Já não escrevo como antes. Talvez seja porque passei por tudo, talvez seja apenas porque já me dói de forma diferente todas as dores do meu corpo. Por pouca vontade, exponho textos antigos; Antigas feridas, abertas eternamente como em foto, apesar de já não sentir sua dor, apesar de tais dores já me serem tão familiares, que deixaram a muito de me incomodar. Lembranças e saudades, de tempos saudosos e repletos de memórias. Parece, às vezes, que sou tudo isso, mas apenas isso: Lembranças, saudades. Saudades que senti, que sinto, que sentirei, que talvez, no meio dessa dormência, me esqueça do gosto, do cheiro, da sensação específica. Luas, lençóis, sorrisos, piscadelas, jeitos. Jeito próprio de piscar os olhos, expressões faciais marcantes. Tudo lembranças.
Já não escrevo tanto quanto antes, ou tão bem. Tanto, pois aparentemente as minhas marés fizeram trégua, e já não tenho tanta vontade de escrever. Tudo bem, tudo bem, todos dizem, é passageiro, é fase, e sei que é verdade. Mas já não escrevo tanto, e tão bem quanto antes, pois hoje sou outro, e não sei se isso é triste, feliz, ou simplesmente indiferente. É tudo questão de lembranças, De já vus, pouco modificados: Mesmo local, relativamente mesmas personagens, situação completamente diferente. Parte de mim chora; Conservador como sou, nunca desejei tal mudança. Parte de mim sorri; O espírito revolucionário aceita mudanças sem pestanejar, acaricia o passado, mas ama o futuro, e conseqüentemente, o presente: Situação nova, situação boa. Uma terceira parte, simplesmente se sente atordoada, tão triste quanto feliz, nervosa. Pessoas importantes para mim, de diferentes épocas, se encontram todas. Antigas mágoas, antigas fotos felizes, antigas peças, antigas músicas. Antigos amores, antigos ódios, situações, momentos, loucuras!
O isqueiro salva a muitos. Levantado ao ar, ou levantado à boca, uma simples fricção de uma roda áspera de metal numa pedra de pólvora, uma centelha, uma centelha que acende um gás, gás esse que é alucinógeno, gás esse que pode destruir um cérebro, gás esse que queima belo. Erguido acima da cabeça, afasta toda a escuridão que cai sobre a minha alma, sobre o meu coração, sobre o meu casaco. Erguido acima do meu queixo, ou do queixo de outros, afasta a realidade, afasta o nervosismo, afasta a escuridão, ilumina rostos. Por algum motivo não me sinto mal com a escuridão afastada. Os rostos são nítidos. Os rostos se estranham. Os rostos se olham, de relance, algumas poucas vezes. Os rostos enchem-se de ar, esvaziam-se de ar, sufocam-se a si mesmos, ficam felizes. A situação é esquisitíssima, porém os rostos não se comentam. Apesar de todos os rostos, ou quase todos, estarem a par da situação, Um rosto esconde a surpresa, e permanece sem reação. O isqueiro já não é necessário, o ambiente se bruma entre os rostos, inutilmente, ocupando os últimos vazios no meio do nevoeiro. Os rostos estão acostumados com a névoa, mas há muito não se olham de perto, há muito não se falam, e continuam sem falar. Provavelmente, ambos os rostos tem muito o que dizer, muito o que sentir, muito o que temer. Mas palavra alguma é proferida. Se juntam perto do fogo, fogem assim da escura realidade que os compõe. Porém, não deixam orgulho, posição, respeito, realidade. Resolvem, silenciosamente, portanto, prorrogarem uma futura mudança, ou diria, re-mudança. Beijos não são trocados, abraços também não, tampouco comprimentos. O rosto se vai em meio à multidão.
Mais tarde, já sem um isqueiro, já sem rostos, resolvo ir embora. Um beijo na face sela qualquer coisa. Talvez um até nunca mais, talvez um até amanhã. Por mais que eu me importe, não me importo. A realidade é morta, a saudade é ignorada, sentimentos podem não existir, quando necessário. Triste? Diria real. Pergunte às brumas de Avalon, em Brasília, na UnB, ou até na torre, ou no CCBB. Lembranças me compõem, porém já não ligo para identidade.
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