Não é dúvida para ninguém que, o objetivo supremo de todo ser humano é simplesmente aparecer, fazer com que seja lembrado, se auto-promover, rumo à imortalidade de sua imagem. Todo ser humano tem a necessidade básica de ser lembrado, afirmando assim que existe, que existiu, e que continuará existindo. Para isso, passam a vida se utilizando de seu potencial, a fim de criar algo digno de lembrança, de existência. A única coisa que nos garante nossa existência são nossas ações. Só somos lembrados uns pelos outros, pois falamos de alguma coisa interessante ontem, abrimos nossa casa para uma festa, nos tornamos influentes por acumulação de riqueza, ou contatos, ou se fazemos algo digno de imortalidade: Como uma obra de arte. Quando criamos algo reconhecido, aparecemos. Tornamos-nos reais para uma poderosa parcela de população que, antes, ignorava nossa existência, e assim temos a nossa realidade dissolvida entre as memórias dessas tantas pessoas. Deixamos de depender de apenas nós mesmos para existir, e passamos a existir no imaginário, ou memória coletiva de um grupo de pessoas. Marcamos assim, por tempo indeterminado, nosso nome na história, tendo a memória passada a cada geração, até cair, uma vez mais, no esquecimento, quando perdemos nossa importância. Apenas os verdadeiramente grandes se tornam nomes imortais.
Portanto, tudo o que o ser humano faz em sua vida inteira, é um serviço básico de manutenção corporal e mental, enquanto busca se tornar uma pessoa ímpar no que faz, para poder produzir, criar, sintetizar informações e sentimentos, assim sendo reconhecido, aparecendo, ganhando reconhecimento, poder, imortalidade, um lugar entre os gênios da humanidade. O sentido da vida humana é transformar-se formalmente em deus, ou qualquer outro nome que deseje dar a essa figura. O ser humano reconhece-se um deus a partir do momento em que é humano, se colocando no centro de tudo, e se dando o direito de tudo modificar e transformar, se tiver o poder de fazê-lo. As diversas religiões do planeta afirmam que o sentido, ou a “missão” do ser humano na Terra é definido e conhecido pelo transcendente, o criador. Pois eu afirmo que o sentido auto-imposto, inconscientemente, pelo homem e pela sociedade, se torna, invariavelmente, assumir o papel de criador. Lembrado como um deus: É o sonho de todo grande ser humano, que busca criar e revolucionar o universo à sua volta, o universo no qual se relacionam as pessoas. Para si, todo ser pensante é deus. Ele próprio, e seu bom senso, as leis que regem seu cérebro, são o último e primeiro definidor das verdades de sua própria compreensão. Como humanos, definimos em que acreditamos, em que cremos, o que seguimos. Nada pode nos ser imposto, no final das contas. Temos sempre a opção de não acreditar, e não acreditando fazemos uma ou outra verdade não existir para nós, e com isso, a ignoramos. Portanto, temos sempre a opção de ignorar tudo à nossa volta, ou acreditar em tudo; O que existe em uma mente não pode ser refutado por ninguém mais. E se definimos tudo o que há como existente dentro de nossa própria cabeça, nossa própria loucura particular, somos deuses absolutos em nossa própria cabeça, sem percebermos que tal poder existe.
Pois bem, o ser humano já se sabe deus, em sua profundeza mais íntima. Mas o ser humano sofre de uma suprema incerteza: Sua própria existência. Se tudo o que existe (ou não existe) depende da minha própria acepção para ser real, isso também vale para as outras pessoas em torno de mim. Uma pessoa só existe à partir do momento em que é visualizada, ou ouvida, ou lembrada, e mesmo assim, depende da assimilação do cérebro do telespectador (por assim dizer) para relacionar a imagem, ou o som, ou a lembrança daquele ser com aquela pessoa. Pois bem, se as pessoas só existem porque acredito em sua existência, porém são, assim como eu, capazes e executores desse mesmo método de compreender a realidade, portanto, só existo à partir do momento que aceitam minha existência? Portanto, para que eu seja uma pessoa, devo ser reconhecido como tal por meus semelhantes? E para ser um deus para o mundo da sociedade, como sou em minha própria mente, devo também ser reconhecido como tal pelas outras pessoas, portanto. Para tornar-se um deus, devemos abandonar nosso confortável mundo que já aceita, subserviente, essa condição de existência, e lutar pela nossa imortalidade no mundo do capital. Então entra toda a ação humana: Sangue de conquistador, partindo dos seguros reinos da consciência individual para o selvagem mundo dos homens. Nasce a busca pelo reconhecimento. A busca pela criação, pela inovação, pelo novo, pelo impressionante: Tudo para ser lembrado. A única garantia que tenho de existir é fazendo-me real entre os outros. Pobres deuses sem seguidores, egocêntricos inocentes, como a própria realidade humana. Penso que é uma condição triste. Escrevo a fim de me tornar grande, porém há sempre o fantasma da imortalidade, me testando, procurando saber se sou capaz, se sou grande o bastante, “o quão bom você é?”, e há também a minha própria consciência que diz, “você não é deus, deus não existe, você tem certeza que quer ser eterno?”.
Afinal, quer queira quer não, ninguém sabe, e duvido que saiba um dia, se há alguma coisa após a morte. Acredito eu que a morte, na verdade, não existe, e tenho esse direito. Existimos enquanto somos pensamento. Enquanto é possível pensar na existência de uma pessoa, essa pessoa continua existindo, graças ao imaginário coletivo. Imortalizar-se significa apenas nos tornar parte do universo do máximo de ser humanos possíveis, a fim de que continuemos a viver, em suas próprias realidades. Quando sua obra se torna realmente imortal, o criador é nela imortalizado. Cria-se um vínculo, criador-criatura, eterno, em que ele continua existindo graças à continuidade de sua obra, e a obra é real graças a um fruto da loucura particular do criador. Criador e obra tornam-se imortais porque seu conjunto de existência é importante o suficiente para a humanidade a ponto de serem lidos e relidos por cada nova geração. Aquele que era transcendente em seu próprio universo, passa a ser escravo da sua imortalidade no universo dos outros. A imortalidade é um inferno. É criminosa. Tira-nos o direito de escolher pela não-existência, como incógnitas, anônimos entre as grandes mentes, ilustres seres pensantes à sua volta. Escravos do simples ato de criar. É por isso que todo artista é um deus, porém ingênuo. Escravo de sua obra torna-se ela própria, e ela própria torna-se seu autor. Como “Deus”, escravo de sua criatura-homem.
3 comentários:
Você, Chico, é um escritor maravilhoso. Um pensador lúcido, visceral, preciso, é uma autópsia no cadáver do verbo. Esse texto é simplesmente lindo. Você é teósofo e não sabe, ou é budista e não tá ligado, não sei o que você é. Seu futuro é a imortalidade enquanto consciência, mesmo que os nomes se apaguem no vento, como sempre acontece. Haverá outros nomes, a imortalidade será alcançada no anonimato. Os maiores são anônimos, mas eu sou pequeno e humano, então, que venha a fama para nós todos, quando o karma estiver maduro. Quem planta colhe, e você é escritor.
Ademais, todos morreremos muitas vezes.
Chico eu acho esse texto maravilhoso! parabéns meu brother! aquele abraço
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