, é criado pelo sofrimento daqueles que admiram essa cultura antiga, ao perceber que ela enfim está cedendo, abrindo espaço para o novo, para o moderno.

É o “progresso”. Mas o que muitos não conseguem perceber é que o “progresso”, que é o nome que damos de forma geral para avanço hoje em dia, nem sempre caminha para melhor. Na verdade, o “progresso” moderno nem sempre caminha para algum lugar, mudando-se para um caminho lateral, perpendicular ao tão querido avanço, este que também nem sempre avança pra melhor. E outra coisa que não percebem, é que a era da qual estamos saindo, também é uma que a muito está decaindo. Com o fim do reino do rock, que foi o último estilo musical a buscar uma idealização, uma perfeição em sua música, e conseqüentemente a riqueza, sobram os últimos da classe musical, já corrompidos pela cultura social do lucro acima de tudo, buscando apenas a riqueza, dragando a música de volta para seu estágio inicial, o mais simples e prático possível. Tomando uma batida única, e quebrando qualquer tipo de estética para compor as letras musicais, hoje os “músicos” conseguiram fazer a música retroceder milênios ao criar os estilos musicais mais populares de nossos dias. E por isso se condenaram a serem os últimos. A música se tornou tão simples que logo não precisará mais de músicos, pois um computador já dá conta do recado. Simplesmente aceitaram que a música não é nada mais que um pano de fundo para festas, como a grande maioria da sociedade pensa, e não tentaram de forma alguma mudar isso, resgatar o gosto pela música, já que o lucro vem mais rápido se simplesmente não movessem um dedo.

Durante todo o século XX, as pessoas foram mais e mais aderindo à cultura do prático, do lucro, do consumo, mas os estilos musicais das épocas anteriores sempre comportaram espaço para aqueles que realmente amavam a música, e não suas conseqüências. Mas os atuais finalmente fecharam essa porta.

E em todas as outras frentes, a história se repete. Vemos o raso e o descartável lentamente começarem a tomar os palcos, pelo besteirol. Porém é um processo que ainda possui seus opositores. No cinema, já está bem engatado, apesar de, de vez em quando, surgirem alguns Fidéis, para contrariar as leis da física de Hollywood. E é fácil perceber que o caminho é irreversível, e que se dará em todas as artes, inclusive a de pensar.

Alguns encaram isso como o fim do mundo. Eu vejo só como uma mudança. Ruim, porém só uma mudança. Eu digo então: Bem feito! Só não sei se existe alguém para vir dizer “Eu avisei!”. Pois parte da culpa disso tudo é daqueles que se rotulam “cult”. É um grupo hoje crescente, que antes estavam no grupo dos artistas, dos apreciadores da arte, revolucionários, criadores da arte. Hoje, revolucionários sem revolução. Pois por algum motivo, os cultistas se resignaram a parar de criar, a apenas apreciar o passado. Aqueles que sabem ver como nosso passado é rico são muitos. Agora, os que levam esse passado adiante, a antiga tradição de criar, são muito poucos. Existem muitos, bons nas artes antigas. E raros que criam novas artes. Os “cults” dormiram. Passaram a pensar que só o fato de ser antigo, ou seguir uma velha estética, faz com que algo seja bom. E que só por algo ser novo, é ruim.

E daí, tornaram-se fantasmas. E se os que deviam criar por criar, criar por amor à arte, não apreciam mais o novo, não é a toa que os parasitas tomaram toda a cena da criação, tornando-a fútil e descartável. Vivemos, então, a cultura do dinheiro. Cultura passou a ser dinheiro, ou melhor, dinheiro virou cultura. Então, hoje vivemos o vazio, e a esperança nos híbridos, nos renegados de todos, aqueles que são cabeças-duras o suficiente para criar por criar. E não criar apenas por grana.

Sou um dos poços que estão em cima do muro. Não acho que é o fim do mundo, o ponto a que chegamos. Tampouco saúdo essa nova era, onde o dinheiro virou poder, e nem mesmo a inteligência usada para fins malévolos consegue vencer a sua força. Para mim é só uma decadência. Uma era onde o mundo retrocedeu, culturalmente. E não vou chorar o defunto da arte. Mas serei sempre saudoso a ele.

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